Maílson da Nóbrega
O Banco Central erra, mas...
"É
assim que funciona. O BC mira o balanço de riscos.
Quando
o risco é de inflação, aumenta a taxa de juros;
se é
de crescimento, diminui"
Compostos de seres humanos,
os bancos centrais erram. O americano Federal Reserve cometeu equívocos
famosos. Errou após o colapso da bolsa em 1929, contribuindo para a Grande
Depressão. Errou durante a Guerra do Vietnã, provocando forte inflação.
Diz-se que causou a crise de 2007-2008 ao manter a taxa de juros baixa por muito
tempo.
É difícil antecipar com segurança
esse tipo de erro, mesmo porque os acertos dos bancos centrais são muito
maiores. Por exemplo, antes da crise muitos apontavam o suposto erro do Fed, mas
isso nunca foi pacífico. Economistas de renome sustentam que outras causas
seriam as responsáveis maiores pelo desastre.
Recentemente,
o ex-governador José Serra fez duras críticas ao Banco Central.
"Não baixar os juros num contexto em que não tinha inflação
simplesmente foi um erro." Assim, o presidente da República "tem
de fazer sentir sua posição" se houver "erros calamitosos".
A autonomia do BC deveria ser exercida "dentro de certos parâmetros".
Ora, é assim que funciona. O BC mira o "balanço
de riscos". Quando o risco é de inflação, aumenta a
taxa de juros; se é de crescimento, diminui. O Fed deve, por lei, promover
a estabilidade de preços e o crescimento, mas não busca um objetivo
em detrimento do outro. Também adota o princípio do "balanço
de riscos".
A autonomia operacional de um banco central
se funda na ideia de que a estabilidade dos preços é um bem público
essencial para o crescimento, para os avanços sociais e para a estabilidade
política. Isso implica recrutar gente altamente qualificada, capaz de acertar
ao máximo a identificação daqueles riscos.
A
autonomia do BC ainda é uma criança se comparada à do Fed
(1913). Esse status começou a ser construído nos anos 1980, com
medidas que incluíram o fim de suas funções de desenvolvimento,
incompatíveis com as de autoridade monetária. A autonomia se firmou
com a criação do Comitê de Política Monetária,
o Copom (1996).
O BC dispõe de amplas informações
e experiência para evitar erros. O acervo de boas decisões já
é vasto. Técnicos bem treinados se dedicam à tarefa de assessorar
os membros do Copom. O bom nível de transparência e previsibilidade
é reconhecido aqui e no exterior. Claro, o BC não é uma unanimidade,
nem isso é desejável.
O controle político
do BC, sugerido por Serra, não existe em outros países. Nas democracias,
o chefe do governo está limitado por normas e práticas as
instituições que inibem a ação voluntarista.
O êxito da democracia e da economia de mercado deriva da criação
de inibidores institucionais à ação discricionária
e imprevisível dos governantes.
Se o presidente pode
"fazer sentir sua posição", a autonomia do BC inexiste.
E se for ele o equivocado? O potencial de erros diminui com o nível de
qualificação profissional da diretoria. Se o BC puder receber ordens,
somente os pouco qualificados aceitarão o convite. Os agentes de mercado
se sentirão inseguros. O BC perderá a capacidade de coordenar expectativas.
O custo de combater a inflação será mais alto.
Serra
disse que os diretores do BC não são eleitos. Esse é um velho
ponto. Quem não foi escolhido pelo povo tem legitimidade para decidir sobre
a taxa de juros? Onde a autonomia do banco central é legal, a legitimidade
deriva da delegação de autoridade, concedida pelos que foram eleitos.
O objetivo é manter o banco à margem de interesses políticos
imediatos, preservando um bem valorizado pela sociedade.
Em
geral, a contrapartida da delegação de poder é a prestação
de contas ao Parlamento. No Brasil, a autonomia do BC costuma ser questionada,
mas a instituição não tem obrigação de prestar
contas ao Legislativo. Melhor seria colocar em lei a autonomia e o comparecimento
regular ao Congresso. De quebra, isso lembraria aos nossos políticos o
papel que lhes cabe na manutenção da estabilidade. Em vez de críticos,
partícipes.
Serra é um grande líder
político, culto e experiente. Parece imaginar que, na Presidência,
consertaria um "erro calamitoso" do BC sem que isso significasse "virar
a mesa". Creio que não cometeria a temeridade. Falariam mais alto
o bom senso e o peso do cargo. Ele não confundiria ousadia com irresponsabilidade.
Maílson da Nóbregaé economista |