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Tecnologia
Quando
as coisas dão errado
Desabamento
em aeroporto francês
surpreende o mundo. E lembra que
as falhas são parte do progresso
Fotos AP
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AP
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CHALLENGER
O ônibus espacial explode após o lançamento,
em 1986: o homem já chegou à Lua, mas não
pôde evitar essa tragédia |
KURSK
O submarino nuclear afundou em 2000: o que seria uma jóia
da engenharia naval falhou e matou 118 tripulantes |
As
grandes realizações da engenharia costumam chamar
atenção quando são inovadoras na função
e arrojadas na forma. Com freqüência, elas também
viram notícia por servir de cenário a tragédias
inesperadas. O novo terminal 2E do Aeroporto Charles de Gaulle,
em Paris, cuja cúpula desabou na semana passada matando quatro
pessoas, se encaixa nos dois casos. O 2E era um túnel curvo,
com 650 metros de extensão, coberto por enormes placas de
vidro e livre de colunas internas. Essa estrutura ousada era admirada
pelos passageiros por sua beleza desde que foi inaugurada, há
onze meses. Agora, é a razão do desgosto dos parisienses.
Como é possível uma obra de 750 milhões de
euros, destinada a transformar Paris no centro da aviação
comercial da Europa, projetada por um arquiteto que já fez
mais de quarenta aeroportos o francês Paul Andreu ,
desmanchar-se como um castelo de cartas? Responsáveis pela
operação do aeroporto, peritos da Justiça parisiense
e técnicos independentes apontaram as mais diversas possibilidades
de falha: rachaduras no concreto, materiais frágeis e até
a ruptura de um cano de água. Os franceses ficaram estarrecidos:
como puderam protagonizar um desastre tão grande de engenharia?
Assim
que o orgulho ferido dos franceses cicatrizar, o desastre do terminal
2E será colocado em sua verdadeira dimensão. Como
em todas as fatalidades envolvendo obras ou máquinas em que
o homem dá um passo em direção ao futuro, o
erro servirá de lição, desafiará os
engenheiros a corrigi-lo e, dessa forma, se transformará
em combustível para o avanço das tecnologias. Desde
que construiu sua primeira ponte, provavelmente um tronco de árvore
atravessado sobre o leito de um rio, o homem utilizou as falhas
como motor do progresso. O tronco certamente apodreceu ou foi arrastado
pelas enchentes, incentivando nossos antepassados a procurar um
material mais resistente para construí-la no caso
a pedra e, muito mais tarde, o ferro. Os exemplos no mundo moderno
são abundantes. Em 1952, uma empresa inglesa lançou
o Comet, o primeiro avião comercial a jato. Nos anos seguintes,
dezenas de pessoas morreram em acidentes envolvendo o Comet. Descobriu-se
que o problema era um erro no projeto da fuselagem. A partir daí,
complexos testes de qualidade, capazes de detectar problemas desse
tipo, tornaram-se padrão na indústria aeronáutica.
Na
década de 70, a Nasa, a agência espacial americana,
começou a projetar os ônibus espaciais como uma alternativa
barata e segura para colocar satélites em órbita.
Seus técnicos já haviam levado o homem à Lua,
mas não foram capazes de prever, em 1986, um vazamento de
gás de altíssima temperatura que provocou a explosão
do tanque de combustível da nave Challenger, com sete tripulantes
a bordo. O americano Henry Petroski, professor de engenharia e história
da Universidade Duke, nos Estados Unidos, acredita que, enquanto
existir progresso tecnológico, erros e acidentes continuarão
acontecendo. É inevitável, mesmo com o conhecimento
acumulado por milênios de fracassos. "Os aspectos mais importantes
da engenharia são os mais simples e é quando nos esquecemos
deles que as coisas dão errado", escreveu Petroski em seu
livro To Engineer Is Human: the Role of Failure in Successful
Design (Projetar É Humano: o Papel dos Erros nos Designs
de Sucesso). Quando acham que dominam com perfeição
uma técnica, os engenheiros às vezes se concentram
demais nos aspectos inovadores do que estão fazendo e descuidam
dos detalhes mais comuns.
Um
exemplo na engenharia recente é o da Ponte do Milênio,
construída em Londres para comemorar o ano 2000. Logo após
sua inauguração, a massa humana caminhando sobre a
estrutura a fez balançar tanto que foi preciso interditá-la.
Estreita, comprida e com cabos de sustentação muito
esticados, a construção tem um design ousado. Toda
ponte pênsil vibra um pouco, mas o erro dos engenheiros foi
não levar em conta o comportamento da multidão, que,
para se adaptar à trepidação da estrutura,
começou a caminhar no mesmo ritmo. Isso fazia a vibração
aumentar ainda mais, provocando um efeito dominó. O problema
foi corrigido com a instalação de estruturas que absorvem
a oscilação da ponte. Assim, a engenharia do século
XXI aprendeu mais um pouco sobre pontes.
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