Edição 1856 . 2 de junho de 2004

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Diogo Mainardi
No chiqueiro de Jiangsu

"A soja brasileira é empregada pelos chineses
sobretudo como ração para porcos
e frangos.
Em matéria de ração para porcos
e frangos,
não tememos a competição de ninguém"

A China é tão boa assim para o Brasil? Então por que Lula não toma coragem e assina um acordo de livre-comércio entre os dois países? Poderíamos vender ainda mais soja para lá. A soja brasileira é empregada pelos chineses sobretudo como ração para porcos e frangos. Em matéria de ração para porcos e frangos, não tememos a competição de ninguém. O Brasil pode não ter se transformado no celeiro do mundo, como esperávamos algumas gerações atrás, mas o que plantamos dá e sobra para engordar os animais dos chineses. O Brasil é o rei do chiqueiro de Jiangsu. O Brasil é o rei do galinheiro de Zhejiang.

Outro dia dois carregamentos de soja brasileira foram interditados pelas autoridades sanitárias chinesas. O produto era impróprio para o consumo. Tinha fungicida demais. O problema, segundo o ministro da Agricultura, foi causado pela "má-fé, ganância e imediatismo" das empresas nacionais. Se o Brasil vende comida contaminada lá fora, com cotação em dólar, imagine o que comemos aqui dentro, com pagamento em real. A soja brasileira é tratada com muito fungicida para combater pragas como a ferrugem asiática. Curiosamente, a ferrugem asiática é originária da própria China. Deve ser isso que os economistas chamam de indústria de transformação: a gente vende matérias-primas como soja e ferro para os chineses, eles mandam de volta o produto acabado, a ferrugem asiática.

A China pediu o apoio do Brasil na Organização Mundial do Comércio. Quer receber o título de economia de mercado, a fim de evitar a imposição de barreiras comerciais aos seus produtos. O pleito dos chineses não tem nada de escandaloso. Afinal, até o Brasil é considerado uma economia de mercado pela OMC. O principal acordo assinado na viagem de Lula à China foi entre a estatal brasileira Petrobras e a estatal chinesa Sinopec. Outro acordo importante foi entre o banco estatal brasileiro BNDES e o banco estatal chinês Citic. A estatal brasileira Ctsul e a estatal chinesa Cmec também ratificaram um acordo para construir uma termelétrica a carvão em Cachoeira do Sul, que venderá energia ao governo do Estado do Paraná. Como se pode perceber, trata-se de duas vigorosas e convictas economias de mercado.

O Brasil está analisando a possibilidade de apoiar a China na OMC, mas a contrapartida deverá ser o apoio da China às nossas pretensões de obter uma vaga no Conselho de Segurança da ONU. Caso isso aconteça, o Brasil sairá perdendo. As resoluções da ONU tendem a criar atritos, e os atritos prejudicam os negócios. Lula sabe disso, tanto que, em seus discursos na China, jamais mencionou as violações dos direitos humanos no país. A propósito, o Brasil terá problemas no ano que vem. Faremos parte da Comissão de Direitos Humanos da ONU. Algumas semanas atrás, México e Peru condenaram o regime de Cuba, desencadeando a ira de Fidel Castro. Como se comportará o Brasil quando tiver de votar uma resolução desse tipo? Com Fidel ou contra Fidel? Com a China ou contra a China?

O Brasil sempre atraiu investimentos dos retardatários do capitalismo. Na década passada, Portugal e Espanha. Agora, China. Quem sabe um dia o capitalismo também chegue por aqui, mesmo que depois do último retardatário.

 
 
 
 
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