Brasil
Ordem na casa do Lago Sul
O comando da campanha do PT à Presidência
teve de intervir pesado para evitar que companheiros afoitos reeditassem o escândalo
dos "aloprados" de 2006

Policarpo Junior e Daniel
Pereira
Fotos Sergio Dutti e Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press
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NOS OLHOS DOS OUTROS
O ex-prefeito Fernando Pimentel, coordenador da campanha de Dilma, desconfiou
de grampos na casa, mas para ele nenhum telefone é seguro |
"Campanha é lama, irmão!" Este era o bordão
usado por um operador de terceiro escalão do PT de São Paulo quando
seu chefe-candidato perguntava se ele e a turma não estariam indo longe
demais nas atividades de coleta de evidências potencialmente desastrosas
para os adversários. O candidato foi aceitando a justificativa até
que a lama estourou mesmo foi no colo dele. O PT nacional agiu de forma bem
mais rígida com os companheiros sinceros mas radicais que estavam tentando
montar em Brasília um esquema de espionagem de adversários e até
de correligionários rivais baseados na ideia de que campanha é
lama. Os companheiros mais afoitos foram ao mercado em busca das competências
necessárias à execução das missões planejadas.
Profissionais para esse tipo de trabalho abundam em Brasília, e eles
foram contatados. São policiais, ex-agentes dos serviços de espionagem
do governo e detetives particulares especializados em obter provas de adultério
ou fazer varreduras ambientais e telefônicas para afastar a possibilidade
de grampos. A turma começava a exercitar os músculos e testar
suas rotinas subterrâneas quando o pessoal do andar de cima soube do que
se passava naquela casa do Lago Sul protegida por muros altos e vigiada por
seguranças. Desceu sobre eles então uma rajada de bom senso vinda
do comando da campanha mandando parar com toda atividade de inteligência
que se valesse de métodos ilegais. Houve gritos de "é para
parar com isso já" e ameaças de demissão dos envolvidos
nos planos.
Fotos Sergio Dutti e Jose Varella
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ESTRANHOS NO NINHO
O delegado Onésimo (à dir.), que foi convidado para chefiar o grupo de
"inteligência" do PT, e o "contador" que cuida dos
pagamentos do comitê (à esq.) |
"Já tivemos problemas demais com esse tipo de coisa
no passado, deixando que fosse muito longe. A ordem agora foi cortar tudo pela
raiz de uma vez por todas", diz um dos mais próximos colaboradores
de Dilma Rousseff, candidata do PT, de quem partiu a ordem irada para alagar
os porões que, de outra forma, iniciariam suas operações.
Dilma deixou claro a outro colaborador próximo sua posição
sobre a questão: "Não é para fazer nada disso. Se
fizer, demito. Mesmo assim, se aparecer sobre minha mesa, jogo no lixo sem ler".
Bill Clinton, ex-presidente dos Estados Unidos, dizia com amargura que algumas
vezes ele se sentia de pés e mãos amarrados no exercício
do cargo, como se desse ordens em um cemitério: "Ninguém
embaixo ouve". Se na Presidência é assim, o que não
seria em uma campanha presidencial?
Em outras
palavras, será que a estrutura montada na casa de Brasília, alugada
por 18 000 reais, onde trabalham dezenas de pessoas, deu marcha a ré
na linha de montagem de ilegalidades e passou a funcionar apenas como o braço
de comunicação e internet da campanha? Ninguém pode responder
com toda a certeza. O que se sabe é que a linha justa foi dada por Dilma
Rousseff - e é sobejamente conhecida sua disposição,
demonstrada no cargo de ministra, de garantir que abaixo dela as pessoas não
se finjam de mortas para descumprir ordens.
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O HOMEM DA GRÁFICA
Benedito (no detalhe), dono de empresas que negociam com o governo e
ajudam o PT |
A casa do Lago
Sul não deve assombrar mais durante a campanha se depender da atividade
e - diga-se - competência da turma dos porões contatada
pelos companheiros mais afoitos. Antes que viesse a ordem de cima para interromper
as ações bem e mal-intencionadas, porém, foi uma festa de
trapalhadas. Os espiões foram a campo bisbilhotar a vida de adversários
políticos e até de petistas. Rui Falcão, vice-presidente
do PT e deputado estadual paulista, entrou no radar da arapongagem amiga. Ele
ficou sabendo e deu um espalho geral na turma da casa do Lago Sul. Falcão
foi informado de que não se tratava de espionagem, mas de contraespionagem
- ou seja, ele estava sendo investigado para seu próprio bem. Falcão
não se convenceu. Até os telefones do coordenador da campanha, Fernando
Pimentel, ex-prefeito de Belo Horizonte, podem ter sido grampeados. Não
se sabe bem se por espiões da casa ou do lado adversário. Pimentel
não deu ao episódio muita importância. Diz ele: "Eu trabalho
sempre com a hipótese de que todos os meus telefones estão grampeados.
Isso não me preocupa, pois, como dizia o doutor Tancredo Neves, telefone
é para marcar reunião no lugar errado e não comparecer".
