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Tales
Alvarenga
O
dragão de oito caudas
"Para
ser uma China, o Brasil precisaria
adicionar 1,1 bilhão de habitantes a sua
população, entre os quais 800 milhões
de pobres e 100 milhões de miseráveis"
O presidente
Lula e sua comitiva de 400 empresários viram na China o milagre
econômico local e estão fascinados com o dinamismo
chinês. Mas é bom ir devagar com o carro alegórico,
porque o dragão é de barro. O Brasil não deve
querer ser uma China. Alguns motivos:
1)
Os brasileiros são mais ricos que os chineses. Se a riqueza
relativa de uma nação é sua produção
econômica dividida pelo número de seus habitantes,
a diferença é de três para um, porque o PIB
per capita do Brasil representa o triplo do chinês.
2)
Para ser uma China, o Brasil precisaria adicionar 1,1 bilhão
de habitantes a sua população, entre os quais 800
milhões de pobres e 100 milhões de miseráveis.
3)
Para imitar a China, o Brasil precisaria criar 100.000
empresas estatais, das quais a metade deveria ser improdutiva. As
companhias estatais empregam 70 milhões de chineses. Muitos
ficam em casa à base de salário mínimo, porque
não há o que fazer na firma. Em casa podem ao menos
se divertir com o ábaco e o tai chi chuan.
4)
Os grandes bancos chineses fizeram por anos empréstimos impagáveis
a empresas inviáveis e, agora, estima-se o rombo em mais
de 200 bilhões de dólares. A coisa tem a firmeza de
bolha da internet.
5)
Na China, os habitantes das metrópoles industrializadas da
costa do Pacífico são bem nutridos, vão a shoppings
e já começam a ter acesso ao automóvel. No
interior, há regiões com padrão de vida medieval.
Estima-se em 120 milhões os camponeses que foram perambular
pelas grandes cidades em busca de ocupação e vida
melhor. É o MST oriental.
6)
Os chineses, que vêm crescendo a 9% ao ano desde os anos 80,
deverão tornar-se a primeira economia do mundo, em tamanho,
dentro de trinta a cinqüenta anos. Mas só terão
um padrão de vida igual ao do francês ou do holandês
daqui a um século. Se tudo der certo.
7)
A China viola os direitos humanos. Ocupou o Tibete, quer anexar
Taiwan e executa os condenados com um tiro na nuca, depois de processos
sumários. A execução às vezes é
feita no atacado, diante de platéias em estádios.
8)
A China é uma ditadura. Ditaduras são regimes de futuro
incerto.
Nos
anos 70, o Brasil era mais desenvolvido que a Coréia do Sul,
Taiwan e Cingapura. Olhava-os com desdém. Hoje, o Brasil
gostaria de ser como os Tigres Asiáticos. Agora é
tarde. Dentro de vinte ou trinta anos, o Brasil poderá querer
ser uma China, ou pelo menos sua versão retocada pelo crescimento.
Aí será tarde. Há o que aprender hoje nas coisas
positivas da China, que não são poucas. Algumas são
inadaptáveis a um país democrático como o Brasil.
Outras viajam bem.
Os
chineses desburocratizaram a vida de quem investe. Dão financiamento,
juros baixos, moeda local desvalorizada, isenções
fiscais, permissão de remessa total de lucros para o exterior
e incentivos à exportação. O ambiente favorável
ao investimento é estável há 25 anos e conquistou
a confiança do capital internacional. Esse é o segredo
do crescimento chinês. O Brasil oferece um ambiente desfavorável
ao investimento na burocracia enlouquecedora, nas leis trabalhistas
que punem o investidor, nos impostos e juros altos, na Justiça
caudalosa e ineficiente. Se isso mudasse, o Brasil poderia ser um
Tigre das Américas. Sem os inconvenientes de ser uma China.
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