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Edição 2006

2 de maio de 2007
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Brasil
Ele continua mandando

Mesmo com a existência de uma fita mostrando
que Marcola continua ordenando crimes, o líder
do PCC deverá sair, em breve, do regime de
isolamento máximo


Juliana Linhares

Reprodução
Marcola: a ordem de poupar o "zé-povinho" é fruto do receio de a população se voltar contra o PCC
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Nos próximos dias, o bandido Marcos Willians Camacho, o Marcola, deixará a prisão de segurança máxima de Presidente Bernardes rumo a destino ignorado. No presídio, localizado no interior de São Paulo, vigora o Regime Disciplinar Diferenciado, o temido RDD, que prevê isolamento máximo para presos perigosos e líderes de quadrilhas – caso de Marcola, o número 1 da facção criminosa PCC. Pelas normas do RDD, os presos ficam em celas individuais, permanecem trancafiados quase o tempo todo (têm direito a duas horas de banho de sol por dia) e recebem visitas semanais – monitoradas – de, no máximo, duas pessoas. A transferência de Marcola para um presídio livre dessas regras é uma derrota para o Ministério Público – e uma potencial ameaça para a segurança pública. Por lei, os detentos podem ficar sob o RDD por, no máximo, um ano, prorrogável por mais outro. Para conseguir essa prorrogação, o MP (ou a polícia) tem de provar que o detento continua cometendo crimes como, por exemplo, incitar a subversão no sistema carcerário. É o que vinha tentando fazer havia oito meses uma equipe de promotores de Presidente Prudente e agentes da Secretaria da Administração Penitenciária do Estado de São Paulo (SAP). Para eles, não há dúvida: Marcola não só permanece comandando boa parte da população carcerária de São Paulo como, na primeira oportunidade que consegue, ordena crimes e é obedecido.

Uma cilada armada pela polícia em fevereiro (veja o quadro abaixo) mostrou a extensão do poder do bandido. Colocado em um camburão juntamente com o detento Julio César Guedes de Moraes, o Julinho Carambola, Marcola teve gravada uma conversa assustadora. No diálogo, ele rechaçava a sugestão do comparsa de promover novos ataques do PCC em São Paulo, por receio de que a população se voltasse contra a facção, e ordenava, no lugar, o assassinato de agentes penitenciários. Menos de uma semana depois da conversa entre Marcola e Julinho Carambola, no dia 7 de fevereiro, três homens foram presos em Anhumas, cidade vizinha a Presidente Bernardes. Com um deles, a polícia encontrou uma lista com nome, endereço e telefone de vinte agentes penitenciários do oeste paulista, região de prisões ocupadas por líderes do PCC. Metade dos nomes listados era de funcionários do presídio de Presidente Bernardes. Coincidência? Não é o que parece. De fevereiro a abril, três funcionários do sistema prisional de São Paulo foram assassinados, incluindo uma mulher. A funcionária, de 59 anos, levou dezesseis tiros quando estava em um ponto de ônibus, a caminho do trabalho. Assim como ela, os outros dois agentes mortos foram pegos próximo de casa. Um deles lavava o carro na garagem quando foi atingido por dez tiros. O segundo foi morto com seis tiros, também na frente de casa. Os dois assassinatos foram cometidos por motoqueiros.

Celso Junior/AE/Pagos
Julinho Carambola: tido como o número 2 do PCC, caiu na "cilada do camburão"


A fita da conversa entre Marcola e seu comparsa foi apresentada a um juiz de Presidente Prudente juntamente com o pedido de prorrogação da estada do líder do PCC na prisão de Presidente Bernardes. Contrariando as expectativas dos promotores e da equipe da SAP, o juiz negou o pedido do MP. Marcola tem 39 anos e foi preso pela primeira vez em 1986. Está condenado a 39 anos, onze meses e quatro dias por crimes diversos, incluindo assalto a banco e assassinato. Desde 13 de maio de 2006 está em Presidente Bernardes. Foi transferido para lá depois da primeira onda de ataques do PCC a São Paulo, que teve início no dia 12 de maio daquele ano e terminou com a morte de 152 pessoas, em meio a bombas, incêndios a ônibus e tiroteios. O líder do PCC passa seus dias trancafiado na cela, escrevendo, lendo e se exercitando: faz flexões de braços e abdominais diariamente. Em junho do ano passado, quando foi interrogado pela CPI do Tráfico de Armas, Marcola declarou ser leitor do filósofo Friedrich Nietzsche e disse que seu livro preferido era Assim Falou Zaratustra. Ao que tudo indica, suas preferências literárias sofreram uma mudança e tanto. O líder do PCC acaba de ler O Doce Veneno do Escorpião, de autoria de Bruna Surfistinha.

Oficialmente, o governo não informa para onde Marcola será enviado a partir do próximo dia 7, mas sabe-se que, até o momento, as penitenciárias mais cotadas para recebê-lo são a de Avaré e a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, ambas no interior paulista. Embora sejam presídios de segurança máxima, não estão sob o Regime Disciplinar Diferenciado. Isso significa que os presos ficam mais tempo fora das celas, têm mais contato uns com os outros e menos restrições nas visitas. Marcola há tempos vinha pedindo sua saída do RDD. Agora conseguiu. No Brasil, os bandidos sempre conseguem.

 

Tiago Brandão/AE

Ônibus queimado durante ataques do PCC, supostamente ordenados por Marcola, em 2006
 
Reprodução
 

 

 

Em fevereiro, agentes da Secretaria da Administração Penitenciária de São Paulo e do Ministério Público armaram uma cilada para "Marcola". Fizeram com que uma audiência que ele tinha marcada com um juiz naquele mês coincidisse com a data de uma audiência de "Julinho Carambola", tido como o número 2 do PCC. Assim, puderam colocar os dois bandidos no mesmo camburão ­ no qual havia um gravador. Os bandidos caíram no truque. Na conversa registrada, Carambola sugere a Marcola que o PCC volte a incendiar ônibus em São Paulo. O líder diz que não. Afirma que os atentados não podem ser contra o "zé-povinho", para que a população não se volte contra a facção. Marcola ordena então, que os assassinados sejam os agentes penitenciários.

 

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