O seriado
A Diarista deixa indignada a comunidade muçulmana que vive no Brasil
Sérgio
Martins
Divulgação
O
elenco do episódio da discórdia: tolas caricaturas de muçulmanos e judeus
Um episódio do seriado A Diarista exibido pela Rede Globo no dia
17 de abril causou, na semana passada, protestos entre os muçulmanos que
vivem no Brasil. A Embaixada dos Emirados Árabes, país que deve
ser visitado em breve por uma equipe de reportagem da Globo, exigiu desculpas
da emissora, e o Centro de Estudos e Divulgação do Islã (Cedi)
fez circular na internet um texto que qualifica o programa como "grave ofensa".
Segundo os queixosos, a representação de uma família muçulmana
no humorístico foi caricata e preconceituosa. Mais grave ainda teria sido
a seqüência em que um certo "patriarca Mohammed" aparece num quadro,
cercado de odaliscas. A empregada Marinete (Cláudia Rodrigues) faz um rasgo
na pintura e um personagem judeu, inadvertidamente, enfia ali o seu dedo
o que resulta numa piada chula. Os espectadores muçulmanos consideraram
o tal "patriarca" uma zombaria ao profeta Mohammed (ou Maomé), de quem
a tradição islâmica proíbe qualquer desenho ou representação.
Na quinta-feira, a Globo enviou
um comunicado à Embaixada dos Emirados Árabes. "Os povos encaram
o humor de forma diferente, e esperamos que entendam que não foi nossa
intenção insultar ninguém", diz um trecho da carta. A levar
a sério a declaração de José Alvarenga Júnior,
diretor de A Diarista, as cenas que irritaram os espectadores muçulmanos
não resultaram do desejo de ofender, mas de uma espantosa combinação
de ignorância e grosseria (e nesse caso A Diarista foi mesmo de um
mau gosto extremo). O fato de Maomé ser o nome aportuguesado do profeta
Mohammed teria passado despercebido. "Usamos o nome porque ele é comum
entre os árabes. Nosso Mohammed é pura e simplesmente um antepassado
dos personagens."
Piada
chula: quadro rasgado retrata o "patriarca Mohammed"
No começo de 2006, a publicação de dez caricaturas do profeta
Maomé num jornal da Dinamarca causou uma explosão de raiva no mundo
islâmico. Houve manifestações nas ruas de países árabes,
boicote a exportações dinamarquesas e ameaça de represálias
terroristas. Vice-representante da comunidade islâmica no Brasil e um dos
líderes mais inconformados com a brincadeira de A Diarista, o xeque
Jihad Hassan evita comparar os dois episódios. "Algumas pessoas no exterior
souberam da história e falaram em boicotar produtos brasileiros. Mas para
nós o importante é que o erro seja reconhecido", diz ele. Sendo
assim, está tudo normal. Pois protestar e buscar reparação
contra aquilo que soa ofensivo faz parte da democracia da mesma forma como
é inviolável a liberdade de dizer coisas que possam ser desagradáveis
a grupos políticos ou religiosos.