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Edição 2006

2 de maio de 2007
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O homem da Guanabara

Pesquisa sobre o Lacerda administrador completa
uma das mais ricas biografias da história do Brasil


Lucila Soares

Fotos divulgação
Em visita a uma favela carioca (à esq.) e prestando contas ao eleitorado: em cinco anos, obras que deram uma nova cara ao Rio de Janeiro

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Trecho do livro

O final dos jantares oferecidos por Carlos Lacerda durante seu mandato como primeiro governador da Guanabara (1960-1965) era, por vezes, indigesto para os convidados. Entusiasmado pelas obras a que se lançara com ímpeto de se credenciar às eleições presidenciais previstas para 1965, ele intimava delicadamente os comensais a fazer a digestão visitando algum viaduto, túnel ou conjunto habitacional em construção. Lacerda ganhava, assim, companhia para uma rotina que cumpriu nos cinco anos à frente do recém-criado estado da Guanabara. O governador saía para fiscalizar o andamento de uma obra ou o atendimento à população num hospital. E não hesitava em demitir no ato o responsável se as coisas não andassem a seu contento. Eleito sem nenhuma experiência administrativa, Lacerda fez um governo considerado até hoje o melhor que o Rio de Janeiro já teve. Meteu-se em polêmicas que perduram, como a remoção de favelas. Mas fez obras que em boa parte deram ao Rio sua cara atual e, acima de tudo, revelou-se um administrador racional e moderno. Defendia a ordem nas contas do governo (e cumpriu essa exigência à risca na Guanabara) e a profissionalização do funcionalismo num Brasil que não tinha sequer Banco Central e onde imperava o pistolão como forma de acesso ao serviço público.

Eleito por uma ampla coligação e com vitória apertada sobre Sérgio Magalhães, candidato do PTB, montou um secretariado em que exigia a melhor qualificação profissional para o cargo, independentemente de partido. Acompanhava de perto cada área de seu governo, mantinha reuniões semanais com todos os secretários, mas foi pioneiro na descentralização, criando regiões administrativas que funcionavam como subprefeituras. Tudo isso sem deixar de lado o carisma, a originalidade, a verve, o veneno e a grande capacidade de fazer inimigos que sempre foram suas marcas. É esse o retrato que emerge de Lacerda na Guanabara (Odisséia; 320 páginas; 45 reais), de Maurício Dominguez Perez, que chega às livrarias nesta semana.

Perez, carioca de 39 anos, fez uma escolha difícil quando elegeu a figura do governador Lacerda como tema de sua tese de doutorado em história pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Carlos (homenagem a Karl Marx) Frederico (homenagem a Friedrich Engels) Werneck de Lacerda (1914-1977) é uma das figuras mais originais da história política do Brasil. Grande orador, jornalista de inteligência e cultura muito acima da média, foi comunista, liberal, de direita e, por fim, golpista que pregou abertamente contra a posse de presidentes eleitos democraticamente. Anticomunista ferrenho, Lacerda apoiou quase todas as tentativas de golpe ocorridas no país entre a redemocratização, em 1945, e a tomada do poder pelos militares, em 1964. Tornou-se, com isso, um dos mais odiados e também um dos mais admirados políticos de todos os tempos no Brasil, talvez apenas comparável nesse quesito justamente a Getúlio, seu grande antagonista.

É quase estranho que alguém, diante dessa trajetória fulgurante, prefira debruçar-se sobre programas de governo, despachos burocráticos, orçamentos, exposições de motivos, prestações de contas. No entanto, ao mergulhar no aparentemente árido mundo da administração, Perez consegue traçar uma parte do retrato de Lacerda que ainda não fora muito bem desenhada, juntando o líder carismático ao administrador racional, numa receita de sucesso. "O carisma do líder motiva a burocracia na busca de metas e a eficácia da burocracia alimenta a chama da liderança", resume o autor.

