Um estudo médico mostra
como as deficiências de visão transformaram as pinturas de dois impressionistas
JAMA
Linhas
mais grossas: Degas sofria de degeneração macular, que embaça a visão. Na linha
de cima, nus pintados por Degas à medida que a doença progredia; abaixo, a simulação
de computador mostra como Degas via as próprias telas
Dois mestres do impressionismo, os franceses Edgar
Degas (1834-1917) e Claude Monet (1840-1926), sofreram com graves doenças
nos olhos. Não, isso não sustenta a piada pronta de que os impressionistas
pintavam de forma distorcida porque não enxergavam direito. Mas esses problemas
de visão afetaram, sim, a obra tardia dos dois artistas. Um estudo recente
publicado no Archives of Ophthalmology, revista médica americana,
utilizou técnicas de manipulação de imagem em computador
para elucidar a influência das deficiências de visão nas pinturas
de Degas e Monet. De autoria do médico Michael Marmor, professor de oftalmologia
na Universidade Stanford, a pesquisa mostra como certas características
que poderiam ser interpretadas como arroubos vanguardistas talvez sejam uma resposta
a limitações físicas.
Marmor recorreu a programas de computador para reconstituir a visão que
os pintores teriam de seus próprios quadros. Degas sofria de degeneração
macular, doença que afeta o centro da retina, embaçando progressivamente
a visão. Os primeiros sinais do problema que deixaria o artista
praticamente cego no fim da vida surgiram nos anos 1880. A obra de Degas
na década anterior mostrava detalhes mais definidos e um delicado delineamento
de figuras e sombras. Os trabalhos posteriores apresentam um sombreamento mais
grosseiro. Distorcendo os quadros de Degas de acordo com o progresso presumido
da doença, o pesquisador descobriu um fenômeno curioso: na visão
nublada de Degas, os delineamentos grosseiros se tornam mais suaves. "As obras
parecem 'melhores' quando observadas através da visão anormal",
conclui o estudo.
O problema
de Monet era a catarata, que obscurece o cristalino, a "lente" do olho. O pintor
sentia o problema pelo menos desde 1912, mas, embora as cirurgias de correção
já fossem corriqueiras na época, só foi operado em 1923.
Sua percepção de cor foi piorando e seus quadros foram se
aproximando do abstracionismo. A catarata deixou seu mundo amarelado e escuro.
"Os vermelhos parecem enlameados", escreveu Monet. Depois da operação,
o artista revisou sua obra daquele período e destruiu várias
telas. Doenças e problemas físicos sempre tiveram influência
sobre a produção artística. Já se sugeriu, por exemplo,
que o escritor irlandês James Joyce enfatizava o aspecto sonoro da linguagem,
em detrimento de descrições mais visuais, por causa de seu glaucoma,
e que a natureza abstrata dos quartetos finais de Ludwig van Beethoven seria resultado
de sua surdez. Os artistas não se guiam só por elevadas especulações
estéticas. Também respondem às prosaicas dores do corpo.