Até
pouquíssimo tempo atrás, a quimioterapia não era indicada
para boa parte dos pacientes idosos. Os medicamentos tradicionais, que normalmente
já impingem aos doentes efeitos colaterais severos, num organismo enfraquecido
pela idade avançada deflagrariam reações ainda mais devastadoras
– em muitos casos, insuportáveis. Dessa forma, esses pacientes recebiam
apenas remédios para o controle dos sintomas da doença, como analgésicos
e estimuladores de apetite. Mas agora esse quadro começa a mudar. A exemplo
do que acontece nos Estados Unidos e na Europa, alguns dos principais centros
brasileiros para o tratamento do câncer já incluem a totalidade dos
pacientes com mais de 70 anos em seus protocolos de quimioterapia para certos
tipos de tumor. A universalização da terapia de pacientes idosos
com medicamentos anticâncer só foi possível com a chegada
ao mercado dos quimioterápicos inteligentes, que preservam as células
sadias de seu ataque contra aquelas cancerosas. Por isso, eles são mais
seguros e tendem a ser mais eficazes do que os quimioterápicos antigos.
A baixa toxicidade dos medicamentos mais modernos permite hoje o tratamento de
90.000 brasileiros a mais – homens e mulheres que tinham de conviver com a angústia
de saber que nada (ou muito pouco) poderia ser feito contra a doença.
"Vivemos um dos momentos mais importantes da oncologia",
diz o cancerologista Paulo Hoff, diretor do centro de oncologia do Hospital Sírio-Libanês.
"A inclusão dos idosos nos protocolos de quimioterapia permite que o câncer
nesses pacientes seja tratado em todas as suas fases e, desse modo, se transforme
numa doença crônica." Os novos remédios também possibilitaram
o tratamento do câncer de rim, um órgão muito sensível
à toxicidade da quimioterapia tradicional. Aos 75 anos, em 2003, o coronel
da reserva Ernesto Gustavo Schild recebeu o diagnóstico de câncer
de rim. Até o ano passado, ele tomava apenas remédios para estimular
o sistema imunológico. Quando recebeu a notícia de que seria submetido
a sessões de quimioterapia, ficou receoso. "Tive medo de, em decorrência
do tratamento, não conseguir mais trabalhar. Mas minha vida não
mudou", diz ele. Desde o início da quimioterapia, Schild nunca deixou de
ir ao Superior Tribunal Militar, em Brasília, onde trabalha todas as tardes
como secretário-geral da presidência.
Os primeiros quimioterápicos inteligentes foram lançados no fim
da década de 90. Hoje, eles já somam uma dezena. Estão divididos
em duas classes, os inibidores de tirosinaquinase e os anticorpos monoclonais
(veja
o quadro). Eles compõem uma das áreas de maior investimento
da indústria farmacêutica. Há pelo menos 200 novas moléculas
em estudo para o tratamento do câncer. Delas, 95 estão em fase final
de pesquisa ou de pré-aprovação para o uso clínico.
Tal avanço não significa que os quimioterápicos convencionais
foram deixados de lado. Eles permanecem fundamentais no combate ao câncer.
Em primeiro lugar, porque ainda não há remédios inteligentes
para todos os tipos de tumor. Além disso, apesar de seus efeitos colaterais,
os medicamentos antigos permanecem eficazes. Mas até nesse campo a medicina
traz boas novidades. Atualmente existem medicações para amenizar
as reações adversas dos quimioterápicos mais agressivos,
especialmente os enjôos e a baixa no sistema imunológico. São
os remédios para os remédios.
PARA ALÉM DO PSA
Fabiano
Accorsi
Exame
de sangue: a proteína EPCA-2 indica a existência ou não de
câncer de próstata
Pesquisadores
da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, identificaram um novo marcador
para o câncer de próstata, o mais comum entre os homens brasileiros.
Trata-se da EPCA-2, uma proteína encontrada no sangue. Nos estudos realizados
até agora, essa substância mostrou-se bastante precisa para indicar
a presença de um tumor e se ele está confinado na glândula
prostática ou se espalhou para outros órgãos. A acurácia
do exame de EPCA-2 chegou a 97%. O trabalho foi publicado na última edição
da revista médica americana Urology. "Os resultados são animadores,
mas ainda é cedo para dizer se o exame de EPCA-2 terá utilidade
clínica", diz o urologista Celso Gromatzky, chefe do departamento de andrologia
da Sociedade Brasileira de Urologia. Para isso, o marcador deve ser testado em
um número maior de pacientes – superior aos 330 voluntários acompanhados
pelos médicos americanos. Atualmente, existe apenas um marcador sanguíneo
para o câncer de próstata – o PSA. Combinado com o exame de toque
retal, o PSA é tido como a arma mais importante na detecção
precoce dos tumores de próstata. Em 2003, no entanto, sua eficácia
começou a ser questionada por causa da imprecisão de seus resultados.
Desde então, os pesquisadores buscam alternativas mais confiáveis
do que o PSA. Confirmados os resultados das pesquisas com o EPCA-2, ele pode vir
a ser uma dessas opções. Em 78% dos casos em que o novo marcador
indicou a presença de um tumor, os níveis de PSA eram normais –
não acusavam o câncer.