Os
dois candidatos que disputam o segundo turno das eleições presidenciais
na França, no domingo, dia 6, estão encenando mais uma vez o clássico
embate entre esquerda e direita. A socialista Ségolène Royal e Nicolas
Sarkozy, do partido de centro-direita UMP, têm posições distintas
sobre geração de emprego e leis trabalhistas, entre outros problemas-chave
para um país que amarga baixos índices de crescimento e uma dívida
pública de 1,2 trilhão de euros. Diante de uma eleição
aparentemente tão polarizada, fica difícil notar as semelhanças
evidentes entre os dois campos em disputa. O fato, porém, é que
o terreno consensual entre os dois lados opostos do espectro político cresceu
muito desde que o comunismo europeu ruiu, na virada da década de 90. Nascida
na Assembléia dos Estados-Gerais, nos primórdios da Revolução
Francesa, a dicotomia esquerda/direita foi uma das muitas contribuições
da França republicana ao moderno vocabulário político. A
divisão continua em cena, na França como no resto do mundo, mas
já não há mais um abismo intransponível entre os dois
lados. Nas democracias contemporâneas, todos reconhecem alguns marcos institucionais
inescapáveis, como a economia de mercado e as liberdades civis. Na margem
limitada em que o estado opera, desejam-se eficiência, transparência
e responsabilidade no equilíbrio orçamentário, marcos do
que se convencionou chamar de boa governança.
O desaparecimento do comunismo que, em sua forma ortodoxa, hoje só
vigora em grotões como Cuba e Coréia do Norte foi fundamental
para a consolidação dos novos consensos. Documento fundamental do
movimento, o Manifesto Comunista, publicado por Marx e Engels em 1848,
admitia e até exaltava a imensa capacidade criativa da burguesia, mas também
decretava que essa classe inovadora encontraria seu fim com a revolução
proletária internacional. No esquema do marxismo, operários e capitalistas
são grupos antagônicos, e não há lugar para conciliação.
Ao longo do século XX, porém, apareceram algumas soluções
de compromisso entre o liberalismo estrito e a intervenção estatal
(todas elas, saliente-se, à margem do totalitarismo da União Soviética).
O New Deal conjunto de programas governamentais para socorrer os Estados
Unidos durante a recessão dos anos 30 é um bom exemplo. Alguns
opositores chegaram a acusar o governo de Franklin Roosevelt de estar instalando
o socialismo nos Estados Unidos. Exagero evidente: a economia de mercado nunca
foi posta em questão. As social-democracias da Europa do pós-guerra
aprofundaram a intersecção entre esquerda e direita, construindo
um novo modelo de estado de bem-estar social.
Christophe
Ena/AP
Nicolas
Sarkozy: propostas de mudança em um país atolado na dívida pública
Por mais que a clivagem entre esquerda e direita tenha se mostrado relativa, ela
ainda tem um certo poder de orientação para o eleitor. Uma pesquisa
de opinião da Fundação Jean Jaurès e da revista Le
Nouvel Observateur concluída no fim de março, pouco antes do
primeiro turno das eleições francesas, traz dados interessantes
nesse sentido. Revela que 41% dos franceses ainda consideram a distinção
entre direita e esquerda relevante, contra 53% que a julgam ultrapassada. Em relação
a uma pesquisa semelhante realizada há cinco anos, cresceu o número
dos que acreditam na divisão em 2002, somente 30% lhe davam crédito.
O aumento é provavelmente resultado da recente polarização
entre Sarkozy e Ségolène. Os eleitores seguem alguns parâmetros
gerais de acordo com sua orientação política. Propostas de
limitação de impostos, por exemplo, contam com a aprovação
de 76% dos que se declaram de direita, contra 53% da esquerda. A maioria dos esquerdistas
(55%) quer a generalização da semana de 35 horas (uma temerária
promessa eleitoral de Ségolène), ao passo que só 25% dos
franceses de direita aprovam essa medida. A revelação mais importante
da pesquisa, porém, vai além das diferenças ideológicas:
os franceses começam a perceber que a esclerosada estrutura estatal de
seu país precisa de mudanças urgentes. Metade dos eleitores deseja
uma reforma profunda da sociedade há dois anos, só 40% pensavam
assim. O próximo presidente, da esquerda ou da direita, terá de
encontrar o rumo da boa governança.