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Violência
O
segundo resgate
Técnicas
terapêuticas são adaptadas para
ajudar a recuperar vítimas do massacre
psicológico causado pelos seqüestros

Marlene
Jaggi
Ilustração Jan Limpens
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Digamos
que ele se chama Fernando. Empresário paulista, não
quer ser identificado pelo nome verdadeiro por medo de seqüestro.
O motivo: já foi vítima duas vezes desse crime. Na
primeira, durou dois dias. Na segunda, dois meses depois, foram
44 dias. "E nenhum dos onze que se revezaram na minha vigília
foi preso", ressalta. Fernando saiu da experiência um homem
angustiado, sem vontade de pôr os pés para fora de
casa nem coragem de voltar ao trabalho. "Eu pensava: e se eles conseguirem
novamente entrar na minha sala gritando, com as armas apontadas
na minha direção, e me seqüestrarem?", relata.
Levado pela notícia lida num jornal a que teve acesso durante
o período de cativeiro, buscou ajuda psicológica no
Gorip, sigla do Grupo Operativo de Resgate da Integridade Psíquica,
instalado há dois anos no Hospital das Clínicas de
São Paulo. O Gorip tem o propósito específico
de oferecer atendimento a vítimas de seqüestros convencionais
(no Estado de São Paulo, foram 118 casos no ano passado e
22 no primeiro trimestre deste ano) e seqüestros-relâmpago
(não há números disponíveis). Ao contrário
das demoradas sessões que vasculham a história emocional
do paciente promovidas pela psicologia tradicional, o tratamento
foi rápido, direto e incisivo. Em doze semanas, Fernando
recuperou pelo menos parte da confiança. "Ainda me apavoro
quando ouço alguém gritando, mas já levo uma
vida normal", diz.
Esse
tipo de "terapia expressa" nasceu para garantir resultados rápidos
ao tratamento das angústias dos sobreviventes de guerra
doença mais tarde conhecida como transtorno do estresse pós-traumático.
Em razão da escalada da criminalidade no Brasil, hoje se
aplica sobretudo às vítimas da violência, especialmente
de seqüestros, que pela duração e pela terrível
pressão psicológica costumam ser a experiência
mais traumatizante. Sob nomes variados terapia breve, focal,
resolutiva ou técnicas de vanguarda , esses tratamentos
rápidos têm em comum o fato de, em vez de tratar de
conflitos existenciais (embora, em alguns casos, o trauma os leve
a isso), buscar uma forma de eliminar, ou ao menos amenizar, o medo,
a ansiedade, a insônia e os pesadelos provocados por um episódio
específico que o paciente não consegue deixar para
trás. "Se não forem tratadas, pessoas com esse tipo
de sintoma podem se fechar cada vez mais, comprometendo a vida social,
profissional e afetiva", avalia o terapeuta Eduardo Ferreira-Santos,
supervisor do Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria
do Hospital das Clínicas de
São Paulo e coordenador do Gorip. Essa clínica
segue os preceitos da chamada "psicoterapia breve", que tem por
objetivo promover a reestruturação psíquica
do paciente em um tempo determinado (no caso, doze semanas), em
sessões individuais ou em grupo, conduzidas por meio de linhas
terapêuticas que passam pela psicanálise convencional,
pelo psicodrama (que revive episódios traumáticos
em forma de dramatização) e pela terapia cognitiva
relacional (que trabalha as emoções, visando a uma
mudança de comportamento). Não há milagres,
mas os resultados são, em geral, positivos. "O paciente sai
da condição de vítima para a de sobrevivente",
resume Ferreira-Santos (veja
entrevista). Nem sempre, no entanto, são definitivos.
"Apesar de apresentarem melhora significativa, nas reavaliações
feitas após as doze semanas de tratamento, muitas vítimas
mostram que ainda não resolveram completamente as marcas
deixadas pelo episódio", diz. Nessas situações,
o tratamento pode se estender por mais doze semanas ou, se necessário,
ser encaminhado para a terapia convencional.
Todos
os terapeutas envolvidos com tratamentos de curto prazo ressaltam
que esse método não substitui, nem aposenta, a análise
tradicional, com ou sem divã. Mas é certo que o alastramento
da criminalidade desviou a psicanálise de seu caminho habitual.
"Antigamente, a pergunta era o que o fato inusitado tinha a ver
com a história, com o passado do paciente. Agora, a questão
é ver de que forma o episódio tocou a pessoa e o que
pode ser feito para que não prejudique seu futuro", diz Jorge
Forbes, um dos fundadores da Escola Brasileira de Psicanálise.
Forbes não determina tempo para os tratamentos e não
tem nada contra as terapias prolongadas, mas defende uma adaptação
dos métodos aos tempos modernos inclusive às
necessidades mais imediatas das vítimas de violência
urbana. Justamente para recompor o equilíbrio familiar depois
do seqüestro de uma filha, os Duarte (outro nome fictício)
resolveram manter um pé em cada trilha terapêutica.
