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Edição 2006

2 de maio de 2007
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Brasil
A suspeita ronda o ministro

A polícia colhe indícios de que envolvimento
do ministro Paulo Medina com venda de
sentenças pode ser maior do que se pensava


Alexandre Oltramari e Ricardo Britto

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Está cada vez mais complicada a situação do ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Paulo Medina, a mais alta autoridade do Judiciário denunciada sob a acusação de vender sentenças à máfia dos bingos. Afastado de suas funções com base numa licença médica, Medina passou a semana recluso em seu apartamento funcional, em Brasília. Na quinta-feira, depois de se sentir mal, o ministro precisou ser hospitalizado por causa de diabetes, doença que o acomete já há alguns anos. Seu irmão, o advogado Virgílio Medina, continuava preso sob a acusação de vender sentenças judiciais do ministro. Seus colegas nas duas mais altas cortes do país, o STF e o STJ, defenderam publicamente seu afastamento, além do de outros cinco desembargadores e dois juízes federais, do Rio de Janeiro e de São Paulo, todos igualmente investigados sob a suspeita de vender decisões à máfia da jogatina ilegal. A situação do ministro do STJ só não é mais dramática porque o Supremo Tribunal Federal negou o pedido da Procuradoria-Geral da República para colocá-lo na cadeia. Medina, salvo alguma reviravolta processual, vai responder em liberdade às acusações de formação de quadrilha, corrupção passiva e prevaricação. Mas a Operação Hurricane (furacão, em inglês), que prendeu 25 pessoas duas semanas atrás, não pára de produzir desdobramentos comprometedores para Medina.

Já se sabia que Virgílio Medina é acusado de negociar três decisões do irmão-ministro – uma das quais, segundo a polícia, foi efetivamente vendida por 600 000 reais. Também se sabia que, em suas viagens rotineiras a Brasília, Virgílio costumava se hospedar no apartamento do irmão e despachar num escritório de advocacia, o Gueiros, Pitta Lima & Ferreira. Apenas em novembro do ano passado, o ministro Medina proferiu duas decisões favoráveis aos pleitos do escritório usado por seu irmão. Agora, revirando as duas toneladas de material apreendido na operação, a PF encontrou evidências de que Virgílio Medina era sócio oculto do escritório onde despachava. Os indícios estão sendo mantidos em sigilo, mas um investigador envolvido na operação disse a VEJA que documentos apreendidos no escritório mostram uma recente divisão de dinheiro. De um total de 3 milhões de reais, o escritório Gueiros, Pitta Lima & Ferreira ficou com 2 milhões, destinando 1 milhão para o irmão do ministro. É uma partilha de honorários? Distribuição de lucros? "Desconheço isso", diz o advogado Eduardo Toledo, que representa o escritório. "Pode haver uma ilação ou interpretação nesse sentido, mas é equivocada."

 

Reprodução/TV Globo
Contando o dinheiro apreendido: policiais acham mais indícios nas escutas telefônicas

Existem indícios de que o advogado Virgílio Medina não fazia um vôo-solo quando negociava sentenças do irmão-ministro. Nas gravações feitas pela polícia, não há diálogo entre o ministro e os compradores de sentenças nem conversas tratando de propinas com o irmão. Mas, numa delas, de quatro minutos, gravada em outubro passado, o ministro antecipa ao irmão algumas das decisões que pretende tomar no STJ. Seu principal assessor, Fernando Rodrigues, que costumava participar das reuniões entre Virgílio e Paulo Medina, também foi gravado pela polícia. Numa conversa com seu chefe, ele diz que "o pessoal do Virgílio" queria cópia de um voto do ministro proferido no dia anterior. Em outra, dessa vez com um homem interessado na Medida Cautelar nº 12470, sob responsabilidade de outro magistrado, o assessor orienta o interlocutor a buscar Paulo Medina no aeroporto de Brasília. E lhe informa que Medina vai pedir vistas do processo e conversar com os outros ministros da corte. O assessor do ministro tinha até a senha do e-mail do advogado Virgílio Medina. Por quê?

