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Edição 2006

2 de maio de 2007
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Arte
Pintando no escuro

Um estudo médico mostra como as deficiências de visão
transformaram as pinturas de dois impressionistas

 
JAMA
Linhas mais grossas: Degas sofria de degeneração macular, que embaça a visão. Na linha de cima, nus pintados por Degas à medida que a doença progredia; abaixo, a simulação de computador mostra como Degas via as próprias telas

Dois mestres do impressionismo, os franceses Edgar Degas (1834-1917) e Claude Monet (1840-1926), sofreram com graves doenças nos olhos. Não, isso não sustenta a piada pronta de que os impressionistas pintavam de forma distorcida porque não enxergavam direito. Mas esses problemas de visão afetaram, sim, a obra tardia dos dois artistas. Um estudo recente publicado no Archives of Ophthalmology, revista médica americana, utilizou técnicas de manipulação de imagem em computador para elucidar a influência das deficiências de visão nas pinturas de Degas e Monet. De autoria do médico Michael Marmor, professor de oftalmologia na Universidade Stanford, a pesquisa mostra como certas características que poderiam ser interpretadas como arroubos vanguardistas talvez sejam uma resposta a limitações físicas.

Marmor recorreu a programas de computador para reconstituir a visão que os pintores teriam de seus próprios quadros. Degas sofria de degeneração macular, doença que afeta o centro da retina, embaçando progressivamente a visão. Os primeiros sinais do problema – que deixaria o artista praticamente cego no fim da vida – surgiram nos anos 1880. A obra de Degas na década anterior mostrava detalhes mais definidos e um delicado delineamento de figuras e sombras. Os trabalhos posteriores apresentam um sombreamento mais grosseiro. Distorcendo os quadros de Degas de acordo com o progresso presumido da doença, o pesquisador descobriu um fenômeno curioso: na visão nublada de Degas, os delineamentos grosseiros se tornam mais suaves. "As obras parecem 'melhores' quando observadas através da visão anormal", conclui o estudo.

O problema de Monet era a catarata, que obscurece o cristalino, a "lente" do olho. O pintor sentia o problema pelo menos desde 1912, mas, embora as cirurgias de correção já fossem corriqueiras na época, só foi operado em 1923. Sua percepção de cor foi piorando – e seus quadros foram se aproximando do abstracionismo. A catarata deixou seu mundo amarelado e escuro. "Os vermelhos parecem enlameados", escreveu Monet. Depois da operação, o artista revisou sua obra daquele período – e destruiu várias telas. Doenças e problemas físicos sempre tiveram influência sobre a produção artística. Já se sugeriu, por exemplo, que o escritor irlandês James Joyce enfatizava o aspecto sonoro da linguagem, em detrimento de descrições mais visuais, por causa de seu glaucoma, e que a natureza abstrata dos quartetos finais de Ludwig van Beethoven seria resultado de sua surdez. Os artistas não se guiam só por elevadas especulações estéticas. Também respondem às prosaicas dores do corpo.

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