Edição 1856 . 2 de junho de 2004

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Tales Alvarenga
O dragão de oito caudas

"Para ser uma China, o Brasil precisaria
adicionar 1,1 bilhão de habitantes a sua
população, entre os quais 800 milhões
de pobres e 100 milhões de miseráveis"

O presidente Lula e sua comitiva de 400 empresários viram na China o milagre econômico local e estão fascinados com o dinamismo chinês. Mas é bom ir devagar com o carro alegórico, porque o dragão é de barro. O Brasil não deve querer ser uma China. Alguns motivos:

1) Os brasileiros são mais ricos que os chineses. Se a riqueza relativa de uma nação é sua produção econômica dividida pelo número de seus habitantes, a diferença é de três para um, porque o PIB per capita do Brasil representa o triplo do chinês.

2) Para ser uma China, o Brasil precisaria adicionar 1,1 bilhão de habitantes a sua população, entre os quais 800 milhões de pobres e 100 milhões de miseráveis.

3) Para imitar a China, o Brasil precisaria criar 100.000 empresas estatais, das quais a metade deveria ser improdutiva. As companhias estatais empregam 70 milhões de chineses. Muitos ficam em casa à base de salário mínimo, porque não há o que fazer na firma. Em casa podem ao menos se divertir com o ábaco e o tai chi chuan.

4) Os grandes bancos chineses fizeram por anos empréstimos impagáveis a empresas inviáveis e, agora, estima-se o rombo em mais de 200 bilhões de dólares. A coisa tem a firmeza de bolha da internet.

5) Na China, os habitantes das metrópoles industrializadas da costa do Pacífico são bem nutridos, vão a shoppings e já começam a ter acesso ao automóvel. No interior, há regiões com padrão de vida medieval. Estima-se em 120 milhões os camponeses que foram perambular pelas grandes cidades em busca de ocupação e vida melhor. É o MST oriental.

6) Os chineses, que vêm crescendo a 9% ao ano desde os anos 80, deverão tornar-se a primeira economia do mundo, em tamanho, dentro de trinta a cinqüenta anos. Mas só terão um padrão de vida igual ao do francês ou do holandês daqui a um século. Se tudo der certo.

7) A China viola os direitos humanos. Ocupou o Tibete, quer anexar Taiwan e executa os condenados com um tiro na nuca, depois de processos sumários. A execução às vezes é feita no atacado, diante de platéias em estádios.

8) A China é uma ditadura. Ditaduras são regimes de futuro incerto.

Nos anos 70, o Brasil era mais desenvolvido que a Coréia do Sul, Taiwan e Cingapura. Olhava-os com desdém. Hoje, o Brasil gostaria de ser como os Tigres Asiáticos. Agora é tarde. Dentro de vinte ou trinta anos, o Brasil poderá querer ser uma China, ou pelo menos sua versão retocada pelo crescimento. Aí será tarde. Há o que aprender hoje nas coisas positivas da China, que não são poucas. Algumas são inadaptáveis a um país democrático como o Brasil. Outras viajam bem.

Os chineses desburocratizaram a vida de quem investe. Dão financiamento, juros baixos, moeda local desvalorizada, isenções fiscais, permissão de remessa total de lucros para o exterior e incentivos à exportação. O ambiente favorável ao investimento é estável há 25 anos e conquistou a confiança do capital internacional. Esse é o segredo do crescimento chinês. O Brasil oferece um ambiente desfavorável ao investimento na burocracia enlouquecedora, nas leis trabalhistas que punem o investidor, nos impostos e juros altos, na Justiça caudalosa e ineficiente. Se isso mudasse, o Brasil poderia ser um Tigre das Américas. Sem os inconvenientes de ser uma China.

 
 
 
 
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