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Agora em cadeia
nacional
Polícia
disputa na TV os
louros
da prisão de Fernandinho
Beira-Mar

Marcelo Carneiro
Folha Imagem
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"Já
tiraram os dois pés? E os dedinhos?"
"O
dia que qualquer polícia começar a mexer com a minha
família eu vou para a imprensa. Tenho certeza de que cinquenta
policiais perdem a carteira"
Luiz
Fernando da Costa,
o Fernandinho Beira-Mar
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Em
1997, quando fugiu de uma cadeia em Belo Horizonte, Luiz Fernando da Costa
era um bandido sem nenhuma expressão no cenário criminal
brasileiro. Na quarta-feira passada, após ser capturado nas selvas
da Colômbia, desembarcou em Brasília com fama de pop star
da criminalidade. Fernandinho Beira-Mar, apelido que ganhou ao transitar
da obscuridade para a fama, é o primeiro exemplar de traficante
tipo exportação com origem nos morros cariocas. Beira-Mar,
que durante a semana só encontrou nos políticos de Brasília
rivais à altura de disputar com ele o espaço no noticiário,
virou alvo de uma enorme contenda entre a Secretaria de Segurança
do Rio de Janeiro e a Polícia Federal brasileira pelos louros de
sua captura. Executada, aliás, pelo Exército colombiano.
A caçada mobilizou mais de 300 militares. Também levou ao
país vizinho o secretário de Segurança do Rio, Josias
Quintal. Junto com ele, viajou uma comitiva de jornalistas cariocas, em
jato fretado pelo governo de Anthony Garotinho outro que adora
um holofote e participou de três programas de entrevista na televisão
para capitalizar a prisão.
O estardalhaço da operação colocou o traficante em
um patamar alguns degraus acima do que realmente ocupa na escala do crime.
Não era preciso. Nos anos que se seguiram à sua fuga do
Brasil, Luiz Fernando da Costa se tornou, de fato, o maior distribuidor
de drogas no país. A partir do comando de meia dúzia de
pontos-de-venda de maconha na favela Beira-Mar, bolsão de miséria
na Baixada Fluminense, o traficante organizou um bem montado esquema de
comércio de maconha e cocaína, compra de armas e lavagem
de dinheiro. Um levantamento do Ministério Público do Rio
que resultou na abertura de um processo contra Fernandinho e mais de trinta
integrantes de sua quadrilha demonstra que o traficante ganhou uma dimensão
até então inimaginável. "Ele transformou seu negócio
em uma verdadeira empresa", explica a promotora Márcia Velasco,
do Ministério Público carioca.
Divulgação
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| Garotinho,
com Raul Gil: caçada ao bandido virou programa de auditório |
A quebra de sigilo bancário revelou que, em apenas nove meses,
duas contas bancárias operadas por laranjas do traficante na periferia
do Rio de Janeiro remeteram para a cidade de Corumbá, em Mato Grosso
do Sul, cerca de 5 milhões de reais. Mas considerá-lo um
traficante internacional, com ramificações na Europa e nos
Estados Unidos, por enquanto não passa de um exercício de
imaginação. Chegou-se a dizer que Beira-Mar teria confessado
à polícia colombiana que pagava mensalmente às Forças
Armadas Revolucionárias da Colômbia a inacreditável
quantia de 10 milhões de dólares, a título de proteção.
"Ele tornou-se um criminoso importante, mas é megalômano",
diz o delegado Getúlio Bezerra, diretor da divisão de repressão
a entorpecentes da Polícia Federal, que segue os passos do bandido
há quase dois anos.
A transformação de Beira-Mar no traficante responsável
por 70% da droga que entra no país esconde uma trajetória
inédita entre os bandidos brasileiros. Perseguido em Minas Gerais
e no Rio de Janeiro, Fernandinho encontrou refúgio em Capitán
Bado, um vilarejo no nordeste do Paraguai, fronteira com o Brasil. Quando
chegou à região, a cidade era conhecida apenas como um pólo
produtor de maconha e abrigo seguro para criminosos de todo tipo. Beira-Mar
associou-se aos principais traficantes do local e descobriu que podia
traçar uma linha reta em direção à Colômbia,
criando uma nova rota de distribuição de cocaína
para o mercado brasileiro.
Nos primeiros depoimentos após a prisão, o traficante deixou
os policiais tontos com sua incontinência verbal. Inicialmente,
em portunhol canhestro, disse ser apenas "un creador de gado",
ou seja, pecuarista. Depois, em testemunho ao secretário de Segurança
Josias Quintal, insinuou a participação de policiais, empresários
e políticos no tráfico de drogas, fornecendo inclusive nomes.
No dia seguinte, em nova conversa com delegados federais brasileiros,
desmentiu que teria feito confissões desse tipo a Quintal. Acabou
provocando um bate-boca entre a Secretaria de Segurança do Rio
e a Polícia Federal, que já haviam se estranhado em episódios
anteriores envolvendo as buscas a Beira-Mar na Colômbia.
O gosto pelos holofotes não é novidade entre traficantes
cariocas. Nos anos 80, José Carlos dos Reis Encina, o Escadinha,
construiu sua fama à base de fugas espetaculares uma delas
de helicóptero e declarações surpreendentes.
Mais recentemente, Márcio Amaro de Oliveira, o Marcinho VP, deu
seguimento à síndrome do bandido bom de retórica.
Traficante do Morro Dona Marta, tornou-se conhecido por organizar entrevistas
coletivas e ter recebido ajuda financeira do cineasta João Moreira
Salles para escrever um livro contando sua história. "Os traficantes
adoram contar vantagem e a polícia gosta de transformá-los
em superbandidos", diz a antropóloga Alba Zaluar, que há
vinte anos estuda a criminalidade em morros do Rio.

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