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Banquinho e vozeirão

Disco acústico de Cássia Eller
consagra a cantora carioca
como
a maior intérprete do
pop nacional

Sérgio Martins

 
Antonio Milena
Cássia Eller: ela consumia cocaína até o ano passado. Hoje, faz terapia para escapar das drogas

Existem cantoras aos montes no atual cenário da música brasileira. Há espaço para divas afinadinhas com excelente faro para o marketing pessoal, figuras do passado que tentam seguir as novas modas e cantantes que se acham compositoras de primeira. Nenhuma, contudo, é páreo para Cássia Eller. Essa carioca de 38 anos, é verdade, não é das mais afinadas – é a primeira a reconhecer que mais berra do que entoa. Ela também não compõe – pelo menos nada digno de figurar em seus discos. Mas Cássia sente as músicas que canta. Interpreta cada letra como se todos aqueles dramas, relatos malandros ou histórias de amor estivessem gravados em sua carne. "É a Fernanda Montenegro da MPB", exulta o crítico musical Ezequiel Neves. No próximo sábado, chega às lojas outro exemplo da categoria de Cássia, o projeto Acústico MTV – que inclui disco, programa de televisão e mais um home video e um DVD que serão lançados posteriormente. Ao lado de uma banda competente, em que se destacam o violonista Luiz Brasil e as percussionistas Lan Lan e Thamyma Brasil, Cássia revisita o melhor de seu repertório. A canção Nós ganhou um arranjo flamenco. Malandragem, da dupla Cazuza e Roberto Frejat (com cujas composições Cássia recheou o disco Veneno AntiMonotonia), tem um andamento mais rápido do que a versão original, de 1994, e as músicas do produtor Nando Reis (entre elas E.C.T. e O Segundo Sol) superam suas gravações em estúdio. Cássia também brilha em músicas que nunca havia registrado em disco: capricha no jeitão gaiato em Partido Alto, de Chico Buarque, e faz uma versão inesquecível de Non, Je Ne Regrete Rien, imortalizada pela francesa Edith Piaf.

Cássia Rejane Eller (o nome foi sugestão da avó, devota de Santa Rita de Cássia) conquistou seu espaço na base da botinada. Homossexual assumida, em meados dos anos 80 participava do grupo teatral de Oswaldo Montenegro (ninguém é perfeito) e tocava bumbo em um trio elétrico de Brasília – para onde a família se mudou depois que descobriu o romance de Cássia com outra mulher. Em 1990 foi contratada pela gravadora PolyGram (atual Universal). Era a época das "cantoras ecléticas", e Cássia foi vendida como uma versão mais ácida de Marisa Monte. Quatro anos depois, como ela não tinha vendas significativas, tentaram transformá-la numa artista mais "sofisticada". Cássia lançou um álbum equivocado, em que alternava rocks com baladas de Djavan e Herbert Vianna. "Queriam que eu aparecesse em festas badaladas e saísse em fotos com atores", dispara. Ela só se libertou dessa estratégia em 1996, com o disco Cássia Eller ao Vivo. Sucesso de vendas, o álbum consagrou-a como a maior intérprete de rock do Brasil.

As apresentações da cantora costumam chocar estômagos mais sensíveis. Cássia gosta de arrotar e mostrar em público os seios (ela se orgulha de ter usado sutiã poucas vezes na vida). Volta e meia, bolina uma certa parte inexistente de sua anatomia feminina. "Sou espada", brinca. O comportamento tresloucado no palco não condiz inteiramente com a Cássia Eller do mundo real. "Cássia é muito tímida", entrega Eugênia Vieira Martins, companheira da cantora há treze anos. As duas criam o rapazote Francisco, o "Chicão", de 7 anos, fruto de um caso de Cássia com o baixista Otávio Fialho. Chicão não conheceu o pai, que morreu num acidente automobilístico cinco dias antes de seu nascimento. "Procuro mostrar fotos do Otávio e falo muito dele para o Chicão", diz a cantora. Suas perplexidades existenciais já foram escamoteadas com fartas doses de cocaína. Cássia começou a usar a droga ainda em Brasília e só parou de consumi-la no final do ano passado, após sessões de acupuntura. A droga foi coadjuvante em momentos importantes de sua vida – como os shows de abertura para os Rolling Stones, em 1998. "Eu só queria saber de cheirar. Chicão e Eugênia ficavam muito nervosos", conta. Há três meses, começou a fazer terapia para escapar da cocaína. Hoje seus únicos vícios confessos são o cigarro, a cerveja e a música – mas este último ninguém faz questão que Cássia abandone.

 

As fases de Cássia

Albano Mendes
Selmy Yassuda
Divulgação
Beti Niemeyer
No alto: com um visual punk de periferia no show Veneno AntiMonotonia, em 1997, e com o filho Chicão e a companheira Eugênia. Acima: ironicamente feminina na foto de 1999 e com corte moicano na turnê do ano passado

 

   
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