Edição 1856 . 2 de junho de 2004

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CINEMA

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O Retorno: as melhores características do cinema russo


O Retorno
(Vozvrashcheniye, Rússia, 2003. Desde sexta-feira em cartaz em São Paulo) – O pai de Andrey e Ivan sumiu há tanto tempo que, quando ele reaparece, os irmãos procuram uma foto antiga para se certificar de que ele é quem diz ser. Ambos têm também de abrir um espaço antes inexistente: o pai não se explica e não pede desculpas, mas toma seu lugar com uma sem-cerimônia que beira a desfaçatez. Quando ele leva os garotos para uma viagem de pescaria que os conduz a um isolamento cada vez mais radical, as diferenças se acirram. Andrey, mais velho, quer agradar ao homem adulto, enquanto Ivan, mais novo, se revolta contra a violência com que é arrancado da órbita materna e jogado na de um estranho. Essa estupenda estréia na direção de Andrei Zvyagintsev é fiel à tradição do cinema russo na sua combinação de exuberância, introspecção e simbolismo: seus desdobramentos são tão inesperados que, no final, o pai que agia como se nunca tivesse ido embora se converte num personagem que talvez nunca tenha estado realmente lá, a não ser como a figura que leva forçosamente os meninos a ingressar numa outra etapa da vida. O Retorno, além disso, é uma oportunidade de apreciar o talento descomunal de Ivan Dobronravov, que faz o caçula. Trailer.

 

LIVROS

47 Contos, de Isaac Bashevis Singer (tradução de José Rubens Siqueira; Companhia das Letras; 719 páginas; 39,50 reais) – Prêmio Nobel de 1978, Singer (1904-1991) criou-se no mundo das pequenas comunidades judaicas – o shtetl, como se diz em iídiche – da Polônia, mas acabou se radicando em Nova York em 1935. Na maior parte escrita em iídiche (um "idioma do exílio", segundo o próprio Singer), sua obra reflete criativamente o choque entre o mundo moderno e o misticismo tradicional dos judeus. Com seleção do próprio autor, esta antologia recolhe as obras-primas desse mestre do conto, incluindo Breve Sexta-Feira, Um Amigo de Kafka e O Spinoza da Rua do Mercado.

O Dia em que Getúlio Matou Allende e Outras Novelas do Poder, de Flávio Tavares (Record; 336 páginas; 41,90 reais) – Apesar da palavra "novela" no título, este não é um livro de ficção, mas uma coletânea de memórias jornalísticas. O jornalista gaúcho Flávio Tavares traça o perfil de várias figuras históricas do século XX, como Getúlio Vargas, Juan Perón, Salvador Allende, Che Guevara e Charles de Gaulle. Tavares lembra os encontros que teve com alguns desses personagens. Ou conta o que soube deles por outras fontes – como um soldado que participou da "caçada" a Che Guevara na Bolívia. O autor narra suas histórias com certa liberdade ficcional. Chega até a revelar os pensamentos que Getúlio Vargas teria tido antes de cometer o suicídio. Leia trecho.

Uma História Sentimental das Ciências, de Nicolas Witkowski (tradução de André Telles; Jorge Zahar; 213 páginas; 34 reais) – O autor é um físico francês que tem se empenhado em dar um rosto menos sisudo à divulgação científica. Neste divertido livro, ele aborda a obra de alguns cientistas famosos (e outros nem tanto) pelos aspectos menos conhecidos de suas obras – ou por suas manias e esquisitices. Fala, por exemplo, dos estudos sobre flocos de neve do astrônomo alemão Johannes Kepler e da paixão pela caça que o naturalista inglês Charles Darwin nutriu quando jovem. O livro também traz capítulos sobre não-cientistas que desdobraram conceitos científicos em suas obras – como o escritor americano Edgar Allan Poe.

 

DISCOS

 
Danny Miller
Eliane Elias: piano melhor que o de Diana Krall  

Dreamer, Eliane Elias (BMG) – A pianista brasileira radicada nos Estados Unidos é mais uma a sucumbir ao "efeito Diana Krall". Depois que a canadense vendeu milhões de cópias de discos de repertório variado, nos quais ela canta e toca piano, é cada vez mais comum ver músicos de jazz buscando assumir os vocais. Eliane Elias tem talento para isso. Sua voz é pequena, mas muito agradável. E ela é uma pianista mais hábil do que Diana Krall. Basta conferir os solos que inclui em todas as faixas do disco – sendo o de That's All o mais bonito de todos. Dreamer traz duas canções de Tom Jobim (que já fora homenageado pela artista em discos anteriores), hits pop dos anos 60 e faixas de autoria da própria Eliane.

Mobilize, Grant Lee Phillips (Sum) – Desconhecido de boa parte do público brasileiro, o cantor e compositor Grant Lee Phillips é uma espécie de sucessor de Bob Dylan no rock alternativo americano. Como Dylan, ele tem uma voz peculiar, é um especialista em criar belas letras a partir de fatos do cotidiano e conhece profundamente as tradições da música popular dos Estados Unidos. Nos anos 90, Phillips liderou um trio muito elogiado pela crítica mas de pouca vendagem, o Grant Lee Buffalo. O fraco desempenho no mercado levou a gravadora a dispensar o grupo e desde então Phillips tem seguido em carreira-solo. Mobilize traz canções com forte influência folk, reforçadas por arranjos de cordas e bateria eletrônica. O destaque é a faixa Spring Released. Escute o disco na íntegra.

Midnight, Moonlight & Magic: The Best of Henry Mancini (BMG) – Deve ser muito difícil encontrar na Terra alguém que não tenha ouvido ao menos um acorde das músicas de Henry Mancini (1924-1994). O compositor americano escreveu canções para diversos clássicos do cinema. São de sua autoria, por exemplo, os temas de Bonequinha de Luxo, Peter Gunn e Pantera Cor-de-Rosa, três produções do cineasta Blake Edwards. Todas essas músicas fazem parte desta coletânea, ao lado de outros hits como O Passo do Elefantinho. Nos últimos tempos, Mancini foi redescoberto pela tribo da música eletrônica. Ela concluiu que a sonoridade refinada do maestro é ideal para relaxar após uma noitada de tecno.

 

 

 

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