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Edição 1 698 - 2 de maio de 2001
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O outro holocausto

Documentário revela como a
Alemanha de
Hitler perseguia
e matava os homossexuais

Marcelo Marthe

 
Fotos divulgação
Parágrafo 175: cerca de 10 000 gays mortos nos campos de concentração

Em plena Alemanha nazista, nos anos 40, o judeu Gad Beck cometeu uma ousadia digna de cinema. Disfarçado de membro da juventude hitlerista, ele tentou resgatar um rapaz por quem estava apaixonado de dentro de uma escola ocupada pela temível Gestapo, a polícia secreta alemã. Mas sua cara-metade não aceitou a ajuda. Preferiu ir para o campo de concentração a abandonar os pais. "O fato de sermos homossexuais nos tornava ainda mais odiados", recorda o septuagenário Beck. Histórias como essa são o forte do documentário Parágrafo 175 (Paragraph 175, Inglaterra/Alemanha/Estados Unidos, 1999), que estréia no canal GNT neste domingo, 29, às 20h30. Ao abordar a perseguição aos homossexuais no regime nazista – um aspecto pouco estudado do holocausto –, o filme remexe numa ferida. Até hoje, os que foram presos nessa condição não são reconhecidos oficialmente como vítimas da II Guerra e não receberam reparações. Para além dessa denúncia, porém, os diretores Rob Epstein e Jeffrey Friedman (de documentários premiados, como Celulóide Secreto, sobre os gays em Hollywood) realizaram um trabalho de valor histórico inestimável ao registrar os depoimentos de seis homossexuais que sobreviveram à barbárie. São memórias tão dolorosas e reprimidas pelo preconceito que um deles, de 93 anos, revela nunca ter tido coragem de comentar com ninguém o que se passou.

Dos cerca de 50.000 homossexuais aprisionados pelos nazistas, perto de 10.000 morreram nos campos de concentração. Assim como os judeus, eles foram vítimas de violências terríveis. Há relatos de sevícias, espancamentos até a morte e "operações" experimentais, que pretendiam transformar os pacientes em heterossexuais mediante o implante de bolsas de hormônios. Para prender e realizar tais atrocidades com os homossexuais, reformulou-se uma lei de 1871 – o parágrafo 175 do Código Penal alemão, que dá nome ao documentário. Ela considerava crime grave a prática da sodomia entre dois homens. As lésbicas não eram tidas como uma "aberração" tão perigosa e, por isso, poucas acabaram nos campos de concentração. A revelação mais surpreendente de Parágrafo 175, contudo, é que essa lei continuou em vigor nas Alemanhas Oriental e Ocidental até o final dos anos 60. Por causa dela, vários sobreviventes do horror voltaram a ser presos depois da guerra.

 

Ases indomáveis


Pilotos da FAB: memórias

Não é apenas o pano de fundo da II Guerra que aproxima Parágrafo 175 do documentário Senta a Pua! (Brasil, 1999), desde sexta-feira em cartaz nos cinemas de Brasília, Rio e São Paulo. A fita nacional também traz depoimentos tão comoventes que, no fim, é difícil não ficar com um nó na garganta. Ela estreou primeiro na TV, como uma série em cinco episódios exibida no ano passado pelo GNT. Em um circuito que inclui até cinemas de shopping, coisa rara para documentários, Senta a Pua! fala dos pilotos da Força Aérea Brasileira (FAB) que participaram da luta contra os nazistas no norte da Itália, entre 1944 e 1945. Em vez de empacar no ufanismo meloso, o filme vai direto ao ponto. Com base em imagens de época (pesquisadas pelo diretor brasiliense Erik de Castro em arquivos do Brasil e dos Estados Unidos) e nas histórias dos veteranos, Senta a Pua! reconstitui em minúcias as aventuras que eles viveram a bordo dos aviões P-47. O título do documentário é um lema que os pilotos criaram. "Sentar a pua" significa lançar-se sobre o inimigo com decisão e vontade de aniquilar. O avestruz que enfeita o brasão, por sua vez, é uma homenagem ao incrível apetite dos aviadores brasileiros, que fizeram fama por encarar qualquer gororoba.

 

   
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