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André
Petry
O
cigarro do ministro
"Fica-se
com a impressão de que Ciro Gomes está desabituado
do convívio social. Estaciona o carro onde não pode,
fuma onde é proibido. Ao ser advertido, xinga o fiscal"
A cena
durou poucos minutos. O ministro Ciro Gomes, da Integração
Nacional, participava de uma audiência numa comissão
parlamentar no Congresso Nacional, despejava a cinza do cigarro
num cinzeiro quadrado posto sobre a mesa, até que foi flagrado
por fiscais da Vigilância Sanitária e notificado por
fumar em local público o que é proibido pela
lei do Distrito Federal. Ciro Gomes ficou irritadíssimo.
Ao ser abordado por uma fiscal, que cumpria seu dever, o ministro
preferiu xingá-la. "A senhora está tendo os seus quinze
minutos de fama", disse, entre furioso e sarcástico. Ao sair
do local, ainda muito incomodado com o flagrante, o ministro avisou
aos jornalistas que deveriam noticiar o que aconteceu na audiência
de quatro horas "e não essa mesquinharia, que, por
sinal, não será a primeira vez que se faz contra mim".
O ministro dirigiu-se ao estacionamento e encontrou seu carro. A
bordo, o motorista o aguardava, parado numa vaga reservada para
deficientes físicos. O automóvel arrancou, o ministro
partiu. A cena encerrou-se.
Examinando-se
a distância, fica-se com a impressão de que o ministro
Ciro Gomes está desabituado do convívio social. Estaciona
o carro onde não pode, fuma onde é proibido. Ao ser
advertido, xinga o fiscal. Parece que, se um guarda de trânsito
o abordasse no estacionamento, o ministro o mandaria às favas,
já que não seria a primeira vez que se fariam mesquinharias
contra ele. O comportamento do ministro lembra, no mundo animal,
as reações de um potro xucro, repentinamente submetido
às regras asfixiantes do estábulo ressalvando-se
que não se pretende aqui comparar o ministro a um cavalo
(nem insinuar que haja cavalos tabagistas). Mas, prosseguindo no
raciocínio, sabe-se que o ministro não está
desabituado do convívio social. Ao contrário. Ciro
Gomes tem agenda cheia, sua rotina é composta de vários
compromissos públicos. Ele sabe comportar-se em público,
já foi governador do Ceará, ministro da Fazenda, candidato
a presidente e, além de tudo, é um homem inteligente,
dono de verbo fácil e raciocínio rápido.
O
que talvez tenha acontecido seja apenas uma nova versão do
clássico "Sabe com quem está falando?". Em sua defesa,
o ministro poderia alegar que havia cinzeiro sobre a mesa, detalhe
que os fumantes costumam interpretar como sinal de que o cigarro
é liberado. Havia, ainda, parlamentares e funcionários
fumando no local, tanto que os fiscais da Vigilância Sanitária
distribuíram ali mais de cinqüenta notificações
embora nenhum dos notificados, deputados entre eles, tenha
promovido salseiro algum. Por que Ciro Gomes achou que não
poderia ser notificado? Além do fato de que o Congresso,
a casa das leis, não vinha dando a menor bola para a lei
que proibiu o fumo em locais públicos em Brasília,
a reação do ministro Ciro Gomes é intrigante.
Será que ele acha, mesmo, que receber uma notificação
quando se está violando uma lei é apenas uma mesquinharia?
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