Depois de enfurecer os ingleses
mais bairristas com dois filmes como a avoada londrina Bridget Jones, a texana
Renée Zellweger volta ao ataque em Miss Potter, desde sexta-feira
em cartaz no país, no qual ela interpreta Beatrix Potter (1866-1943)
solteirona vitoriana, criadora de personagens como o coelho Peter Rabbit e a patinha
Jemima e a mais popular autora de livros infantis das ilhas britânicas.
Renée falou à editora Isabela Boscov sobre os desafios de ser mulher
em Hollywood e sobre a importância de ir ao dentista.
DOIS
FILMES COMO BRIDGET JONES E AGORA MISS POTTER VOCÊ ESTÁ VIRANDO
UMA INGLESA HONORÁRIA, NÃO? Se alguém disser isso, me
deixará incrivelmente lisonjeada, e não vou recusar o elogio. Já
perdi a conta de todas as caras feias que enfrentei por interpretar dois ícones
britânicos como Bridget e, agora, Beatrix Potter.
FOI
POR CAUSA DE BRIDGET QUE VOCÊ FOI CONVIDADA A FAZER A ESCRITORA BEATRIX
POTTER? Na verdade, a história é bem menos glamourosa. Richard
Maltby Jr., que escreveu o roteiro de Miss Potter, freqüenta o mesmo
dentista que eu, e contou a ele que tinha pensado em mim para o papel de Beatrix.
Meu dentista ficou meio sem jeito, mas topou passar o script adiante. Acho que
deve ter sido a primeira vez na história de Hollywood que uma negociação
para um filme foi intermediada num consultório dentário, mas fica
a dica: se estiver precisando de emprego, não deixe de marcar uma hora
com seu dentista!
VOCÊ LEU AS HISTÓRIAS
DE PETER RABBIT QUANDO ERA CRIANÇA? Li, e tinha uma lembrança
vaga delas. Mas só quando comecei a me preparar para o filme me dei conta
do monumento que Peter Rabbit representa para a cultura britânica. Eu também
não sabia que Beatrix Potter, além de ter escrito histórias
que são leitura obrigatória para as crianças inglesas, foi
uma das primeiras ambientalistas de que se tem notícia. Até o fim
da vida, ela conseguiu comprar, e demarcar como zona de preservação,
uma área de 1 600 hectares no Lake District inglês e isso
no início do século XX.
BEATRIX
POTTER CRIAVA SUAS HISTÓRIAS À MEDIDA QUE AS DESENHAVA, UM PROCESSO
QUE É RECRIADO EM VÁRIAS CENAS DE MISS POTTER. VOCÊ
DESENHA? Nada que possa ser mostrado para os outros! As ilustrações
de Beatrix Potter parecem simples e suaves, mas, quando você tenta imitar
a técnica dela, é que se dá conta de quão complicados
são os desenhos de Peter Rabbit.
AS
ATRIZES AMERICANAS SE QUEIXAM DE QUE A OFERTA DE PAPÉIS INTERESSANTES PARA
ELAS É MUITO PEQUENA, ESPECIALMENTE QUANDO ELAS COMEÇAM A SE APROXIMAR
DOS 40 ANOS. VOCÊ ACABA DE FAZER 38. ALGUM COMENTÁRIO A ESSE RESPEITO?
Na verdade, tenho tido tanta sorte que acabei ficando mal-acostumada, e acho que
vou cair do cavalo se começar a enfrentar esse tipo de dificuldade para
encontrar trabalho. Mas o fato é que todas as minhas atrizes favoritas
estão por aí, trabalhando o tempo todo. O cinema independente mudou
esse cenário para melhor. Além disso, nos últimos cinco anos,
filmes como Alguém Tem que Ceder, O Diabo Veste Prada e A Rainha
têm demonstrado que existe um bom mercado para títulos encabeçados
por mulheres. Então estou otimista.
SERÁ
QUE, AO SE CONCENTRAREM TANTO NA APARÊNCIA E EM PAPÉIS SIMPÁTICOS
À SUA IMAGEM, AS ATRIZES AMERICANAS NÃO SE COLOCAM ELAS PRÓPRIAS
NESSA SITUAÇÃO, DE TER MENOS PAPÉIS À MEDIDA QUE FICAM
MAIS VELHAS? Sim e não. No cinema americano, existe mesmo uma "janela"
de oportunidade para que uma atriz estabeleça uma carreira e ela
é breve. E a juventude é, sim, ultravalorizada. Sucessos como o
de As Pontes de Madison, que trata de um romance entre um homem e uma mulher
maduros, infelizmente são uma exceção.