Em nome da
tradição, o esdrúxulo Evo Morales quer legalizar os tribunais
indígenas e suas penas bárbaras
Marcelo
Bortoloti
Juan
Karita/AP
Morales,
em traje tradicional: defesa da pluralidade é fachada para retrocesso no
direito
O
presidente boliviano, Evo Morales, é um homem que se orgulha das tradições
indígenas de seu povo. Agora, em nome do respeito à cultura de seus
ancestrais e tomado pelo espírito primitivo do "olho por olho, dente por
dente", quer legalizar a punição por chibatadas na Bolívia.
Essa é uma das mudanças propostas no Projeto de Lei de Justiça
Comunitária dos Povos Indígenas e Comunidades Camponesas, entregue
há duas semanas à Câmara dos Deputados da Bolívia.
A idéia do projeto é incluir na estrutura jurídica oficial
do país os tribunais de tribos indígenas e comunidades rurais. Esses
tribunais comunitários já atuam informalmente no país. Por
sua conta – mas ao largo da lei –, julgam crimes em regiões do interior
e aplicam penas que variam de um simples pedido de desculpas (de joelhos) a açoitamento,
trabalhos forçados, exílio da tribo e até linchamento.
A Bolívia tem 9 milhões de habitantes, dos quais 60% são
de origem indígena e formaram uma parcela decisiva na eleição
de Morales. Três milhões deles vivem em comunidades camponesas que
mantêm algumas tradições pré-colombianas, como o tribunal
comunitário. Em praça pública, os anciãos da tribo
decidem a sorte de quem cometeu delitos como roubo, agressão, adultério
ou assassinato. O novo projeto de lei pretende instituir a chamada "pluralidade
jurídica" no país. Esses tribunais seriam complementares à
Justiça comum, julgando e punindo crimes dentro de sua jurisdição,
geralmente uma aldeia ou um bairro. Todos os cidadãos que moram ali, brancos
ou índios, estariam submetidos ao veredicto dos anciãos. Os criminosos
brancos, no entanto, se insatisfeitos com o julgamento, poderiam recorrer à
Justiça comum. Já aos indígenas restaria apenas suportar
o peso da chibata – com um cuidado especial. "Os açoitamentos não
podem deixar marcas, porque isso significaria violar os direitos humanos", diz
o diretor de Justiça Comunitária do Ministério da Justiça
boliviano, Petronilo Flores. Ou seja, aos olhos do governo boliviano, até
a tortura é justificável, desde que não deixe rastros (quem
sabe algum cacique sugira que os bolivianos se utilizem de uma toalha molhada...).
Pedro
Laguna/La Razon
Açoite
em público: pode espancar, mas sem deixar marcas
"Evo
Morales quer revogar conquistas importantes do direito e usa como fachada a legitimação
da cultura local", diz o professor de direito internacional da USP Paulo Castella.
Qualquer acordo internacional de direitos humanos, como o Pacto de San José,
de 1969, do qual a Bolívia é signatária, proíbe terminantemente
os castigos físicos ou vexatórios e assegura a todo cidadão
o acesso à Justiça. E aí vem o pior. É em nome dessa
garantia que o governo Morales defende os tribunais comunitários. O caráter
gratuito, rápido e participativo dessa "justiça" a tornaria mais
útil à população indígena do que a Justiça
comum, marcada pela lentidão e por denúncias de corrupção.
No receituário boliviano, a solução está no atraso.