A
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deu o aval
para a comercialização no Brasil do rimonabanto, ou Acomplia. A
sua aprovação ocorre em meio a uma enorme expectativa. Produzido
pelo laboratório francês Sanofi-Aventis e lançado na Europa
em julho de 2006, o rimonabanto é tido como um poderoso aliado contra a
obesidade. Ele não conquistou essa fama pela perda de peso que proporciona.
A quantidade de quilos eliminada com o remédio não é maior
do que a obtida por meio de outros medicamentos para emagrecer. O entusiasmo em
torno do rimonabanto deve-se à sua ação sobre a gordura abdominal
– a mais nociva à saúde, associada a um aumento nos índices
de infartos, derrames e alguns tipos de câncer. Pacientes em tratamento
com o remédio registraram, em um ano, uma redução na medida
da cintura de, em média, 8,5 centímetros – o dobro do verificado
entre os voluntários tratados com placebo. O rimonabanto deve chegar às
farmácias brasileiras entre julho e agosto deste ano. O preço, segundo
o laboratório, ainda não foi definido. Mas, a levar em conta o valor
cobrado no mercado europeu, o rimonabanto não deve sair barato. Lá,
uma caixa com 28 comprimidos custa 190 euros, o que equivale a cerca de 520 reais.
O rimonabanto melhora vários indicadores
de risco cardiovascular. Baixa os triglicérides, aumenta as taxas de HDL,
o colesterol bom, e melhora o controle do diabetes. À primeira vista, tais
efeitos parecem uma conseqüência óbvia da perda de gordura abdominal.
No entanto, de acordo com estudos realizados com quase 7.000 pacientes, esses
resultados não se devem apenas à redução de medidas.
O remédio também exerce uma ação direta sobre esses
parâmetros. No que se refere aos efeitos colaterais, o principal deles é
enjôo. As pesquisas registraram ainda casos de diarréia, tontura
e vômito, entre outras reações adversas. Algumas pessoas com
propensão à depressão relataram um agravamento do quadro.
O rimonabanto é o primeiro representante
de uma nova classe de medicamentos antiobesidade. Sua atuação consiste
em inibir o sistema endocanabinóide, que se espalha por vários órgãos
e tecidos do corpo e rege o metabolismo. Isso explica seu papel no controle da
produção de colesterol, na queima calórica e no apetite.
O sistema endocanabinóide foi descoberto em meados da década de
60, por cientistas que buscavam explicações para a fome compulsiva
deflagrada pelo consumo de maconha. Eles concluíram que esse sistema funciona
por demanda. Quanto mais ativado estiver, mais o organismo armazenará energia
sob a forma de gordura, especialmente a abdominal. "Estudos recentes mostram que,
em obesos e pessoas com sobrepeso, o sistema endocanabinóide é hiperativo",
diz o endocrinologista Geraldo Medeiros, professor da Universidade de São
Paulo. Ainda não se sabe se essa ativação exagerada é
causa ou conseqüência do acúmulo de tecido adiposo.
A descoberta do sistema endocanabinóide e a formulação de
um medicamento que atua sobre ele são um passo importante, mas não
resolvem sozinhos o problema do excesso de peso. A obesidade envolve diversos
fatores, que variam de uma pessoa para outra. "Por isso, a tendência é
que o tratamento medicamentoso da obesidade seja feito com associações
de remédios", diz o endocrinologista Alfredo Halpern, chefe do grupo de
obesidade do Hospital das Clínicas de São Paulo. Ah, sim, a combinação
com dieta e exercício continua indispensável, não importa
o remédio que se tome. Impossível escapar do sacrifício.
A VALSA ALEGRE DO VALSARTAN
Pela
primeira vez, um medicamento contra a pressão alta chega ao topo do ranking
de remédios que mais faturam no Brasil. O valsartan, produzido pelo laboratório
Novartis e vendido sob o nome comercial de Diovan, foi lançado em 1997.
Conforme o último levantamento sobre o mercado farmacêutico brasileiro
divulgado pela consultoria internacional IMS Health, esse anti-hipertensivo ultrapassou,
em faturamento, o Viagra e o Cialis, contra impotência, o relaxante muscular
Dorflex e o analgésico e antitérmico Tylenol. No último ano,
o valsartan faturou 200 milhões de reais. De acordo com os especialistas,
a mudança no perfil dessa lista deve-se a uma combinação
de fatores. Além de apresentar poucos efeitos colaterais, o que colabora
para que os pacientes optem pelo valsartan, a principal razão para o aumento
no faturamento do remédio foi o lançamento, em 2004, de duas versões
do produto que associam, em um único comprimido, o valsartan e outro anti-hipertensivo
e o valsartan e uma estatina. "As terapias 'dois em um' barateiam o custo do tratamento
e aumentam a adesão dos pacientes", diz o nefrologista Décio Mion,
do Hospital das Clínicas de São Paulo. Com quase 30 milhões
de vítimas no Brasil, a hipertensão está entre os principais
fatores de risco para problemas cardiovasculares.