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Oscar Cabral![]() |
| TREINO NA PRAIA Atletas no Rio de Janeiro: quem não conhece o esporte acha que é briga na areia |
Em 1894, o estudante paulista Charles Miller, precursor
do futebol no Brasil, trouxe de uma temporada na Inglaterra dois tipos de bola.
A primeira, esférica, deu origem a uma história que todo brasileiro
conhece: cinco títulos em Copas do Mundo, paixões arrebatadoras
nos grandes estádios e peladas em toda espécie de campo país
afora. A outra bola, oval e perfeita para a prática do rúgbi (esporte
que àquela época já se popularizava entre os ingleses), não
fez lá muito sucesso. Com um conjunto extenso de regras, algo como o dobro
das do futebol, e dada a própria violência do jogo, em que os atletas
com a bola na mão se chocam a toda hora uns com os outros, o esporte inglês
acabou restrito a limitados círculos de estrangeiros e descendentes de
europeus. Hoje, no Brasil, existe um praticante de rúgbi para cada 1 000
de futebol, seja ele profissional ou amador. Provavelmente, o cenário jamais
vai mudar, mas o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) está empreendendo
um esforço inédito para, pelo menos, melhorar a realidade do rúgbi
no país. Em 2016, justamente o ano dos Jogos no Rio de Janeiro, o esporte
será incluído no rol das modalidades olímpicas e, como país-sede,
o Brasil deve ser convidado a participar do torneio sob a pressão
de não dar vexame em casa. Resume o superintendente esportivo do COB, Marcus
Vinícius Freire: "O objetivo é que o Brasil não só
participe do maior número possível de modalidades como tenha bom
desempenho na maioria delas".
Não será trivial com o rúgbi. Pode-se dizer que não há um esporte olímpico coletivo em que o Brasil tenha acumulado tantos resultados medíocres. Para se ter uma ideia, nenhuma seleção brasileira (masculina ou feminina) jamais foi classificada para um campeonato mundial. Entre as 230 equipes de rúgbi existentes hoje no país, apenas dez contam com campos oficiais. As demais precisam improvisar o tempo todo, como ilustra o caso do Niterói Rugby Football Clube, do Rio de Janeiro, entre os três melhores do país. Os atletas dali costumam treinar numa quadra emprestada, vizinha a uma obra barulhenta, quando não o fazem na praia mesmo. "Como quase ninguém conhece o rúgbi, ficam achando que é briga na areia", diz o técnico Nei Vasconcellos. A rotina e até o perfil desses jogadores chamam atenção por destoar completamente dos de atletas de outras modalidades. Dos 26 integrantes da seleção brasileira, vinte mantêm atividades profissionais paralelas ao rúgbi. É o caso do paulista Julian Menutti, 28 anos, gerente de uma fábrica do ramo alimentício e jogador do clube Bandeirantes "quando dá para ir ao treino". Relata o rapaz: "Já cansei de comparecer a compromissos de trabalho com o uniforme de rúgbi por baixo da roupa social. É uma vida dupla". Seus colegas de seleção, ele só encontra uma vez por mês, ocasião em que todos jogam em quadra de futebol mesmo, numa fazenda de Itu, no interior de São Paulo, cujo dono cede o espaço por ser fã de rúgbi.
Para que um esporte ganhe o status de modalidade olímpica, ele precisa não apenas ser disputado em quatro continentes e 75 países como ainda provar ser um negócio rentável. O rúgbi se enquadra em todos os pré-requisitos. Seu campeonato mundial é um evento que, pelas proporções e pela popularidade, só perde para a Copa do Mundo de Futebol e a Olimpíada. Os grandes craques jogam por seleções como Nova Zelândia, África do Sul e Austrália, três ex-colônias inglesas onde o esporte é tradição secular. Jogo que guarda parentesco com o futebol americano, só que prescinde do capacete e é também menos violento, o rúgbi conta, no Brasil, com um grupo de apenas 30 000 praticantes. A meta do COB, que acaba de anunciar a destinação de uma verba de 300 000 reais à nova Confederação Brasileira (surgida há apenas cinco meses), é exatamente atrair mais gente para o esporte e tentar melhorar as condições daqueles que já se dedicam a ele. Atualmente, tais atletas não recebem sequer patrocínio e faltam bons técnicos no país para treiná-los. Um dos planos é justamente trazer para o Brasil alguns desses profissionais, provavelmente da Argentina país vizinho que coleciona troféus em torneios internacionais. Como se vê, será tarefa duríssima livrar o Brasil de um vexame em 2016.
Laílson Santos![]() |
| VIDA DUPLA O paulista Julian Menutti: empresário do ramo alimentício e jogador da Seleção Brasileira de Rúgbi |