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Edição 2006

2 de maio de 2007
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A fatwa do humor

O seriado A Diarista deixa indignada a comunidade
muçulmana que vive no Brasil


Sérgio Martins

 
Divulgação
O elenco do episódio da discórdia: tolas caricaturas de muçulmanos e judeus

Um episódio do seriado A Diarista exibido pela Rede Globo no dia 17 de abril causou, na semana passada, protestos entre os muçulmanos que vivem no Brasil. A Embaixada dos Emirados Árabes, país que deve ser visitado em breve por uma equipe de reportagem da Globo, exigiu desculpas da emissora, e o Centro de Estudos e Divulgação do Islã (Cedi) fez circular na internet um texto que qualifica o programa como "grave ofensa". Segundo os queixosos, a representação de uma família muçulmana no humorístico foi caricata e preconceituosa. Mais grave ainda teria sido a seqüência em que um certo "patriarca Mohammed" aparece num quadro, cercado de odaliscas. A empregada Marinete (Cláudia Rodrigues) faz um rasgo na pintura e um personagem judeu, inadvertidamente, enfia ali o seu dedo – o que resulta numa piada chula. Os espectadores muçulmanos consideraram o tal "patriarca" uma zombaria ao profeta Mohammed (ou Maomé), de quem a tradição islâmica proíbe qualquer desenho ou representação.

Na quinta-feira, a Globo enviou um comunicado à Embaixada dos Emirados Árabes. "Os povos encaram o humor de forma diferente, e esperamos que entendam que não foi nossa intenção insultar ninguém", diz um trecho da carta. A levar a sério a declaração de José Alvarenga Júnior, diretor de A Diarista, as cenas que irritaram os espectadores muçulmanos não resultaram do desejo de ofender, mas de uma espantosa combinação de ignorância e grosseria (e nesse caso A Diarista foi mesmo de um mau gosto extremo). O fato de Maomé ser o nome aportuguesado do profeta Mohammed teria passado despercebido. "Usamos o nome porque ele é comum entre os árabes. Nosso Mohammed é pura e simplesmente um antepassado dos personagens."

 

Piada chula: quadro rasgado retrata o "patriarca Mohammed"

No começo de 2006, a publicação de dez caricaturas do profeta Maomé num jornal da Dinamarca causou uma explosão de raiva no mundo islâmico. Houve manifestações nas ruas de países árabes, boicote a exportações dinamarquesas e ameaça de represálias terroristas. Vice-representante da comunidade islâmica no Brasil e um dos líderes mais inconformados com a brincadeira de A Diarista, o xeque Jihad Hassan evita comparar os dois episódios. "Algumas pessoas no exterior souberam da história e falaram em boicotar produtos brasileiros. Mas para nós o importante é que o erro seja reconhecido", diz ele. Sendo assim, está tudo normal. Pois protestar e buscar reparação contra aquilo que soa ofensivo faz parte da democracia – da mesma forma como é inviolável a liberdade de dizer coisas que possam ser desagradáveis a grupos políticos ou religiosos.

 

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