A situação do ministro é tão sombria que até sua defesa, em vez de ajudá-lo, acabou por envolvê-lo em outra nuvem de suspeitas. Seu advogado, Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay, é um dos mais caros criminalistas da capital federal, não pega uma causa por menos de 300 000 reais, mas está defendendo Medina de graça. A PF achou a caridade suspeita e, discretamente, passou a investigar a relação entre os dois. Descobriu que, em novembro passado, graças a uma decisão do ministro Medina, Kakay conseguiu libertar Miriam Law, mulher e parceira comercial do chinês Law Kin Chong, preso sob a acusação de ser o maior contrabandista do país. A PF está intrigada com a cronologia do caso. Em 22 de maio do ano passado, Medina foi contra a libertação de Miriam Law. Em 25 de agosto, repetiu seu voto. No dia 21 de setembro, voltou a ficar contra, mas, quando o caso foi submetido à turma do STJ, subitamente mudou de idéia e votou pela libertação de Miriam Law. Kakay festejou a liberdade de sua cliente num jantar com ela no restaurante Fasano, em São Paulo. Bingo? Kakay se explica: "Minha profissão é advogar. Essa ilação é um absurdo completo. Estou trabalhando de graça só porque o ministro Medina não tem como pagar os meus honorários".

 

Jorge Campos/STJ
Paulo Medina, do STJ: suspeitas de que o irmão era sócio informal de advogados em Brasília

Na semana passada, 21 dos 25 presos na Operação Hurricane começaram a prestar depoimento à Justiça Federal. Eles permanecem presos, por decisão judicial, enquanto respondem ao processo. Já os outros quatro detidos – os desembargadores José Eduardo Carreira Alvim, José Ricardo de Siqueira Regueira e Ernesto da Luz Pinto Dória, além do procurador da República João Sérgio Leal Pereira – vão responder ao processo em liberdade. O processo foi desmembrado porque o procurador e os magistrados têm o privilégio de só ser processados por tribunais superiores. E o entendimento do Supremo Tribunal Federal, nesse caso, é o de que a turma deve ficar em liberdade, mesmo que o resto do bando, preso sob a mesmíssima acusação, tenha de amargar no xilindró. O desembargador Ernesto da Luz Pinto Dória, um dos libertados, deixou a cadeia em grande estilo. Às 2 horas da madrugada, envergando terno e gravata e um par de óculos no estilo tremendão, Dória se ajoelhou e fez o sinal-da-cruz. No Rio, o desembargador José Ricardo de Siqueira Regueira, o único dos magistrados a reassumir o posto, deu até entrevista coletiva. Disse que é inocente de todas as acusações e ainda se sentiu à vontade para questionar juridicamente o desmembramento do processo – que manteve uns na cadeia e deu liberdade a outros. Regueira considera que os acusados "deveriam estar todos juntos". Livres, naturalmente.

 
Jefferson Coppola/Folha Imagem
Lula Marques/Folha Imagem
Law Kin Chong, acusado de contrabando, e Almeida Castro, o advogado de Medina: "É um absurdo"

A ofensiva contra os mercadores de sentenças, que revelou a venda de decisões judiciais em altas esferas jurídicas do país, pode acabar iluminando um tema espinhoso: a ação de familiares de juízes nas cortes em que seus parentes têm a caneta à mão. Isso é muito mais comum do que se imagina. Dos 33 ministros do STJ, por exemplo, quinze têm filhos, mulheres, irmãos ou genros advogando junto ao próprio STJ. Eles respondem por 320 ações, que envolvem desde a soltura de acusados de homicídio até disputas comerciais milionárias. A advogada Ívis Glória de Pádua Ribeiro, mulher do ministro Antônio de Pádua Ribeiro, defende os interesses de uma empresa de celulose contra um banco. O advogado Octávio Fischer, filho do ministro Felix Fischer, é o recordista de ações: 48. Ele representa os interesses de municípios, empreiteiras e empresas. O simples fato de um advogado atuar num tribunal onde um parente atua como juiz, naturalmente, não constitui crime algum. Além disso, existe uma norma legal determinando que, quando um magistrado recebe o processo de um parente, ele deve se declarar impedido. Mas o tema é tão controvertido que, desde 2000, tramita no Congresso um projeto de lei para acabar com a advocacia de parentes de juízes em seus tribunais de atuação. Não é um tema fácil. Mas é bom começar a discuti-lo. Até porque nesse ambiente vaporoso pode surgir um novo escândalo envolvendo o Judiciário do país.

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