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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Isaura
e "Isóla"
Considerações
em torno de uma famosa
escrava e o que ela representa, no Brasil
e na China
É
uma injustiça considerar que na China os direitos humanos
não têm vez. Os chineses em peso, as autoridades inclusive,
há anos dão mostras de uma militância apaixonada
em favor dos direitos humanos de alguém muito conhecido dos
brasileiros: a escrava Isaura. A novela da Globo que, com Lucélia
Santos no papel principal, retomou o clássico romance de
Bernardo Guimarães foi, como se sabe, um sucesso de arrasar
quarteirão no país de Mao Tsé-tung. Seguiram-se
a tradução do romance, a adaptação para
fotonovela e outros subprodutos tudo consumido na escala
dos milhões de cópias, como é praxe na China.
"Baxi? Isóla, Isóla", costumam dizer, até hoje,
vinte anos passados, os chineses, quando identificam nossos nacionais.
"Baxi" é Brasil, e "Isóla" é Isaura. Na China,
Pelé não está com nada inclusive porque
chinês não é muito de futebol. Isaura faz as
vezes de Pelé.
Na
semana passada, em companhia dos ministros, governadores, parlamentares
e empresários que compunham a comitiva do presidente Lula
à China, lá estava ela, de novo Isaura, em
pessoa. Ou melhor, Lucélia Santos. Talvez ela não
cause mais nas ruas, depois de tantas visitas ao país, o
mesmo tumulto que provocava vinte anos atrás. Mas o mito
continua vivo a ponto de justificar nova empreitada no ramo da teledramaturgia,
uma série com uma história de amor entre uma brasileira
e um chinês. A série será filmada no Brasil
e na China, e a Lucélia, claro, caberá o papel principal.
Ela continua a namoradinha da China.
Deixemos
Lucélia, que não faz mais que o seu papel. Falemos
de Isaura, por quem os chineses derramaram lágrimas que,
se canalizadas para o conveniente leito, teriam rasgado um novo
Yang Tsé, o rio que corta o país de uma ponta a outra.
Isaura é uma personagem tão pitoresca quanto reveladora.
Logo no primeiro capítulo do livro de Bernardo Guimarães,
publicado em 1875, ela surge tocando piano, na sala da casa. Uma
escrava que toca piano! E na sala! O autor a descreve como bela
e bondosa. Ficamos sabendo que teve educação esmerada
e, entre outras prendas, aprendeu a falar francês. Uma escrava
que fala francês! Isso ainda é pouco. A "tez", nos
revela Bernardo Guimarães, enquanto a bela continua a encher
a sala com os sons do piano, "é como o marfim do teclado".
Eis o máximo: Isaura é branca! Uma interlocutora lhe
diz: "És formosa, e tens uma cor tão linda que ninguém
dirá que gira em tuas veias uma só gota de sangue
africano".
O
romance pretendia ser um libelo contra a escravidão. Foi
publicado ainda antes que a campanha abolicionista tomasse corpo
e nesse sentido lhe cabe, como aos versos de Castro Alves, certo
pioneirismo. Guardadas as proporções, exerceria no
Brasil a função que exerceu, nos Estados Unidos, A
Cabana do Pai Tomás, publicado em folhetins, entre 1851
e 1852, pela escritora H.B. Stowe. Ambos os livros tinham por alvo
passar a mensagem de quão infame é a escravidão
ao apresentar, para surpresa de muitos, a novidade de que os escravos
eram seres humanos. Sim, seres humanos, capazes de sentimento e
de nobres atitudes! O Pai Tomás que tanta comoção
causou em seu tempo é hoje um personagem desmoralizado. É
o protótipo do "preto bom". Não passa de um colaboracionista
do sistema escravista. Mas, pelo menos, é negro. Já
Isaura nem negra é. Nem nisso conseguimos ganhar dos americanos.
Para tornar sua personagem palatável aos leitores, Bernardo
Guimarães a criou filha de branco com mulata. A cor da pele
não lhe permitiria passar por negra nem pelos frouxos critérios
adotados, em seu sistema de cotas, pela Universidade de Brasília.
A
circunstância de Isaura ser branca, e tão branca quanto
as teclas baixas do piano, subverte os propósitos iniciais
do romance. No fundo, o autor está reclamando, e convidando
os leitores a reclamar com ele, não da injustiça de
Isaura ser escrava mas da injustiça de ser considerada
negra. Permeia o romance de Bernardo Guimarães um racismo
que nem por ser ingênuo e inconsciente é menos racismo.
O autor julgou e, provavelmente, julgou certo precisar
pintar sua escrava de branco para obter os efeitos desejados. Se
negra, ela não mereceria a mesma simpatia e a mesma compaixão.
A novela da Globo, um século depois, conservou-a branca.
Quem ganhou o papel foi Lucélia Santos, não Ruth de
Souza.
E
os chineses com isso? Por que teriam caído de amores por
Isaura? Quem já viu uma representação desse
gênero campeão de preferência, no país,
que é a ópera chinesa, tem um começo de resposta.
As histórias são sempre meio descabeladas e infantis,
como a de Bernardo Guimarães. No tempo do comunismo brabo,
o regime aproveitou tal preferência popular para sapecar-lhe
O Oriente É Vermelho, um épico da adesão
ao maoísmo. A peça ficou anos em cartaz, e dela não
foram poupados nem os visitantes estrangeiros, a quem se reservava
sempre uma noite para vê-la. Com A Escrava Isaura,
os chineses acompanharam a luta de certo povo distante não
pelo vermelho, mas pela cor branca. Sem entender bem o que isso
significava, gostaram.
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