Seu objetivo inicial era entender por que Carlos Lacerda teve tanto êxito, e investigar até que ponto eram verdadeiras algumas teses a esse respeito. Uma delas: a Guanabara nasceu com mais dinheiro do que jamais tivera o Rio como capital da República. Perez rebate. É verdade que a receita da nascente Guanabara equivalia à soma das rendas de Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Mas isso já acontecia nos anos 50. A diferença não estaria nos números, mas na capacidade administrativa. Com recursos semelhantes aos de seus antecessores, Lacerda tirou do papel a maior parte dos projetos engavetados ao longo dos anos 50 e ainda traçou a cidade do futuro. Vem da prancheta do urbanista grego Constantinos Doxiadis, contratado por ele, um plano urbanístico que inclui a Linha Vermelha e a Linha Amarela, ambas construídas nos anos 90.

Perez mostra também que, embora o glamour do Rio seja um fato, a falta de investimentos transformara a cidade num abacaxi administrativo. Em 1960, a cidade tinha 3,3 milhões de habitantes e crescera quase 40% nos dez anos anteriores. Havia 147 favelas, onde viviam 10% da população. A precariedade era retratada com bom humor em ditos como "Rio, cidade que me seduz, de dia falta água e de noite falta luz", mas a insatisfação era crescente. Lacerda fez seu plano de governo baseado na pauta que estava evidente desde o início dos anos 50. "Não houve nenhuma solução genial", diz Perez.

Na Tupi, em um dos inúmeros pronunciamentos pela TV: o dom da oratória como arma no governo

O dinheiro para essa montoeira de obras não veio do exterior, como se costuma alardear. O Banco Mundial financiou 42% da adutora de Guandu, ainda hoje responsável pela maior parte do abastecimento de água da cidade – o restante foi pago pela correção da tarifa, congelada desde 1947. Também não veio de nenhum tarifaço, e sim do prosseguimento da correção de impostos que começou na década anterior, como demonstra Perez em inúmeros gráficos e tabelas. A educação mereceu atenção especial. No governo Lacerda, construíram-se escolas e contrataram-se professores em ritmo acelerado. O resultado foi o fim do déficit de vagas no ensino primário, algo inédito nos anos 60. O governador comemorou com um decreto que previa processo contra os pais que não matriculassem seus filhos na escola.

A remoção de favelas é o capítulo mais polêmico da administração Lacerda. Em seu governo, foram removidas doze favelas, a maior parte na Zona Norte da cidade, e apenas uma na Zona Sul. Numericamente é pouco, e ele não foi o primeiro governante a tomar essa acertada medida. Mas não há dúvida de que foi durante seu mandato que essa política ganhou impulso, inclusive com a construção de seu mais conhecido símbolo: a Cidade de Deus, conjunto habitacional que sintetiza todas as mazelas desse modelo. Foi erguida numa região distante do centro do Rio, sem infra-estrutura alguma de transporte, demonstrando a despreocupação com esse aspecto. Evidentemente não se pode atribuir a Lacerda total responsabilidade pelos problemas atuais, num estado em que a decadência econômica e a demagogia dos governantes só agravaram o problema habitacional. Mas esse é um ponto importante e relativamente pouco analisado no texto – talvez porque pertença a uma seara urbanística com forte componente ideológico na qual o autor se sente menos à vontade. "Pretendi apenas mostrar que ele não era um demônio", diz Perez.

Cara a cara com um cidadão: reivindicações ouvidas in loco

Essa é uma lacuna que não compromete a qualidade de Lacerda na Guanabara. O livro resgata a memória de um personagem fundamental da história do Brasil, que morreu no ostracismo depois que o golpe de 1964 lhe roubou simultaneamente o sonho da Presidência e a bandeira do anticomunismo. Um resgate, aliás, que teve a participação decisiva de Carlos Augusto Lacerda, seu neto. O livro seria lançado pela Nova Fronteira, fundada por Carlos Lacerda em 1965. Quando estava quase pronto, a editora passou ao controle da Ediouro, que declinou do título por julgá-lo inadequado à linha que pretende implementar. Carlos Augusto decidiu, então, lançá-lo por sua própria editora, a Odisséia. Um nome que ganhou novo simbolismo a partir daí.

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