Roberto Pompeu de Toledo
O fantasma se diverte
"O
que o fazia sorrir, em Teerã, era a suspeita de que estavam
de volta os
bons tempos. O presidente do Brasil não ia se meter
de graça numa
encrenca como a do Oriente Médio"
Não
deu para ver, como todos os fantasmas ele era invisível, mas havia um fantasma
naquela cena triunfal de mãos dadas e braços ao alto, em Teerã,
irmanando o presidente Lula, o iraniano Mahmoud Ahmadinejad e o turco Tayyip Erdogan.
Os mais afoitos sugerirão que o fantasma era o próprio acordo. Ao
concordar em ter o urânio enriquecido em outro país, e em seguida
acrescentar que nem por isso deixaria de continuar a fazê-lo ele próprio,
o Irã entrou nos anais com um caso raro, talvez inédito, de comprometimento
simultâneo com uma coisa e seu contrário. Não. O fantasma
em questão é outro. Atende pelo nome de Garrastazu de Almeida. Nelson
Rodrigues chamou de Sobrenatural de Almeida o fantasma que costumava plantar-se
sobre as traves nos jogos do Fluminense. Este é o Garrastazu de Almeida.
Estava invisível, mas muito feliz e sorridente, na brecha aberta entre
os braços erguidos de Lula e Ahmadinejad.
Em atenção
aos jovens: Emílio Garrastazu Médici foi presidente do Brasil entre
1969 e 1974, durante a ditadura militar. Comandou o país no período
mais duro, de censura à imprensa, repressão às atividades
políticas e tortura nas prisões. Nada a ver com os dias atuais,
de liberdades democráticas. Mas, no outro lado da moeda, era o tempo do
"Brasil Grande", como se dizia. O país crescia de 8% a 10% ao
ano, o consumo alcançava níveis nunca antes vistos neste país,
a bolsa de valores batia recordes, o governo investia em grandes obras, como a
Transamazônica e a Ponte Rio-Niterói. A euforia estampava-se no dístico
"Brasil, ame-o ou deixe-o", exibido nos vidros dos carros. O próprio
presidente proferiu uma frase que virou música de sucesso: "Ninguém
segura este país". O Brasil parecia ter chegado lá.
Ainda
em atenção aos jovens: como se pode constatar, o clima atual de
"estamos chegando lá" não é inédito no país.
Já ocorreu no governo Médici, como ocorrera no de JK. É antes
fenômeno de eterno retorno do que de "nunca antes neste país".
Mas o que fez o Garrastazu de Almeida particularmente feliz, na cerimônia
de Teerã, foi que o assunto em pauta eram armas atômicas. Quando
ele era vivo, e se chamava Emílio Médici, não se contentou
com o milagre econômico. Ansiava por um Brasil potência. Nuclear,
de preferência. Em seu governo foi anunciada a compra de uma usina atômica,
a ser montada em Angra dos Reis. O Brasil recusava-se a assinar o Tratado de Não
Proliferação de Armas Nucleares. Já não bastasse a
histórica rivalidade, vivíamos um grave contencioso com a Argentina
em torno da construção da hidrelétrica de Itaipu. Não
se falava abertamente, mas tudo levava a crer que caminhávamos em direção
à bomba.
O que fazia o fantasma sorrir, em Teerã,
era a suspeita de que estavam de volta os bons tempos. Ora, como podia ser de
outra forma? Claro que o presidente do Brasil não ia se meter de graça,
só pela compulsão ao marketing, numa encrenca do tamanho da do Oriente
Médio. Claro que a diplomacia brasileira, que não é boba,
não ia na conversa iraniana de que seu programa nuclear tem fins pacíficos.
Conclusão: o Brasil agia em função de seu próprio
projeto. O que estava contestando era o direito de uma só potência,
ou um grupo de potências, determinar quem pode e quem não pode ter
a bomba. A leitura do episódio pelo fantasma ia além. Se o Brasil
vem investindo, com insistência sôfrega e pedinchona, em obter um
assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, precisa acumular cacife
para isso. Não há membro do Conselho de Segurança que não
tenha a bomba. Por que não nós? Por quê? O fantasma exultava.
Não
se ignora no além-túmulo que muita coisa mudou, do regime militar
para cá. O Brasil é agora signatário do Tratado de Não
Proliferação e as relações com a Argentina evoluíram
para a aliança e a colaboração, inclusive nos respectivos
programas nucleares. Até foi inscrito na Constituição de
1988 que "toda a atividade nuclear em território nacional somente
será admitida para fins pacíficos". Mas
E o nosso peso
específico? E a nossa projeção de poder? (O fantasma assimilou
o jargão que nos indica o caminho da grandeza.) O atual vice-presidente
já declarou que é a favor de o Brasil ter a bomba atômica.
Precisamos proteger nosso patrimônio, ele disse. Temos um imenso território,
um extenso mar territorial
Temos o pré-sal!
Garrastazu
de Almeida saiu satisfeito de Teerã. Voltou feliz para Porto Alegre. Como
o Sobrenatural de Almeida, ele gosta de futebol, e costuma frequentar as traves
do Grêmio. Ainda leva um velho radinho de pilha. |