Até
o início desta década, ser um ator de sucesso na televisão
americana podia render dinheiro em quantidade suficiente para fazer história.
O comediante Ray Romano, da série Everybody Loves Raymond, cravou
um recorde: 1,8 milhão de dólares por episódio. A uma média
de 24 episódios por temporada, isso significa que ele chegou a ganhar mais
de 43 milhões de dólares ao ano coisa de que só uma
meia dúzia de astros de cinema poderia se gabar. Kelsey Grammer, de Frasier,
chegou perto dele: 1,6 milhão de dólares por capítulo. Esses
salários astronômicos, porém, são coisa do passado.
A explosão criativa que a TV americana vive de uns seis anos para cá
gerou efeitos colaterais inesperados: aumentou a concorrência por papéis
(muita gente vinda do cinema entrou na parada), colocou mais força (e dinheiro)
nas mãos de produtores e roteiristas e, como resultado, achatou o cachê
dos atores principais. Até a década passada, nenhum executivo de
emissora se sentiria seguro no emprego sem recrutar um nome vistoso para encabeçar
o elenco de uma nova atração. Hoje, embora atores conhecidos ainda
sejam um ingrediente desejável da receita, está mais ou menos combinado
que o que realmente importa é o roteiro como Dick Wolf, produtor
da franquia Law & Order e o mais duro negociador do pedaço,
vinha ensinando desde os anos 90.
Neste momento, o salário mais alto pago a um ator de TV é o de James
Gandolfini, o capo de Família Soprano. A cada capítulo,
ele engorda sua conta bancária em 800.000 dólares. Para chegar a
essa marca, entretanto, o ator teve de jogar pesado e quase se retirou da atração.
Ganhos assim mais, digamos, sensatos são hoje regra, não exceção.
Veja-se Kiefer Sutherland, o agente Jack Bauer de 24 Horas. Sutherland
já tinha uma carreira no cinema e, além de ser produtor executivo
de 24 Horas, é o pivô de toda a ação da série,
que atinge ótimas médias de ibope. Mas ele ganha 400.000 dólares
por episódio. Com essas credenciais, é provável que, nos
anos 90, o mesmo trabalho lhe rendesse três vezes mais. A questão
é que, no cenário atual, Sutherland não está competindo
com outros nomes de igual ou maior calibre: está competindo com outros
enredos. Séries como C.S.I., Lost, Heroes,
Desperate Housewives e Grey's Anatomy se firmaram como campeãs
de audiência sem ostentar nenhum nome que fosse, em si, um chamariz. Ou
seja: desde que a trama continue funcionando, qualquer ator ou atriz pode, a rigor,
ser considerado dispensável e/ou substituível outra máxima
que Dick Wolf já pregava havia muito tempo.
Num artigo publicado há poucas semanas, a revista Entertainment Weekly
revelou que ainda há executivos que não perderam os velhos hábitos.
A publicação apurou que Zach Braff, de Scrubs, passará
a ganhar 350.000 dólares por episódio, embora sua série ocupe
um longínquo 94º lugar no ranking de audiência. Motivo: a televisão
americana está fervilhando de tal maneira que os produtores temem vir a
ficar sem talentos suficientes para preencher todas as atrações
que querem tirar do papel. Outro motivo: hoje, não só o ibope entra
na equação. Vendas de reprises a outras emissoras (que deu a Seinfeld
estimados 225 milhões de dólares), vendas para exibição
no exterior (para se ter uma idéia, cada episódio de Desperate
Housewives negociado no mercado europeu vale 2 milhões de dólares)
e rendimentos em DVD (fatia considerável do faturamento de redes como a
HBO) são variáveis cada vez mais importantes na hora de acertar
um salário. Por sua série ter ótimas notas em todos esses
quesitos é que o elenco de Grey's Anatomy, por exemplo, está
prestes a conseguir aumentos vultosos, da ordem de até 125.000 dólares,
antes mesmo que finde seu contrato pelo qual a maioria dos atores ganha
de 30.000 a 50.000 dólares por episódio. No geral, porém,
a briga de um ator por seu cachê anda mais encarniçada do que nunca.
Agora só resta esperar que também o cinema americano aprenda essa
lição.