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Especial Em dois anos, 20
milhões de brasileiros saíram da pobreza
A história de sucesso das nações hoje desenvolvidas possui um traço comum e inequívoco: a ascensão política e econômica da classe média. Essa evolução foi primeiro observada na Europa, onde sociedades estratificadas e sem mobilidade deram lugar a países dinâmicos após a irrupção do capitalismo. Esse fenômeno chegou tardiamente ao Brasil e nunca fincou raízes sólidas e duradouras. Houve fases de rápido crescimento, como na industrialização do início do século passado ou no milagre econômico dos anos 70. Mais recentemente, o país chegou a vislumbrar um salto rumo ao desenvolvimento com o Plano Cruzado. Mas, em todos esses casos, o aumento no padrão de vida dos mais pobres foi transitório e abortado pouco depois por crises econômicas. Agora, com a retomada do crescimento econômico, o país volta a se ver diante da oportunidade de romper, de maneira definitiva, com o subdesenvolvimento. Nos dois últimos anos, mais de 20 milhões de brasileiros saíram das camadas sociais mais baixas as chamadas classes D e E e alcançaram a classe C, a porta de entrada para a sociedade de consumo.
As conclusões acima fazem parte do estudo Observador 2008, feito pelo instituto de pesquisas Ipsos sob encomenda da financeira Cetelem, pertencente ao banco francês BNP Paribas. Trata-se da mais recente evidência de que o país tem conseguido, enfim, reduzir sua população de miseráveis, ao mesmo tempo em que começa a formar uma sociedade de consumo de massa. Outras pesquisas e estudos, com metodologias distintas, já haviam detectado esse avanço (veja quadro), que nada mais é senão a recompensa ao ciclo de reformas e ajustes econômicos feitos pelo país desde o Plano Real, sobretudo o combate à inflação. Comparado ao meio bilhão de novos consumidores que China e Índia produziram na última década, o fenômeno brasileiro pode não impressionar. Mas é notável. É como se, nesse curto espaço de tempo, dois Portugais inteiros tivessem saído da pobreza no Brasil. O resultado disso é que, em um fato inédito na história recente, a classe C é hoje o estrato social mais numeroso do país. Segundo o estudo Observador 2008, são 86,2 milhões de pessoas, o equivalente a 46% da população brasileira (em 2005, a participação delas era de 34%). Já as faixas D e E, que representavam 51% da população em 2005, agora tiveram sua fatia diminuída para 39%. É sempre uma boa notícia a ascensão econômica de pessoas, especialmente a caminho da classe média, notório colchão social entre os estratos mais ricos e mais pobres, capaz de reduzir as tensões sociais e conter a demagogia anacrônica da luta de classes, muito em voga na América Latina. Se a emergência da classe C é um processo sustentável, só o tempo dirá. O que se pode atestar com certeza é que essa transformação deu novo ânimo à economia, despertando o surgimento de negócios, criando empregos e aproximando o Brasil de uma verdadeira economia de mercado. Diz o filósofo Roberto Romano, da Unicamp: "Um país em que a classe média diminua está fadado à estagnação social e econômica. O desafio agora será integrar essa massa populacional à produção de bens e serviços mais elaborados, com investimento em educação técnica, para que esse fenômeno não seja passageiro". O cientista político Fábio Wanderley Reis, professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais, concorda: "O aumento do poder de consumo nas classes mais baixas, associado à estabilidade da economia, trouxe uma nova dinâmica social e resultou numa situação inédita de redistribuição de renda". Trata-se, segundo ele, de um marco na história do país, que o coloca no limiar do desenvolvimento. Existe uma relação direta entre o progresso de um país e a força de seus consumidores. Também há uma conexão direta entre a sociedade de consumo e o crédito. "Não existe crescimento econômico sem crédito, e não há crédito sem estabilidade", afirma Franck Rosez, diretor de marketing da Cetelem. Em 2001, o total de