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Home  »  Revistas  »  Edição 2167 / 2 de junho de 2010


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Televisão

Tutti di nuovo!

O sotaque italiano de Passione pretende ser científico,
mas é a macarronada de sempre


Marcelo Marthe

Divulgação
DEU NÓ NA LÍNGUA
Totó (Tony Ramos) e sua irmã (Aracy Balabanian): a mamma virou glândula mamária


A estreia de Passione, nova trama das 8 da Globo, pôs em circulação uma piada recorrente quando italianos surgem nas novelas. "Nós especialistas costumamos brincar: lá vem mais uma campanha de prevenção do câncer de mama", diz Maria Vittoria Collela, italiana e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Passione comprova a sina em questão. Em visita a Roma, o personagem Totó (Tony Ramos) soltou um mamma com a pronúncia que se aplica em português à glândula mamária – e não com o som do primeiro "a" aberto, como um italiano de verdade se referiria à mãe. O deslize reafirma uma lei que os autores de folhetins insistem em desafiar: o sotaque estrangeiro não compensa. Esperança (2002), de Benedito Ruy Barbosa, foi um clássico trash nesse quesito: havia italianos que falavam como espanhóis e uma mocinha judia, vivida por Ana Paula Arosio, que atacava um iídiche com erres caipiras. E Tony Ramos é um prodígio da prosódia: passou do sotaque grego de Belíssima (2005) ao italianês de Passione sem que se percebesse, na prática, nenhuma diferença.

A Itália de Passione dá um nó na geografia. O núcleo familiar de Totó (cujo nome homenageia o comediante italiano Totò, mas se escreve como se fosse um cãozinho brasileiro) e sua sorella (irmã) interpretada por Aracy Balabanian vive na Toscana, no centro-norte do país. Mas eles cantam e gesticulam como napolitanos, lá do sul. "Escolhi a Toscana porque é linda. Mas a cultura napolitana tem mais apelo", diz o noveleiro Silvio de Abreu. A criação do italianês é trabalhosa. Crescido entre avós italianos, o autor escreve os diálogos na língua estrangeira. Em seguida, a especialista Cecilia Casini troca expressões difíceis por equivalentes em português. O sistema parece científico, mas o resultado é o mesmo de sempre: frases incompreensíveis, chiados cariocas interferindo com o italianês e demonstrações épicas de criatividade fonética por parte do elenco. "Italiano de novela é macarrônico mesmo", diz o autor. Não: como se dizia em Terra Nostra, é de tchorar.

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