Mesmo com a
existência de uma fita mostrando que Marcola continua ordenando crimes,
o líder do PCC deverá sair, em breve, do regime de isolamento
máximo
Juliana
Linhares
Reprodução
Marcola:
a ordem de poupar o "zé-povinho" é fruto do receio de a população
se voltar contra o PCC
Nos
próximos dias, o bandido Marcos Willians Camacho, o Marcola, deixará
a prisão de segurança máxima de Presidente Bernardes rumo
a destino ignorado. No presídio, localizado no interior de São Paulo,
vigora o Regime Disciplinar Diferenciado, o temido RDD, que prevê isolamento
máximo para presos perigosos e líderes de quadrilhas caso
de Marcola, o número 1 da facção criminosa PCC. Pelas normas
do RDD, os presos ficam em celas individuais, permanecem trancafiados quase o
tempo todo (têm direito a duas horas de banho de sol por dia) e recebem
visitas semanais monitoradas de, no máximo, duas pessoas.
A transferência de Marcola para um presídio livre dessas regras é
uma derrota para o Ministério Público e uma potencial ameaça
para a segurança pública. Por lei, os detentos podem ficar sob o
RDD por, no máximo, um ano, prorrogável por mais outro. Para conseguir
essa prorrogação, o MP (ou a polícia) tem de provar que o
detento continua cometendo crimes como, por exemplo, incitar a subversão
no sistema carcerário. É o que vinha tentando fazer havia oito meses
uma equipe de promotores de Presidente Prudente e agentes da Secretaria da Administração
Penitenciária do Estado de São Paulo (SAP). Para eles, não
há dúvida: Marcola não só permanece comandando boa
parte da população carcerária de São Paulo como, na
primeira oportunidade que consegue, ordena crimes e é obedecido.
Uma cilada armada pela polícia em fevereiro (veja o quadro abaixo)
mostrou a extensão do poder do bandido. Colocado em um camburão
juntamente com o detento Julio César Guedes de Moraes, o Julinho Carambola,
Marcola teve gravada uma conversa assustadora. No diálogo, ele rechaçava
a sugestão do comparsa de promover novos ataques do PCC em São Paulo,
por receio de que a população se voltasse contra a facção,
e ordenava, no lugar, o assassinato de agentes penitenciários. Menos de
uma semana depois da conversa entre Marcola e Julinho Carambola, no dia 7 de fevereiro,
três homens foram presos em Anhumas, cidade vizinha a Presidente Bernardes.
Com um deles, a polícia encontrou uma lista com nome, endereço e
telefone de vinte agentes penitenciários do oeste paulista, região
de prisões ocupadas por líderes do PCC. Metade dos nomes listados
era de funcionários do presídio de Presidente Bernardes. Coincidência?
Não é o que parece. De fevereiro a abril, três funcionários
do sistema prisional de São Paulo foram assassinados, incluindo uma mulher.
A funcionária, de 59 anos, levou dezesseis tiros quando estava em um ponto
de ônibus, a caminho do trabalho. Assim como ela, os outros dois agentes
mortos foram pegos próximo de casa. Um deles lavava o carro na garagem
quando foi atingido por dez tiros. O segundo foi morto com seis tiros, também
na frente de casa. Os dois assassinatos foram cometidos por motoqueiros.
Celso
Junior/AE/Pagos
Julinho
Carambola: tido como o número 2 do PCC, caiu na "cilada do camburão"
A fita da conversa
entre Marcola e seu comparsa foi apresentada a um juiz de Presidente Prudente
juntamente com o pedido de prorrogação da estada do líder
do PCC na prisão de Presidente Bernardes. Contrariando as expectativas
dos promotores e da equipe da SAP, o juiz negou o pedido do MP. Marcola tem 39
anos e foi preso pela primeira vez em 1986. Está condenado a 39 anos, onze
meses e quatro dias por crimes diversos, incluindo assalto a banco e assassinato.
Desde 13 de maio de 2006 está em Presidente Bernardes. Foi transferido
para lá depois da primeira onda de ataques do PCC a São Paulo, que
teve início no dia 12 de maio daquele ano e terminou com a morte de 152
pessoas, em meio a bombas, incêndios a ônibus e tiroteios. O líder
do PCC passa seus dias trancafiado na cela, escrevendo, lendo e se exercitando:
faz flexões de braços e abdominais diariamente. Em junho do ano
passado, quando foi interrogado pela CPI do Tráfico de Armas, Marcola declarou
ser leitor do filósofo Friedrich Nietzsche e disse que seu livro preferido
era Assim Falou Zaratustra. Ao que tudo indica, suas preferências
literárias sofreram uma mudança e tanto. O líder do PCC acaba
de ler O Doce Veneno do Escorpião, de autoria de Bruna Surfistinha.
Oficialmente, o governo não
informa para onde Marcola será enviado a partir do próximo dia 7,
mas sabe-se que, até o momento, as penitenciárias mais cotadas para
recebê-lo são a de Avaré e a Penitenciária 2 de Presidente
Venceslau, ambas no interior paulista. Embora sejam presídios de segurança
máxima, não estão sob o Regime Disciplinar Diferenciado.
Isso significa que os presos ficam mais tempo fora das celas, têm mais contato
uns com os outros e menos restrições nas visitas. Marcola há
tempos vinha pedindo sua saída do RDD. Agora conseguiu. No Brasil, os bandidos
sempre conseguem.
Tiago
Brandão/AE
Ônibus
queimado durante ataques do PCC, supostamente ordenados por Marcola, em 2006
Reprodução
Em
fevereiro, agentes da Secretaria da Administração Penitenciária
de São Paulo e do Ministério Público armaram uma cilada para
"Marcola". Fizeram com que uma audiência que ele tinha marcada com um juiz
naquele mês coincidisse com a data de uma audiência de "Julinho Carambola",
tido como o número 2 do PCC. Assim, puderam colocar os dois bandidos no
mesmo camburão no qual havia um gravador. Os bandidos caíram
no truque. Na conversa registrada, Carambola sugere a Marcola que o PCC volte
a incendiar ônibus em São Paulo. O líder diz que não.
Afirma que os atentados não podem ser contra o "zé-povinho", para
que a população não se volte contra a facção.
Marcola ordena então, que os assassinados sejam os agentes penitenciários.