crédito disponível na economia brasileira representava 22% do PIB (produto interno bruto). Em 2007, o porcentual chegou a 35% e, de acordo com projeções do Banco Central, no fim deste ano ele deverá atingir 40%. Esse avanço beneficiou mais as classes baixas, para as quais crédito era, até pouco tempo, atrás, artigo de luxo. "Os mais pobres tinham financiamento curto, com parcelas muito altas. Hoje, os prazos se ampliaram, as parcelas são menores e a classe C consegue comprar mais produtos e administrar a renda disponível", diz Henrique Frayha, presidente da financeira Losango, do banco HSBC. Há ainda o estímulo dos programas sociais, como o Bolsa Família e as aposentadorias rurais. Essa receita de ingredientes positivos faz com que os mais pobres tenham mais dinheiro no bolso e acesso facilitado a financiamentos de longo prazo, elevando o seu padrão de consumo. A boa notícia é que, desta vez, tudo leva a crer que não se trata de mais uma bolha como as do passado. Nem de um vôo de galinha. Um sinal disso é que, mesmo com a crise financeira nos Estados Unidos, o Brasil deverá registrar em 2008 mais um ano de crescimento econômico acelerado. Para o economista Marcelo Neri, diretor do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro, um aspecto essencial que ajuda a entender essa ascensão social é o aumento no número de empregos formais. "Uma firma que contrata alguém formalmente não pensa em demiti-lo logo depois", diz Neri. Isso é positivo porque, com carteira assinada e emprego estável, o trabalhador consegue planejar melhor seu futuro e investir em seu bem-estar. O economista, no entanto, preocupa-se com outro aspecto: milhares de pessoas foram favorecidas pela política do governo de dar reajustes acima da inflação para o salário mínimo, o que beneficiou fortemente os aposentados do setor rural, principalmente no Nordeste. "O problema é que essa política tem um custo fiscal muito grande. Não dá para sustentá-la eternamente", alerta Neri. "Não é interessante promover a ascensão dessa faixa da população com dinheiro público. Os programas sociais do governo devem ser dirigidos à população de indigentes." Seja qual for o combustível desse avanço, ele estimulou o surgimento de novos negócios em todo o país, mas principalmente onde as políticas sociais se fazem sentir com mais força, no Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Lojas que tinham alcance local estão se transformando em poderosas redes regionais tendo como cliente primordial os consumidores da classe C. Esses emergentes do comércio carregam nomes ainda pouco conhecidos no Sudeste. Entre eles estão a Insinuante, líder no varejo de eletroeletrônicos no mercado nordestino (leia texto); a Hermol, de móveis e decoração; o Armazém Pará e a Cimfel, de materiais de construção; a Farmácia dos Pobres, entre outros. Todos ganham força graças a essa nova classe consumidora. A multinacional suíça Nestlé criou toda uma nova linha de produtos para atingir as camadas mais populares. A Cyrela, construtora especializada em imóveis de alto padrão, anunciou a criação da Cytec, voltada para a classe C. Há razões de sobra para tanto interesse. De acordo com a consultoria Data Popular, a classe C apresentou o maior crescimento de renda em comparação com as demais classes. Desde 2002, houve um aumento de 31% nos rendimentos desse grupo acima da média nacional, de 21%. Até o ano passado, foram cerca de 100 bilhões de reais a mais na massa de renda dessas pessoas. O sociólogo alemão Max Weber (1864-1920)descreveu as pessoas excluídas do mercado de consumo como os "negativamente privilegiados", cuja subsistência dependia do estado. É desse lamaçal econômico que conseguiram escapar 20 milhões de brasileiros que migraram das classes D e E para a C nos últimos dois anos. Com o recém-adquirido acesso ao consumo e à informação, espera-se que esses brasileiros cortem o cordão umbilical que os liga ao estado. Que se tornem, enfim, cidadãos autônomos.
Com reportagem de Marcelo Bortoloti
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