Há milhares
de anos o homem olha para o céu na tentativa de entender
melhor a si próprio e ao planeta que o abriga. Questões
cruciais da cosmologia já foram respondidas, desde
as que dizem respeito ao Sol e seus planetas até as
que lidam com os grandes movimentos do universo. Uma pergunta,
justamente a que mais atiça a curiosidade humana, permanece
sem resposta: estamos sós no universo? E, se houver
outras formas de vida em outros planetas, elas serão
inteligentes? Em sendo inteligentes, serão capazes
de se comunicar com outros mundos através de sinais
eletromagnéticos? A descoberta de um planeta semelhante
à Terra fora do sistema solar, o GL 581c, revelada
na semana passada, é o maior passo já dado até
hoje pela humanidade na busca de vida extraterrestre. Os chamados
planetas extra-solares, aqueles encontrados fora da nossa
vizinhança cósmica, o sistema solar, eram todos
insatisfatórios, com ambientes inadequados para o surgimento
e a reprodução da vida como a conhecemos. A
maioria deles são imensas esferas de gases venenosos
submetidas a forças gravitacionais colossais. Nada
muito animador para quem procura um berço propício
à vida. A descoberta da semana passada muda tudo. Na
última década, mais de 200 planetas foram identificados
fora do sistema solar o GL 581c é o primeiro
que pode ser considerado um irmão da Terra.
O novo planeta
fica na constelação de Libra e reúne
muitas das condições ideais que na Terra permitiram
o nascimento de seres vivos e sua espetacular especiação,
a criação de espécies diferentes, entre
elas essa que procura planetas no universo. O grupo de cientistas
europeus responsável pela descoberta sustenta que,
pelo tamanho e pela massa do planeta, é grande a possibilidade
de que ele abrigue água em estado líquido. As
temperaturas em sua superfície devem variar entre 0
e 40 graus nada muito drástico quando se sabe
que na Terra elas variam de 88 graus negativos no inverno
dos pólos a até 58 graus positivos nos desertos
equatoriais. Em tamanho, o GL 581c é uma espécie
de "Superterra", com uma cintura 50% maior que a do terceiro
planeta do sistema solar, a frágil bola azul que habitamos.
A Superterra da constelação de Libra é
aquecida por uma fornalha estelar já bastante velha
em termos cósmicos, uma estrela do tipo anã
vermelha batizada de Gliese 581. O que Gliese tem de velha
tem também de confiável e previsível.
Ela emite a mesma quantidade de calor e luz há bilhões
de anos e deve manter-se imutável pelo menos nos próximos
5 bilhões de anos. Em comparação com
outros quadrantes convulsionados do universo onde também
já foram encontrados planetas, pode-se dizer que o
espaço onde está o GL 581c é uma aprazível
vizinhança. Embora seja muito mais maciço, o
novo planeta tem força de gravidade compatível
com a estrutura óssea e muscular do ser humano. Se
algum dia uma mulher ou um homem caminhar na superfície
do GL 581c, ela ou ele vai se locomover com um pouco mais
de dificuldade, como se carregasse uma mochila cheia de pedras,
por exemplo.
O fato de o recém-descoberto
planeta ser parecido com a Terra abre a possibilidade de ele
um dia ser uma alternativa de abrigo para a espécie
humana? Por enquanto, essa é uma possibilidade teórica.
O GL 581c está situado a 20,5 anos-luz da Terra. Para
se ter uma idéia mais precisa do que isso significa,
é útil comparar com o nosso Sol. A luz solar
leva apenas oito minutos para chegar à Terra. Para
atingir o novo planeta e usá-lo como tábua de
salvação, uma nave terrestre viajando na velocidade
da luz levaria duas décadas até o destino. As
naves terrestres conseguem atingir hoje apenas ínfimas
frações da velocidade da luz. O veículo
espacial mais rápido já construído, a
New Horizons, da Nasa, que atualmente se dirige a Plutão,
levaria 400.000 anos para alcançar o GL 581c. "O grande
desafio do homem na conquista do espaço, hoje, é
conseguir desenvolver equipamentos mais velozes", diz o astrofísico
carioca Eduardo Janot Pacheco, representante brasileiro na
missão do satélite de pesquisas francês
Corot, lançado há quatro meses.
NASA
Colisão das galáxias Antennae,
registrada pelo Hubble: o choque deve gerar bilhões de
novas estrelas e, provavelmente, muitos planetas parecidos
com a Terra
Os desbravadores
sempre enfrentaram dificuldades técnicas, e nem por
isso o homem deixou de conquistar o Novo Mundo, a Lua, e de
mandar artefatos para todos os cantos do sistema solar. "Uma
das razões pelas quais somos tão bem-sucedidos
como espécie é essa inquietação
para descobrir o que há além do que estamos
habituados a ver", disse a VEJA o astrônomo Andy Cheng,
do Laboratório de Física Aplicada da Universidade
Johns Hopkins, e um dos pesquisadores envolvidos no Projeto
New Horizons. O certo é que já estão
em estudo tecnologias capazes de impulsionar naves a velocidades
próximas à da luz. São motores experimentais
desenhados dentro de especificações que seguem
as mais sólidas teorias científicas. Mesmo que
não se descubra nenhuma outra forma de energia impulsora
no futuro próximo, esses motores, sejam eles nucleares,
sejam quânticos, serão fortes o bastante para
levar a bandeira da humanidade a pontos nunca visitados da
galáxia.
