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Relações
exteriores
Fé
no milagre chinês
Lula
faz à China a melhor viagem de
seu governo, mas a megalomania dos
diplomatas quase estraga tudo
Sergio Dutti/AE
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| Lula
em Xangai: acerto na busca de mercados e tropeço no anúncio
de cooperação nuclear |
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O saldo da visita oficial do presidente Luiz Inácio Lula
da Silva à China não poderia ser melhor do ponto de
vista econômico. Foram assinados mais de uma dezena de contratos
e iniciadas negociações que poderão envolver
mais de 5 bilhões de dólares nos próximos anos.
Os chineses também se manifestaram dispostos a investir em
infra-estrutura de transporte, para facilitar a exportação
de grãos brasileiros, o grande interesse da China. Em matéria
de resultados concretos, foi até agora a melhor viagem de
Lula ao exterior. Mas, outra vez, não faltaram os destemperos
da retórica terceiro-mundista que alguns auxiliares do presidente
gostam de requentar e servir ao gosto do freguês. Falou-se
em "aliança estratégica" com a China, e Lula chegou
a dizer, numa provocação não tão velada
assim aos americanos, que "muita gente no mundo está torcendo
para que essa aliança não dê certo". Mais grave
foi o fato de que, desta vez, a retórica em geral inconseqüente
adquiriu ares de providências práticas quando o presidente
anunciou que Brasil e China estudavam fazer um acordo de cooperação
nuclear, o que incluiria a "exploração conjunta de
minas de urânio" em território brasileiro e a venda
do minério aos chineses. Por impedimento constitucional,
o Brasil não pode vender urânio e muito menos permitir
que outro país o explore. Urânio, não custa
lembrar, serve de combustível tanto para usinas quanto para
armas atômicas, que a China tem em boa quantidade. A abordagem
desastrada de um tema tão delicado só serviu para
reforçar a impressão de que o Brasil continua a ser
um país pouco sério.
Sergio Dutti/AE
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| Os
governadores Aécio Neves e Geraldo Alckmin em Pequim:
de olho nos investimentos |
Mas
o que importa mesmo são os aspectos positivos da viagem.
O oxigênio do Brasil chama-se exportação. Para
se ter uma idéia, a economia brasileira cresceu 2,7% no primeiro
trimestre puxada em grande parte pelas vendas externas. Além
de animarem a produção, os dólares das exportações
são essenciais para acalmar os investidores preocupados com
a solvência da dívida. Investimentos internacionais
são necessários também para recuperar e construir
estradas, ferrovias e portos, o que serve para baratear o preço
dos produtos brasileiros e torná-los, assim, mais competitivos.
As exportações do Brasil para a China deram um salto
nos últimos cinco anos. Em 1999, elas somavam 676 milhões
de dólares. No ano passado, chegaram a 4,5 bilhões.
Esse resultado foi ainda melhor porque o Brasil ficou com um saldo
positivo de 2,8 bilhões de dólares. Em alguns setores,
o casamento entre as economias dos dois países é perfeito.
O Brasil é o principal exportador mundial de soja e a China,
a maior importadora. A Companhia Vale do Rio Doce é a maior
produtora de minério de ferro, e a China tem uma demanda
insaciável pelo produto. Exportar produtos primários,
as commodities, é uma importante fonte de moeda forte, combate
a pobreza no interior e ajuda o país a crescer, mas está
longe de ser suficiente. O que faz um país realmente forte
no comércio internacional é sua capacidade de vender
manufaturados e apostar na China como grande importadora
de industrializados brasileiros é ingênuo, visto que
os chineses produzem quase tudo o que o Brasil fabrica, a preços
bem mais baixos. "Nosso grande mercado de produtos industrializados
são os Estados Unidos. É um erro encarar a China como
um substituto", diz Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia
Mundial da Fundação Getúlio Vargas.
A
China até pode ser um "shopping de oportunidades", como definiu
Lula, mas alguns dados sugerem que o Brasil chegou atrasado a esse
coruscante centro de compras. Às voltas com uma inflação
crescente e com graves problemas energéticos, o governo daquele
país decidiu desacelerar a economia. Há um mês,
anunciou que a tarifa de energia elétrica para a indústria
iria subir. Pouco antes, para retirar dinheiro de circulação
e, desse modo, encarecer e escassear o crédito aos consumidores,
elevou de 7% para 7,5% o compulsório dos bancos (o volume
de dinheiro que as instituições financeiras têm
de deixar parado). O governo chinês determinou, ainda, que
fossem revistos os projetos de grandes obras. Todas essas medidas
visam a diminuir o crescimento da China de 9% para 7% ao ano, um
índice que, segundo Pequim, não causaria maiores transtornos
ao país.
Especialistas
em comércio exterior e funcionários do governo brasileiro
estão ocupados fazendo cálculos para precisar os efeitos
que a redução do crescimento da economia chinesa teria
nas exportações. Mas eles não deverão
chegar a conclusões muito diferentes da expressa pelo Comitê
de Política Monetária do Banco Central. Seus integrantes
acreditam que as exportações brasileiras, como um
todo, não devem ser fortemente afetadas caso haja uma redução
nas compras de empresas chinesas. Isso porque as vendas para a China
representam apenas 6% do total das exportações do
Brasil. Além disso, mesmo com a diminuição
do ritmo da economia chinesa, o consumo de grãos por lá
tende a se manter no mesmo patamar.
A
verdade é que a parceria entre China e Brasil é boa,
mas limitada, seja por motivos estruturais, seja por questões
circunstanciais. Por isso, também é uma besteira imaginar
que os dois países possam formar um "eixo" ou "uma nova geografia
do comércio mundial", como disse Lula. Em Xangai, o presidente
afirmou que sonhava com a formação do G5 (composto
de Brasil, China, Rússia, Índia e África do
Sul), para servir de contraponto ao poder dos Estados Unidos e da
Europa. Atiradas ao vento, expressões como essa são
apenas um sinal de miopia da realidade internacional. Como disse
o jornalista Carlos Sardenberg, em artigo publicado em O Estado
de S..Paulo na semana passada,
em 2003 "os chineses venderam para o Brasil 2,7 bilhões de
dólares, contra os 154 bilhões de dólares para
os EUA. O que acham o leitor e a leitora: estariam os chineses interessados
em se juntar a Lula para mudar a geografia comercial do mundo?".
"O
Brasil precisa de alianças pragmáticas que somem.
Nada de cair na armadilha de formar um grupo para confrontar outros
países", diz Mario Marconini, diretor executivo do Centro
Brasileiro de Relações Internacionais. Pragmatismo
não faltou ao presidente americano Richard Nixon, que explorou
o medo mortal que Mao Tsé-tung tinha da União Soviética,
para reatar relações diplomáticas com a China
e colher frutos políticos e econômicos. O presidente
Ernesto Geisel, influenciado pela visão geopolítica
do general Golbery do Couto e Silva, via a China como uma nação
de 1 bilhão de famintos prontos para comprar comida. Foi
assim que começamos a vender soja aos chineses. Outro exemplo
de pragmatismo: o ditador chileno Augusto Pinochet, que viu na aproximação
com a China mais uma porta para os mercados do Pacífico.
O melhor é deixar essa história de eixo para lá
e torcer para que sobre um pouco mais para o Brasil do "shopping
de oportunidades" chinês.

Com
reportagem de Lucila
Soares e Silvana Mautone
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