Os repórteres de VEJA procuraram quem parece ser o responsável
pela casa do Lago Sul. Ele se chama Luiz Lanzetta e é dono da Lanza Comunicação,
uma das empresas contratadas pelo PT para coordenar a área de produção
dos programas de Dilma Rousseff. Lanzetta nega as intenções, mas
não nega que recrutou gente da pesada com experiência em espionagem
- ex-agentes dos serviços de inteligência, um delegado aposentado
da Polícia Federal e até um ex-jornalista que teria conhecidos
dotes investigativos. O grupo se reuniu pela primeira vez na área reservada
de um tradicional restaurante de Brasília, ocasião em que se discutiram
finanças e a maneira como seria feito o trabalho. Os pagamentos variavam
de 15 000 a 30 000 reais por mês e seriam feitos em dinheiro
vivo. Todos receberiam verba extra para custear as despesas operacionais. Do
encontro saiu uma lista de "alvos", da qual constavam o ex-governador
José Serra, candidato tucano à Presidência, e o deputado
Marcelo Itagiba (PMDB), identificado pelos presentes à reunião
como o "espião-chefe" da candidatura tucana. Mas como explicar
que entre os alvos estava o companheiro Rui Falcão? Um dos participantes
da reunião contou que Falcão era apontado como líder em
uma conspiração interna para sabotar o trabalho do grupo que comandava
a campanha. Nada mais se falou na sala reservada do restaurante.
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O NOVO RICO BANCOU
O marqueteiro americano Scott Goodstein (entre os petistas Marcelo Branco e
André Vargas): viagem ao Brasil paga pelo empresário Benedito |
VEJA
procurou saber por que Lanzetta montou um time com sujeitos com aquelas características.
Assessores dele explicaram que tudo o que se falava aqui acabava saindo nos jornais.
Foi feita, então, uma varredura, e ela encontrou evidência de grampos
nos telefones de Fernando Pimentel e de três funcionários contratados.
Pimentel corrobora a versão da contraespionagem interna e benigna sustentada
por Lanzetta e reconhece que nem tudo são flores quando se monta uma campanha
eleitoral complexa como a presidencial. Diz ele: "Houve de fato um atrito
entre quem já estava na campanha e quem estava chegando. Além, é
claro, de uma disputa empresarial". Qual a intensidade do atrito? Não
se sabe, mas as fontes de VEJA que presenciaram os eventos mais de perto contam
que, a certa altura, Luiz Lanzetta deu a dimensão da encrenca ao se referir
ao ex-secretário de Marta Suplicy na prefeitura de São Paulo, Valdemir
Garreta, como "gordinho sinistro" e "ladrão dos Bandeirantes".
Garreta seria a opção paulista para dirigir a campanha caso o grupo
de Lanzetta fosse defenestrado. Depois da intervenção de cima, essas
disputas terão de ser resolvidas sem arapongagem. Até porque mesmo
o pessoal do ramo contatado pressentiu que não haveria um futuro muito
glorioso na empreitada. "Aquilo ia acabar numa nova versão dos aloprados.
Foi bom o negócio não ter dado certo", explica o ex-delegado
Onésimo de Souza, convidado para chefiar a equipe que, segundo ele, nunca
chegou a trabalhar de fato. Onésimo de Souza se referiu aos "aloprados",
como ficaram conhecidos os trapalhões que se meteram a espionar adversários
do PT na campanha estadual paulista de 2006.
Jose Cruz/Ag. Senado
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CONTRA ESPIONAGEM
Luiz Lanzetta, um dos responsáveis pela
comunicação
da
campanha: foi em defesa própria |
Talvez o contato com espiões trapalhões que não
conseguem ficar de boca fechada seja um problema menor para a campanha do PT
do que explicar o real papel de um misterioso frequentador diário da
casa do Lago Sul - o empresário Benedito de Oliveira Neto. Ele não
tem vínculos formais com o PT e oficialmente não faz parte da
campanha do partido. Segundo informa o próprio comitê de campanha,
Benedito custeou a vinda ao Brasil dos especialistas em internet que trabalharam
na campanha vitoriosa do presidente americano Barack Obama. Meses depois do
favor feito por Benedito, os luas pretas digitais americanos foram contratados
oficialmente pelo PT. Até 2005, Benedito era diretor da pequena empresa
do pai, a Gráfica e Editora Brasil - que naquele ano prestou serviços
ao governo no valor de 494.000 reais. Nos dois anos seguintes, o faturamento
da gráfica saltou para 50 milhões de reais ao ano. Benedito é
agora também dono da Dialog, uma companhia de eventos que nos últimos
dois anos se transformou em potência do ramo em Brasília. A Dialog
faturou 40 milhões de reais em contratos com ministérios, agências
reguladoras e a Presidência da República. A ascensão meteórica
das empresas de Benedito chamou a atenção do Tribunal de Contas
e da Controladoria-Geral da União, que passaram a investigá-la
por suspeitas de manipulação e fraudes nas licitações.
As investigações ainda estão em curso. Foi de Benedito
a escolha da casa do Lago Sul para sediar o comitê de comunicação
da campanha petista. Como se vê, toda a vigilância é pouca
quando o objetivo é evitar que a campanha vire lama.
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