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Edição 2006

2 de maio de 2007
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Cinema
O herói que não perde a força

Homem-Aranha 3 tem falhas – mas continua
imbatível no seu casamento de ação e emoção


Isabela Boscov

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Trailer do filme

Nem há como discutir que Sam Raimi é, hoje, um dos dois melhores diretores de ação e fantasia em atividade (logo mais o outro entrará na história) – pelo simples fato de que, quando bola uma dessas cenas espetaculares, Raimi não pensa em seduzir com as explosões e a destruição; o que ele tem em vista são as emoções humanas, básicas e reconhecíveis, com que seus personagens são obrigados a lidar nessas situações extremas. Assim, em que pesem suas falhas, Homem-Aranha 3 (Spider-Man 3, Estados Unidos, 2007), que estréia nesta sexta-feira no país, é uma continuação em que os temas propostos nos dois filmes anteriores não se diluem e, melhor, são levados mais um passo adiante. No primeiro filme, o adolescente Peter Parker (Tobey Maguire) vivia a comoção de se descobrir dotado de superpoderes; no segundo, enfrentava o isolamento agudo e desmoralizante reservado aos heróis que, na vida civil, têm de passar por pessoas insignificantes; agora, no terceiro, já habituado a intimamente se acreditar mais do que os outros, ele se confronta com os vícios do ego. Sua namorada, Mary Jane (Kirsten Dunst), está em crise pessoal e profissional, mas ele nem registra sua insatisfação. A mania de grandeza que ele sempre procurou sufocar vem à tona por causa de um novo traje negro – feito de uma substância vinda do espaço –, e ele nem se dá conta de que sua bússola moral está avariada. O Homem-Aranha terá, enfim, de aprender a se conhecer e aos outros melhor, num desenvolvimento surpreendente dos elementos com que o enredo acenara até aqui.

Se esse terceiro filme peca, é pelo excesso de tramas – uma meia dúzia delas, envolvendo os problemas de Mary Jane, a aparição de uma nova garota (Bryce Dallas Howard), a dupla personalidade de Harry (James Franco), filho do Duende Verde, e os estratagemas de um fotógrafo rival do herói (Topher Grace). A história que realmente importa aqui, porém, é a de Flint Marko (Thomas Haden Church), que foge da prisão para se redimir junto à filha doente, mas é acidentalmente pulverizado ao cair num acelerador de partículas. Numa cena linda, e dolorosa, Marko vai se levantar do pó e ressurgir como o Homem de Areia, um vilão que é tão conflituoso e irascível como o homem que lhe deu origem – porém bem mais poderoso. Como todos os vilões da série, o Homem de Areia não é mau. É alguém que deu um passo errado, e então emendou outros maus passos ao primeiro. É, enfim, um lembrete para o Homem-Aranha, que, transformado por seu traje negro, está também ele sempre prestes a enveredar por esse caminho.

Se parece excessivo atribuir tanta intenção a um filme tirado de um quadrinho, é só conferir a cena do nascimento do Homem de Areia, ou a quase-morte que Parker atravessa até se livrar de sua roupa negra, para notar que Raimi tem, sim, uma ambição moral – que é o que o irmana àquele outro cineasta imbatível em casar emoção e ação, o Peter Jackson de O Senhor dos Anéis. O estúdio que produz Homem-Aranha já decidiu que a série vai prosseguir. A dúvida, entretanto, é se Raimi continuará ligado a ela. Boatos que o diretor não confirma nem desmente dão conta de que ele pode abandoná-la em favor de, justamente, O Hobbit – o livro de J.R.R. Tolkien que antecede O Senhor dos Anéis e que Jackson gostaria de adaptar, não fosse estar brigadíssimo com a produtora New Line, que detém os direitos do texto. Uma sugestão, então: que Raimi faça o seu Hobbit. E que Jackson revigore a próxima etapa de Homem-Aranha com sua própria visão para mais um herói relutante.

 

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