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ser científico,
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NÓ NA LÍNGUA Totó (Tony Ramos) e sua irmã (Aracy Balabanian): a mamma virou glândula mamária |
A estreia de Passione, nova trama das 8 da Globo, pôs em circulação
uma piada recorrente quando italianos surgem nas novelas. "Nós especialistas
costumamos brincar: lá vem mais uma campanha de prevenção
do câncer de mama", diz Maria Vittoria Collela, italiana e professora
da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Passione comprova a sina em questão. Em visita a Roma, o personagem Totó
(Tony Ramos) soltou um mamma com a pronúncia que se aplica em português
à glândula mamária e não com o som do primeiro
"a" aberto, como um italiano de verdade se referiria à mãe.
O deslize reafirma uma lei que os autores de folhetins insistem em desafiar: o
sotaque estrangeiro não compensa. Esperança (2002), de Benedito
Ruy Barbosa, foi um clássico trash nesse quesito: havia italianos
que falavam como espanhóis e uma mocinha judia, vivida por Ana Paula Arosio,
que atacava um iídiche com erres caipiras. E Tony Ramos é um prodígio
da prosódia: passou do sotaque grego de Belíssima (2005)
ao italianês de Passione sem que se percebesse, na prática,
nenhuma diferença.
A Itália de Passione dá um nó na geografia. O núcleo familiar de Totó (cujo nome homenageia o comediante italiano Totò, mas se escreve como se fosse um cãozinho brasileiro) e sua sorella (irmã) interpretada por Aracy Balabanian vive na Toscana, no centro-norte do país. Mas eles cantam e gesticulam como napolitanos, lá do sul. "Escolhi a Toscana porque é linda. Mas a cultura napolitana tem mais apelo", diz o noveleiro Silvio de Abreu. A criação do italianês é trabalhosa. Crescido entre avós italianos, o autor escreve os diálogos na língua estrangeira. Em seguida, a especialista Cecilia Casini troca expressões difíceis por equivalentes em português. O sistema parece científico, mas o resultado é o mesmo de sempre: frases incompreensíveis, chiados cariocas interferindo com o italianês e demonstrações épicas de criatividade fonética por parte do elenco. "Italiano de novela é macarrônico mesmo", diz o autor. Não: como se dizia em Terra Nostra, é de tchorar.