Edição 1856 . 2 de junho de 2004

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André Petry
O cigarro do ministro

"Fica-se com a impressão de que Ciro Gomes está desabituado do convívio social. Estaciona o carro onde não pode, fuma onde é proibido. Ao ser advertido, xinga o fiscal"

A cena durou poucos minutos. O ministro Ciro Gomes, da Integração Nacional, participava de uma audiência numa comissão parlamentar no Congresso Nacional, despejava a cinza do cigarro num cinzeiro quadrado posto sobre a mesa, até que foi flagrado por fiscais da Vigilância Sanitária e notificado por fumar em local público – o que é proibido pela lei do Distrito Federal. Ciro Gomes ficou irritadíssimo. Ao ser abordado por uma fiscal, que cumpria seu dever, o ministro preferiu xingá-la. "A senhora está tendo os seus quinze minutos de fama", disse, entre furioso e sarcástico. Ao sair do local, ainda muito incomodado com o flagrante, o ministro avisou aos jornalistas que deveriam noticiar o que aconteceu na audiência de quatro horas – "e não essa mesquinharia, que, por sinal, não será a primeira vez que se faz contra mim". O ministro dirigiu-se ao estacionamento e encontrou seu carro. A bordo, o motorista o aguardava, parado numa vaga reservada para deficientes físicos. O automóvel arrancou, o ministro partiu. A cena encerrou-se.

Examinando-se a distância, fica-se com a impressão de que o ministro Ciro Gomes está desabituado do convívio social. Estaciona o carro onde não pode, fuma onde é proibido. Ao ser advertido, xinga o fiscal. Parece que, se um guarda de trânsito o abordasse no estacionamento, o ministro o mandaria às favas, já que não seria a primeira vez que se fariam mesquinharias contra ele. O comportamento do ministro lembra, no mundo animal, as reações de um potro xucro, repentinamente submetido às regras asfixiantes do estábulo – ressalvando-se que não se pretende aqui comparar o ministro a um cavalo (nem insinuar que haja cavalos tabagistas). Mas, prosseguindo no raciocínio, sabe-se que o ministro não está desabituado do convívio social. Ao contrário. Ciro Gomes tem agenda cheia, sua rotina é composta de vários compromissos públicos. Ele sabe comportar-se em público, já foi governador do Ceará, ministro da Fazenda, candidato a presidente – e, além de tudo, é um homem inteligente, dono de verbo fácil e raciocínio rápido.

O que talvez tenha acontecido seja apenas uma nova versão do clássico "Sabe com quem está falando?". Em sua defesa, o ministro poderia alegar que havia cinzeiro sobre a mesa, detalhe que os fumantes costumam interpretar como sinal de que o cigarro é liberado. Havia, ainda, parlamentares e funcionários fumando no local, tanto que os fiscais da Vigilância Sanitária distribuíram ali mais de cinqüenta notificações – embora nenhum dos notificados, deputados entre eles, tenha promovido salseiro algum. Por que Ciro Gomes achou que não poderia ser notificado? Além do fato de que o Congresso, a casa das leis, não vinha dando a menor bola para a lei que proibiu o fumo em locais públicos em Brasília, a reação do ministro Ciro Gomes é intrigante. Será que ele acha, mesmo, que receber uma notificação quando se está violando uma lei é apenas uma mesquinharia?

 

 
 
 
 
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