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Ponto
de vista: Lya Luft
Nós,
os Picassos
"Não
falo em sermos Picassos-artistas,
mas Picassos da vida. Para esse homem
maravilhoso, o tempo não existia. E não existe,
mesmo. Picasso não se aposentou da existência,
como em geral fazemos aos 50 anos, aos 60 ou
pouco mais, se é que não nascemos já aposentados"
Todos
somos Picassos. Só não sabemos disso. Foi o que descobri
ao visitar a bela exposição de obras do pintor espanhol,
em cartaz na Oca do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Tudo
lindamente organizado, uma guia tranqüila falando baixo, dando-nos
tempo de olhar, refletir, sentir. Perfeito.
Ilustração Ale Setti
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Simplesmente sonhar para que outros sonhem junto, não é
isso o que fazem em boa parte os artistas? Bom, eu pensava enquanto
apreciava a mostra, a gente é uma multidão de picassinhos,
mas bobos demais para nos darmos conta disso, prisioneiros da nossa
cotidiana mediocridade, jogando fora a nossa vida. Que pena, que
pena...
Um
dia desses, estressada, resolvi fazer aquarela. Pois é, logo
aquarela, que é tão difícil. Tive aulas com
uma amiga, grande pintora, mas, quando ouvi as explicações
e abri os belos livros que ela me emprestou, constatei mais uma
vez que não queria aprender teoria nenhuma (a esta altura
da vida, ando empenhada em desaprender uma porção
de coisas). Fiz umas aquarelas ruins, desobedecendo propositadamente
às instruções mais elementares. Mas os títulos
eram bem bonitos: Flores Espantadas ao Sol, Olho Azul Aguardando
o Amanhecer, Ascensão Perplexa. Percebi que meu território
continuava sendo o das palavras e desisti de pintar. Não
sem antes combinar com minha amiga que um dia faríamos uma
exposição (ela como curadora), em que minhas poucas
aquarelas ficariam voltadas para a parede, só os títulos
à vista. A exposição se chamaria Versos
de Aquarelas. Demos boas risadas: grande terapia.
De
modo que não falo em sermos Picassos-artistas, mas Picassos
da vida. Para esse homem maravilhoso, o tempo não existia.
E não existe, mesmo: funciona para demarcarmos o horário
de nossas atividades, como alimentar as crianças ou matar
o semelhante, contemplar ou criar a beleza, atormentar alguém
de quem queremos nos vingar (essa é mais comum do que imaginamos,
ai de nós). Para Picasso, que enfrentou grandes conflitos
pessoais e mundiais, a vida era um dom precioso demais para ser
desperdiçado. Ele a valorizou, apreciou, respeitou. Soube
ser sério, soube ser doido, soube ser humano, soube ser brincalhão,
soube ser igual aos mais simples. Criou obras incríveis,
cometeu erros como todo mundo, foi amigo, apaixonou-se e fez filhos
mesmo numa idade que, para a maioria de nós, os acovardados,
é o começo do fim, é a morte antecipada pelo
preconceito ou pela acomodação.
Picasso
não se aposentou da existência, como em geral fazemos
aos 50 anos, aos 60 ou pouco depois, se é que não
nascemos já aposentados. Vestimos o pijama ainda que metafórico,
arrastamos as pantufas pelo corredor da vida, para nos sentarmos
na cadeira de balanço da amargura, abraçados à
almofada das eternas lamentações ah, como fomos
injustiçados, como nada deu certo para nós, que tanto
nos sacrificamos...
Nem
imaginamos que poderíamos, ainda, ou pela primeira vez, tomar
nas mãos as rédeas da nossa sorte e criar: se não
quadros maravilhosos, pelo menos a nossa própria vida
enquanto palpita em nossa alma alguma emoção, e brilha
alguma inquietação em nosso pensamento.
Lya
Luft é escritora
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