Edição 1856 . 2 de junho de 2004

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Medicina
Não é para todos

Para pacientes de risco cardíaco baixo,
o teste de esforço é inútil e pode dar
resultados equivocados


Paula Neiva

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Da batelada de exames incluídos num check-up, o teste de esforço está entre os mais recomendados pelos médicos. Na tentativa de prever ou identificar problemas coronarianos, quase ninguém escapa do procedimento durante a avaliação anual da saúde. Mas boa parte das pessoas que fazem o exame não precisaria fazê-lo. Isso porque há um consenso entre os principais centros de saúde de que o eletrocardiograma de esforço é inútil para quem não apresenta sintomas nem fatores de risco alto para as doenças cardíacas. Só num grande laboratório de São Paulo, metade dos pacientes que levam o coração ao limite da exaustão, correndo sobre uma esteira ou pedalando uma bicicleta, não teria indicação para fazer o exame. No Brasil, a prescrição indiscriminada do teste em clínicas de check-up e laboratórios tem chamado a atenção dos especialistas e causado discussões no meio médico. "Para a grande maioria das pessoas, o teste de esforço pode até ser útil para avaliar o condicionamento físico, por exemplo. Mas só serve para fazer diagnóstico em algumas delas", afirma o médico Otávio Rizzi Coelho, presidente da Sociedade de Cardiologia de São Paulo e professor da Universidade Estadual de Campinas.

A contra-indicação do teste de esforço consta das últimas diretrizes da U.S. Preventive Services Task Force, uma força-tarefa composta de especialistas de algumas das mais respeitadas instituições de saúde dos Estados Unidos, como a Universidade Columbia e o departamento de saúde pública do Estado do Colorado. Eles reúnem-se periodicamente para avaliar a conduta adotada no país quanto à prevenção de determinadas doenças. Para esses especialistas, o eletrocardiograma de esforço em pacientes de risco cardíaco baixo, aqueles com probabilidade menor do que 10% de ter um infarto nos próximos dez anos, é totalmente desaconselhável. Não há nenhuma comprovação científica que justifique o teste nesses casos. Além disso, os possíveis inconvenientes decorrentes do exame superam os benefícios. Um deles é a grande quantidade de resultados falsos positivos. Com base na revisão de diversos estudos clínicos sobre o tema, a força-tarefa calcula que 52% das pessoas de baixo risco cardíaco, que recebem o resultado positivo em testes de esforço, não têm nenhum problema. Até que se confirme o resultado, no entanto, o paciente enfrenta o stress da suspeita.

Outro problema dos laudos equivocados é que, com freqüência, o paciente é encaminhado para exames mais complexos para confirmar o diagnóstico, como a cintilografia – uma injeção de líquido radioativo que mapeia possíveis obstruções nas artérias – e o cateterismo, um método invasivo. Nesse exame mais minucioso, um cateter é introduzido pela virilha ou pelo braço do paciente e levado até o coração. Isso permite que o médico visualize imagens do interior das artérias e avalie como está a saúde dos vasos. Por fim, exames desnecessários têm ainda um custo alto para o sistema de saúde.

 

Esforço desnecessário  

Apenas um grande laboratório de São Paulo faz 1 200 testes de esforço por mês. Metade é para check-up  

Os resultados são falsos positivos em cerca de 52% dos pacientes com risco cardíaco baixo  

Os laudos equivocados fazem com que, muitas vezes, os pacientes sejam encaminhados para exames invasivos, como o cateterismo

Fontes: U.S. Preventive Services Task Force,
Carlos Marcello e Otávio Rizzi Coelho, cardiologistas

 

 
 
 
 
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