A vítima, que já fazia tratamento com um psicanalista,
continuou com as sessões no divã; além disso,
junto com o resto da família (pai, mãe e dois irmãos),
foi se tratar com um especialista em situações de
violência adepto da chamada "terapia de vanguarda", que reúne
um conjunto de técnicas alternativas para as quais a comunidade
científica costuma torcer o nariz. "Ficamos todos muito abalados
com a naturalidade com que o seqüestro foi feito à
luz do dia, por bandidos que empunhavam metralhadoras, sem se preocupar
em esconder o rosto e com o sofrimento de minha filha, que
ficou 26 dias num cativeiro onde, além do massacre emocional
a que estava submetida, nem sequer tinha coragem de tomar banho,
tamanho era o medo de sofrer violência física", relata
a mãe. Libertada em dezembro passado, a jovem de 21 anos
até hoje veste roupas que escondem todo o corpo, com medo
de estar exposta caso seja seqüestrada de novo.
A
escolha da terapia, concordam os profissionais, deve ser determinada
pela intensidade das conseqüências da violência
e pela história pessoal da vítima. No universo das
terapias alternativas, que os meios acadêmicos relutam em
avalizar mas que estão muito mais abertas a novidades e adaptações,
os métodos de tratamento rápido e dirigido proliferam,
através de siglas de combinações de palavras
em inglês (EMDR, TFT, EFT) e descrições que
incluem termos típicos como "movimentos e sons bipolares",
"reprocessamento de emoções" e "toques nos pontos
meridianos". Utilizando conceitos aprendidos em cursos e congressos
de terapia de curto prazo no exterior, os psicólogos Maria
Angélica Moretti e Artur Paranhos Tacla fundaram uma empresa,
a Atma, especializada em fornecer tratamento rápido a vítimas
de violência e seus familiares. Contratada por empresas (companhias
aéreas, por exemplo, após um acidente de avião)
e particulares, a Atma trabalha com técnicas pinçadas
de um variado arsenal de procedimentos. Eles vão de exercícios
de relaxamento a técnicas para reduzir a sensibilidade do
paciente a aspectos mais angustiantes do trauma, passando pela utilização
da hipnose e de elementos da acupuntura. Apesar de heterodoxas,
algumas dessas técnicas funcionaram para Lúcia (nome
fictício): durante os quinze dias em que suas duas filhas,
de 12 e 14 anos, ficaram em poder de seqüestradores, ela passou
por sessões de relaxamento, de uma certa "revitalização
de energia" e ainda "reprocessamento" das emoções.
"Foi assim que consegui equilíbrio para negociar a libertação
das garotas", afirma. Encerrado o seqüestro, a família
toda passou pelo tratamento. As meninas readquiriram um direito
elementar: voltaram a andar sozinhas pelas ruas do bairro onde moram.
Completamente
avessa a terapias de qualquer espécie, Marta (mais um nome
inventado), seqüestrada há dois anos, só procurou
ajuda meses depois de ser solta, quando enfim se convenceu de que
não estava bem. "Não me concentrava em nada, vivia
desanimada, perdi a fé nas instituições e morria
de medo de sair de casa", conta. As sessões, em grupo, no
Gorip, começaram seis meses mais tarde, mas não foram
suficientes. Só depois de um novo ciclo de doze sessões
é que ela começou a se sentir mais segura. "Já
consigo sair e ficar sozinha em casa. Sei que a terapia ajudou a
evitar que eu desenvolvesse outras doenças", diz. Será
preciso fazer algum comentário sobre a situação
de um país em que se desenvolvem técnicas terapêuticas
específicas para permitir às pessoas que voltem a
sair de casa?
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"O
seqüestro-relâmpago é mais cruel"
Claudio Rossi
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| Ferreira-Santos:
terapia de doze semanas para tratar seqüestrados
tem lista de espera |
Nos
dois anos em que está em funcionamento, passaram
pelo Grupo Operativo de Resgate da Integridade Psíquica
(Gorip), do Hospital das Clínicas de São
Paulo, 51 pessoas, sendo trinta vítimas de seqüestro-relâmpago
e 21 vítimas de seqüestro com cativeiro.
Seu coordenador, o médico psiquiatra Eduardo
Ferreira-Santos, diz que o atendimento doze semanas,
com sessões uma vez por semana, de uma hora,
individuais ou em grupo, calcado na chamada psicoterapia
breve começou com poucos pacientes, mas
hoje já tem fila de espera.
Veja
Que tipo de seqüestro afeta mais
as pessoas?
Santos
Nestes dois anos de pesquisa, observamos
que o grau de dano psíquico, em média,
não é diferente. Mas o grau de violência
é mais intenso e cruel para as vítimas
de seqüestro-relâmpago.
Veja
Que sintomas devem levar a pessoa a buscar
tratamento?
Santos
Ansiedade ou medo exagerados, recordações
obsessivas do episódio, distúrbios do
sono, pesadelos (principalmente com cenas de agressão),
sensação de distanciamento e afastamento
das outras pessoas, perda ou redução acentuada
de interesse em relações sociais, afetivas,
de estudo ou trabalho, irritabilidade acentuada, dificuldade
de concentração, sobressalto exagerado
e fuga de situações que lembrem o ocorrido,
mesmo que isso prejudique atividades importantes.
Veja
Há casos em que a terapia breve
não é recomendada?
Santos
A psicoterapia breve, em suas várias
linhas de abordagem, vem sendo aplicada desde a II Guerra
Mundial em pacientes vítimas de traumas específicos.
Não há, porém, nenhum estudo com
vítimas de seqüestro, porque até
muito pouco tempo atrás eles não tinham
esse caráter quase endêmico. De maneira
geral, a psicoterapia breve é recomendada para
pessoas que, antes do trauma, tinham um bom ajustamento
psicossocial. Ela não é indicada para
quem registra antecedentes psiquiátricos importantes.
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