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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro
O ensino médio congestionado
"O
ensino médio não sabe o que fazer com a diversidade dos alunos.
O dilema mais grave é preparar para o trabalho ou preparar para o curso
superior, objetivos que competem seriamente" Um
aluno fez uma bela descrição do ensino médio. Segundo ele,
quando cursava o fundamental, estudava coisas interessantes. Caminhando pelas
ruas ou pelos campos, via no mundo real o que havia aprendido na escola. Ao galgar
o médio, olhando na rua, não via nada do que havia aprendido. Era
tudo abstrato e distante do mundo real. Estava frustrado.
Atômica
Studio
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Por
tudo o que sabemos, o médio é o nível mais engasgado. Está
no meio do caminho. Não sabe o que fazer com a diversidade crescente de
alunos – que não sabem o que querem. Tem demasiadas missões: precisa
arredondar a formação inicial do aluno, oferecer uma competência
mínima nas ciências e nas humanidades e fixar os valores de cidadania
e identidade cultural.
O dilema
mais grave do médio é preparar para o trabalho ou preparar para
o superior, objetivos que competem seriamente pelo tempo do aluno. Preparar para
o trabalho pode exigir a formação profissional. É o império
da prática, do conhecimento voltado para a aplicação concreta.
Contudo, a metade dos alunos vai diretamente para o mercado de trabalho. O que
ensinar a eles no médio? Conhecimentos práticos? Mas não
há nada mais prático do que uma boa teoria, pois é a ferramenta
para pensar corretamente. O outro papel do médio é preparar para
o ensino superior. No fundo, significa ceder à pressão para aprender
o que quer que seja pedido nos vestibulares. É
universal a existência desses conflitos de objetivos. Mas cada país
tem uma fórmula própria para enfrentá-los, refletindo a sua
história e cultura.
O grande divisor de águas é o que fazer com o lado profissional
do ensino, versus o lado acadêmico. Ademais, alguns países oferecem
vertentes mais fáceis e aplicadas (o que não quer dizer profissionalizantes)
e vertentes mais acadêmicas e teóricas.
Há dois grandes modelos. Um modelo tem origem européia, no qual
há uma multiplicação de alternativas após o fundamental.
Há trajetos puramente acadêmicos. Há os que mesclam o acadêmico
com uma iniciação profissional. Há opções puramente
profissionais, até mesmo sem acesso ao superior. Ou seja, ao longo do caminho
aparecem diversas bifurcações, atendendo às aptidões
e preferências dos alunos para assuntos práticos ou para as abstrações
de uma trajetória acadêmica.
O outro modelo nasceu nos Estados Unidos, com suas comprehensive high schools.
Embora seja a única opção para todos, há uma oferta
diversificada, com disciplinas preparando para o superior e outras de formação
profissional. Além disso, a mesma disciplina pode ser oferecida com níveis
diferentes de exigências. Cada aluno pode escolher seu cardápio de
cursos, de acordo com suas preferências e aptidões. Uns aprendem
a soldar. Na sala ao lado, outros estudam os diálogos de Platão
ou até sânscrito.
A Europa lida com a diversidade especializando as escolas. Os Estados Unidos criam
uma escola única, mas, uma vez lá dentro, há muitos trajetos
possíveis. Diante desses
dois modelos (com todas as suas variantes), o Brasil optou por um terceiro. Na
teoria, é muito flexível. Mas, na prática, acabamos com um
sistema único. Não se pode escolher entre escolas diferentes nem
há um leque de opções dentro da mesma escola.
Terminamos com uma escola única que não consegue oferecer aos alunos
academicamente menos ambiciosos uma educação sólida, no nível
em que possam beneficiar-se dela. No outro extremo, soterramos com um entulho
de conteúdos os que freqüentam escolas onde o verdadeiro currículo
é o vestibular da universidade pública mais próxima. O preço
de ensinar de mais é que os alunos aprendem de menos.
Nunca demos a atenção devida ao técnico – que não
passa de um monte de matérias profissionalizantes que se somam ao currículo
já sobrecarregado do médio (22 disciplinas no técnico de
eletrônica da UFMG!). Repetimos o que costuma não dar certo alhures.
Diante da alternativa bem-sucedida de deixar o técnico para depois de formado,
os ideólogos da área protestaram, citando Gramsci, um autor falecido
antes de o ensino técnico tomar corpo. Dá para desconfiar, quando
a solução tupiniquim é diferente de todas as outras. Claudio
de Moura Castro é economista (Claudio&Moura&Castro@attglobal.net)
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