A energia confiável
e estável fornecida por Gliese e a própria estrutura
do novo planeta em especial a possibilidade de ele
abrigar reservatórios de água líquida
são compatíveis com as condições
onde a vida surgiu e se propagou na Terra. Existiria vida
no GL 581c? Nenhum astrofísico arrisca-se a responder
a essa pergunta com segurança. O maior avanço
trazido pela descoberta do novo planeta, no entanto, independe
dessa resposta. Seu valor é estatístico. Pouco
tempo atrás nenhum cientista sério acreditava
que pudessem existir outros sistemas solares estáveis
o suficiente para ter planetas sólidos a sua volta.
Para confirmar essa teoria, registre-se que até meados
dos anos 80 nenhum telescópio ou outro instrumento
ou método de detecção conseguira confirmar
sinais da existência de planetas fora do sistema solar.
Com o refinamento das técnicas de detecção
baseadas em medições de ligeiras variações
das órbitas das estrelas, os sinais dos planetas foram
surgindo. A conta já chega a 210 planetas. A família
cresce a cada ano.
Uma pesquisa feita
nos Estados Unidos mostra que três em cada dez cientistas
acreditam que possa existir vida em outros planetas. No topo
do panteão dos otimistas e incentivadores da busca
por ETs figura Carl Sagan (1934-1996). Dizia ele: "A química
que criou a vida na Terra é reproduzida facilmente
por todo o cosmo. Parece improvável que sejamos os
únicos seres inteligentes. É possível,
mas improvável". Eis uma questão desafiadora.
Embora se aceite que a vida na Terra tenha surgido espontaneamente
da interação durante bilhões de anos
de moléculas cada vez mais complexas, nenhum laboratório
do mundo conseguiu até hoje criar vida reproduzindo
as condições dessa "sopa primordial". Mas, fora
da hipótese teológica, no campo limitado ao
método científico, a "sopa primordial" é
a melhor aposta racional para explicar o surgimento da vida.
Pelo mesmo raciocínio, e dando-se crédito a
Carl Sagan, não ofende a razão a hipótese
de que o mesmo processo químico tenha resultado na
criação de formas primitivas de vida em outros
planetas.
Infelizmente, para
a aventura intelectual humana e para a frustração
do desejo inato de encontrar seres inteligentes em outros
planetas, essa busca ainda não saiu do ponto zero.
A complexidade de produzir vida inteligente é incomensuravelmente
maior do que a de gerar bactérias e outras formas primitivas
de vida. Quem melhor descreveu essa complexidade foi um dos
maiores neodarwinistas de todos os tempos, o americano nascido
na Alemanha Ernst Mayr, morto aos 100 anos, em 2005. Mayr
mostrou que o crescimento em tamanho e complexidade do cérebro
humano é um evento tão insólito
e misterioso que dificilmente pode ser explicado pela
evolução apenas. "O desenvolvimento do cérebro
humano é uma mutação que não necessariamente
trouxe vantagens evolutivas à espécie. Foi uma
aposta que deu certo até agora, mas nada indica que
continuará dando", dizia Mayr. O célebre cientista
gostava de lembrar que o cérebro humano é muito
frágil, protegido por um crânio não muito
espesso, além de consumir um quinto de toda a energia
disponível no organismo, proporção que
nenhum outro ser vivo se deu ao luxo de gastar com apenas
um órgão. Para enfatizar ainda mais a complexidade
da trajetória evolutiva rumo à civilização,
Mayr lembrava que de todos os 50 bilhões de espécies
que existem ou já existiram no planeta apenas uma,
a humana, desenvolveu um cérebro capaz de aprender.
Conclui Ernst Mayr: "Quando se coloca na equação
a variável de que os homens só desenvolvem cultura
quando vivem em sociedades humanas e, antes, são cuidados
por mães e pais até o fim da puberdade, a complexidade
dos processos de produção de uma civilização
tecnológica atinge um grau tal que talvez não
possa ser repetido em nenhum outro lugar". Mais uma razão
para olharmos para o cosmo com espanto e para a nossa única
Terra com mais humildade e carinho.
Com reportagem de Rosana Zakabi, Leoleli
Camargo e Daniel Salles
A VIDA LÁ FORA
Desde o início
dos tempos, o homem olhou as estrelas
e especulou sobre a existência de vida em outros
mundos
Lennox Mclendon/AP
"É
hora de recolocar o pé na estrada e partir
rumo aos planetas. A longo prazo, ou colonizamos
os planetas, ou seremos uma espécie extinta." Carl Sagan, astrônomo americano
(1934-1996)
"Não
cessaremos de explorar
E o fim de toda a nossa exploração
Será chegar aonde começamos
E conhecer esse lugar pela primeira vez." T.S. Eliot, poeta americano, no
livro Four Quartets (1888-1965)
EXPRESS/Getty
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"Há
incontáveis terras, todas orbitando em volta
de seus sóis da mesma maneira que os sete planetas
do nosso sistema... Os incontáveis mundos no
universo não são piores nem menos habitados
que a nossa Terra." Giordano Bruno, filósofo italiano,
no livro De l'Infinito Universo e Mondi (1548-1600)