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Vida Alheia deprecia as revistas de celebridades.
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Fotos Divulgação e Fabricio Motta/Tv Globo![]() |
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DE ESCÂNDALO A repórter (Danielle Winits), a editora (Claudia Jimenez) e o paparazzo (Paulo Vilhena) do seriado: na visão do autor, Falabella, eles encarnam os "monstros" da imprensa |
Era hora do jantar em um restaurante no Baixo Leblon, área do Rio de Janeiro em que pululam figurinhas manjadas da televisão. Miguel Falabella e Claudia Jimenez, dois espécimes da categoria, estavam ali e foram flagrados por um paparazzo. Mas tal "invasão de privacidade" foi alegremente consentida. "De tanto nos incomodar, aquele fotógrafo já tinha virado amigo. Só pedi a ele para não me pegar comendo de boca aberta", diz Falabella. Na ocasião, nasceu a ideia da empreitada que une a dupla na Globo atualmente. O seriado A Vida Alheia, em exibição desde abril nas noites de quinta-feira, apresenta uma visão ficcional do mundo das revistas de fofocas. Não é o Falabella fofo do encontro com o fotógrafo, contudo, que se revela como seu autor nem se vê no ar a mesma Claudia Jimenez bufa que contracenava com ele em Sai de Baixo. Ele assume sua porção loira má, ao retratar editores, repórteres e paparazzi como monstros que dão golpes baixos para obter manchetes. Alberta Peçanha (ou Peçonha, para quem provou de seu veneno), personagem de Claudia, é a consumação disso. A atriz incorpora com perfeição naturalista a redatora-chefe baixa e cruel. "As celebridades e a imprensa que delas se alimenta disputam uma ruidosa batalha", já disse ela. Se há verdade nisso, então se pode afirmar que os dois artistas e outros tantos do elenco que volta e meia se queixam de ser "bisbilhotados" como Danielle Winits, que faz uma repórter arrivista obtiveram enfim um canal para se vingar. A Vida Alheia é a comédia do rancor.
No deserto de ideias da nova safra de humorísticos da Globo, o programa se destaca por arriscar-se em uma nota dissonante a acidez. Mas a originalidade não é um mérito de A Vida Alheia. O seriado Dirt, lançado nos Estados Unidos em 2007 e extinto no ano seguinte, tinha proposta em tudo semelhante. Trazia no papel de editora-víbora uma bela tigresa, Courteney Cox (a Monica de Friends), e retratava a versão americana dessa realidade. A Vida Alheia explora escândalos ficcionais que remetem a confusões e dramas reais vividos pelas celebridades do Brasil. Um dos episódios, por exemplo, tratava de um craque de futebol flagrado no motel com um travesti alusão óbvia ao escândalo em que Ronaldo Fenômeno se envolveu em 2008. Há, porém, um detalhe capcioso: na redação da fictícia revista A Vida Alheia, que dá título ao programa, Alberta Peçonha e equipe recorrem a métodos como a chantagem e até mesmo testes de DNA clandestinos para descobrir a paternidade de filhos de famosos. Tal agressividade na busca por escândalos é comum entre as publicações americanas e inglesas do gênero mas muito raramente praticada nas suas contrapartes brasileiras.
Com 18 pontos de ibope na Grande São Paulo, A Vida Alheia passou no teste de sobrevivência: a cúpula da Globo acaba de encomendar nove novos episódios a seu autor, além dos dezesseis previstos para a temporada. Daqui em diante, adverte Falabella, seus próprios ressentimentos com a imprensa poderão ser explorados. Ele se diz até hoje traumatizado com uma onda de boataria de que teria sido alvo nos anos 80. "Espalharam que eu tinha aids. Fui vítima do macarthismo sexual", afirma, aludindo à perseguição dos comunistas nos Estados Unidos da década de 50. Mais recentemente, Falabella viveu um imbróglio com uma representante da classe que ele chama (não sem desprezo) de "garotas do sereno" as repórteres que assediam as celebridades à porta das festas. Quando escrevia a novela Negócio da China (2008), o maior fiasco do horário das 6 dos últimos anos, ele se irritou ao ser questionado por uma delas se achava ruim o desempenho da ex-Big Brother e mocinha Grazi Massafera. "Eu respondi na hora: Enquanto ela está na cama com o Cauã Reymond, você está aqui de madrugada com seu bloquinho, minha filha." E isso lá é rancor? De jeito nenhum. É só pura lealdade à maltratada, desprivilegiada e muito sofrida categoria das celebridades.