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Diogo
Mainardi
No
chiqueiro de Jiangsu
"A
soja brasileira é
empregada pelos chineses
sobretudo como ração para porcos e
frangos.
Em matéria de ração para porcos e
frangos,
não tememos a competição
de ninguém"
A China
é tão boa assim para o Brasil? Então por que
Lula não toma coragem e assina um acordo de livre-comércio
entre os dois países? Poderíamos vender ainda mais
soja para lá. A soja brasileira é empregada pelos
chineses sobretudo como ração para porcos e frangos.
Em matéria de ração para porcos e frangos,
não tememos a competição de ninguém.
O Brasil pode não ter se transformado no celeiro do mundo,
como esperávamos algumas gerações atrás,
mas o que plantamos dá e sobra para engordar os animais dos
chineses. O Brasil é o rei do chiqueiro de Jiangsu. O Brasil
é o rei do galinheiro de Zhejiang.
Outro
dia dois carregamentos de soja brasileira foram interditados pelas
autoridades sanitárias chinesas. O produto era impróprio
para o consumo. Tinha fungicida demais. O problema, segundo o ministro
da Agricultura, foi causado pela "má-fé, ganância
e imediatismo" das empresas nacionais. Se o Brasil vende comida
contaminada lá fora, com cotação em dólar,
imagine o que comemos aqui dentro, com pagamento em real. A soja
brasileira é tratada com muito fungicida para combater pragas
como a ferrugem asiática. Curiosamente, a ferrugem asiática
é originária da própria China. Deve ser isso
que os economistas chamam de indústria de transformação:
a gente vende matérias-primas como soja e ferro para os chineses,
eles mandam de volta o produto acabado, a ferrugem asiática.
A
China pediu o apoio do Brasil na Organização Mundial
do Comércio. Quer receber o título de economia de
mercado, a fim de evitar a imposição de barreiras
comerciais aos seus produtos. O pleito dos chineses não tem
nada de escandaloso. Afinal, até o Brasil é considerado
uma economia de mercado pela OMC. O principal acordo assinado na
viagem de Lula à China foi entre a estatal brasileira Petrobras
e a estatal chinesa Sinopec. Outro acordo importante foi entre o
banco estatal brasileiro BNDES e o banco estatal chinês Citic.
A estatal brasileira Ctsul e a estatal chinesa Cmec também
ratificaram um acordo para construir uma termelétrica a carvão
em Cachoeira do Sul, que venderá energia ao governo do Estado
do Paraná. Como se pode perceber, trata-se de duas vigorosas
e convictas economias de mercado.
O
Brasil está analisando a possibilidade de apoiar a China
na OMC, mas a contrapartida deverá ser o apoio da China às
nossas pretensões de obter uma vaga no Conselho de Segurança
da ONU. Caso isso aconteça, o Brasil sairá perdendo.
As resoluções da ONU tendem a criar atritos, e os
atritos prejudicam os negócios. Lula sabe disso, tanto que,
em seus discursos na China, jamais mencionou as violações
dos direitos humanos no país. A propósito, o Brasil
terá problemas no ano que vem. Faremos parte da Comissão
de Direitos Humanos da ONU. Algumas semanas atrás, México
e Peru condenaram o regime de Cuba, desencadeando a ira de Fidel
Castro. Como se comportará o Brasil quando tiver de votar
uma resolução desse tipo? Com Fidel ou contra Fidel?
Com a China ou contra a China?
O
Brasil sempre atraiu investimentos dos retardatários do capitalismo.
Na década passada, Portugal e Espanha. Agora, China. Quem
sabe um dia o capitalismo também chegue por aqui, mesmo que
depois do último retardatário.
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