|
Ensino
Medir, avaliar e premiar
O novo pacote de Lula
para a educação promete resolver
o atraso brasileiro de um jeito sensato: premiando o mérito

Monica Weinberg e Marcos Todeschini
Ricardo Stuckert/PR
 |
| Lula entre Calheiros, Chinaglia
e Haddad: enfim, um plano para mais de um mandato |
Saiu, na semana
passada, o pacote de 8 bilhões de reais a partir do
qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva promete
resolver em quinze anos o atraso secular da educação
brasileira em relação aos países mais
ricos. O Plano de Desenvolvimento da Educação
(PDE), concebido pelo ministro Fernando Haddad, abrange com
42 medidas todos os níveis de ensino da pré-escola
à universidade. Segundo especialistas de diferentes
naipes ideológicos, seu principal mérito é
implantar nas escolas públicas uma fórmula que
deu certo em países de bom ensino: pela primeira vez,
elas passarão a guiar-se por metas, às quais
devem cumprir para receber mais recursos. Ao premiar a eficiência
acadêmica, o governo cria um sistema para incentivar
as escolas a dar um necessário salto de qualidade:
de acordo com um ranking divulgado na semana passada pelo
MEC, apenas dez dos 5.500 municípios brasileiros chegam
ao patamar dos países desenvolvidos o campeão
é Barra do Chapéu, no interior de São
Paulo (veja reportagem).
Sobre o pacotão, restam ainda algumas indefinições.
Cinco das medidas propostas precisam ser aprovadas pelo Congresso
e outras carecem de detalhes, como a que trata do aumento
do ensino técnico: nesse caso, falta dizer de onde
sairá o dinheiro para dobrar as vagas. A seguir, a
avaliação da viabilidade de sete medidas feita
por especialistas ouvidos por VEJA.
1.
AVALIAÇÃO
O QUE PROMETE
O GOVERNO: criar a "Provinha Brasil", um teste para medir
o desempenho dos estudantes da rede pública nas três
primeiras séries do ensino fundamental hoje
a Prova Brasil, na qual o novo exame tem inspiração,
é aplicada apenas a alunos de 4ª e 8ª séries.
Ao avaliar as crianças mais cedo, poderá diagnosticar
deficiências ainda na fase de alfabetização,
a tempo de evitar o pior: a maioria dos brasileiros chega
ao fim do ciclo fundamental sem saber ler.
O QUE É
PRECISO PARA DAR CERTO: as escolas devem usar o resultado
da prova para traçar um projeto pedagógico que
vá à raiz do problema hoje isso não
ocorre com outros exames do MEC.
2.
PREMIAÇÃO AO MÉRITO
O QUE PROMETE
O GOVERNO: dar mais dinheiro às escolas, aos estados
e aos municípios que conseguirem elevar o nível
de ensino. Para auferir o progresso acadêmico, foi criado
o índice de desenvolvimento da educação
básica (Ideb), indicador que sintetiza cinco dados
objetivos sobre o desempenho escolar, entre eles os exames
oficiais do MEC e a taxa de repetência. Escolas, estados
e municípios receberão uma nota de zero a 10
no Ideb a cada dois anos. Por meio do novo incentivo, o governo
espera que a média nacional suba dos atuais 3,8 para
6 (numa escala de zero a 10) até 2022
O QUE É
PRECISO PARA DAR CERTO: estados e municípios devem
usar o novo indicador como base para orientar as escolas na
confecção de planos para melhorar o ensino.
3.
ENSINO TÉCNICO
O QUE PROMETE
O GOVERNO: dobrar o número de estudantes nas escolas
de ensino técnico federal o objetivo é
chegar a 400.000 vagas até 2010. Formar profissionais
de nível técnico, como quer o governo, foi uma
das maneiras encontradas por países como a Coréia
do Sul para massificar o ensino depois da educação
básica.
O QUE É
PRECISO PARA DAR CERTO: os cursos devem afinar-se com
as demandas do mercado de trabalho hoje a maioria deles
é despregada da realidade.
4.
SALÁRIO DOS PROFESSORES
O QUE O GOVERNO
PROMETE: oferecer em três anos um piso salarial
de 850 reais a todos os professores, uma realidade ainda distante
em estados do Norte e do Nordeste. A medida resultará
em aumento de salário para 40% dos professores brasileiros
em princípio de carreira.
O QUE É
PRECISO PARA DAR CERTO: nos casos em que o novo piso provocar
o aumento dos salários, é recomendável
que o MEC aplique uma prova para avaliar se os professores
em questão têm domínio da matéria.
Caso contrário, não merecem ganhar mais.
5.
ALFABETIZAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS
O QUE O GOVERNO
PROMETE: trocar os atuais professores leigos por educadores
com formação universitária. Eles receberão
do MEC uma bolsa de 200 reais para dar aulas hoje a
maioria dos "professores" ligados ao programa oficial é
de voluntários.
O QUE É
PRECISO PARA DAR CERTO: como o programa funciona por meio
de ONGs, a quem o governo delega a tarefa de ministrar os
cursos, o MEC deverá fiscalizar o cumprimento da nova
regra.
6.
JORNADA ESCOLAR
O QUE PROMETE
O GOVERNO: esticar o período das crianças
na escola por meio de atividades culturais e esportivas, medida
que tem respaldo num sólido conjunto de pesquisas.
Elas enfatizam ser a permanência na escola mesmo
fora da sala de aula um fator positivo no desempenho
dos estudantes.
O QUE É
PRECISO PARA DAR CERTO: detalhar o projeto. Parece ter
sido ignorado o fato de que a maioria das escolas públicas
não dispõe de infra-estrutura básica
e não se menciona quem ficará encarregado de
dar as aulas extras.
7.
ENSINO SUPERIOR
O QUE PROMETE
O GOVERNO: dobrar as vagas nas universidades federais
em uma década, até que absorvam 1,3 milhão
de estudantes. Um detalhe: o número de professores
não aumentará na mesma medida. Corrige-se com
isso uma velha ineficiência dessas universidades. Em
média, um professor universitário responde hoje
por apenas dez alunos. Com o plano, passará a cuidar
de dezoito estudantes.
O QUE É
PRECISO PARA DAR CERTO: como cabe às universidades
a palavra final sobre a abertura de vagas, o governo deverá
convencê-las da medida. Ela afeta diretamente a vida
dos professores e por essa razão pode enfrentar
resistências. Para sair do papel, espera ainda a aprovação
do Congresso.
|