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Edição 2054

2 de abril de 2008
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Epidemia do descaso

O surto de dengue no Rio de Janeiro expõe
a negligência dos governos com a saúde


Ronaldo França

Os carros que serviriam no combate à dengue, abandonados: novos criadouros de mosquito

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O Brasil teve 560 000 casos de dengue no ano passado. A doença vem se espalhando pelas Américas de tal forma que, em 2007, se contabilizou a segunda maior incidência dos últimos trinta anos no continente. Portanto, é insensato dizer que a atual epidemia no estado do Rio de Janeiro é um caso isolado, espantoso e inesperado. Ela é fruto do descaso. Havia muito mais do que evidências de que as cidades brasileiras estavam sob o risco de um novo surto. O Ministério da Saúde fez o alerta, em outubro do ano passado, mas as prefeituras não deram a devida importância. O combate às larvas do mosquito, a forma mais eficiente de vencer a doença, foi deixado de lado. O resultado é que a epidemia faz mais de uma vítima por minuto na capital fluminense e já é considerada a terceira pior crise da história do Rio, com mais de 43 000 pessoas infectadas somente nos três primeiros meses do ano. Depois de 54 óbitos registrados, a população do estado tem motivos de sobra para se alarmar. Principalmente porque é entre as crianças que a doença tem feito seu maior número de vítimas fatais. Isso ocorre porque elas ainda não têm imunidade contra o vírus que se disseminou neste ano, o do tipo 2. Grande parte delas não era nascida da última vez que ele atacou para valer. E essa é uma forma mais agressiva da doença.

O Rio de Janeiro não é nem o município em pior situação no estado. Angra dos Reis lidera o ranking de casos em proporção à população. A cidade do Rio está em quarto lugar nessa lista. A diferença é que ali as autoridades resolveram se digladiar. Em vésperas de campanha eleitoral, iniciaram uma disputa sobre quem tem a verdadeira responsabilidade pelo caos. Com isso, demoraram a agir e ajudaram a piorar a situação. Somente na semana passada foi formado o gabinete de crise para lidar com o problema de forma mais estruturada. Não é a primeira vez que isso ocorre. O prefeito Cesar Maia, o secretário estadual de Saúde, Sérgio Côrtes, e o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, também foram atores na última disputa política em torno do sistema de saúde carioca, em 2005, quando o governo federal fez uma intervenção nos hospitais municipais. Nada mudou substancialmente desde então. Também desta vez, trocaram acusações e bravatas. O ministro conclamou a população a não usar bermudas. O prefeito foi visitar Salvador e disse que vai rezar pelo fim da dengue. E o governador avisou que arrombará a porta da casa do proprietário que não permitir a entrada dos agentes sanitários. Uma prática que remonta ao início do século passado, quando o então prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos, fez o mesmo durante a campanha de combate à febre amarela – doença cujo agente transmissor é o mesmo Aedes aegypti. O problema nem novo é.

Carlos Moraes/Ag. O Dia
Na farmácia, o aviso que reflete o pânico: nada de repelentes

A diferença é que o mosquito tem se disseminado a uma velocidade maior. As razões não são apenas brasileiras. O Aedes aegypti é encontrado em toda a região tropical do planeta. Sua primeira epidemia documentada ocorreu nos Estados Unidos, em 1779. Cuba também foi seriamente atacada no início dos anos 80. O que faz com que se dissemine mais rapidamente agora é a crescente aglomeração humana, associada à produção de lixo urbano e moradias precárias. Essas são as principais razões do problema, segundo o Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos. Não se trata, portanto, de nenhuma das acusações trocadas por autoridades locais de olho nas urnas.

Como a humanidade não mudará seu padrão de consumo tão cedo, o lixo continuará sendo produzido em proporções industriais. Também não se resolverá o problema das favelas de uma hora para outra. A solução, dizem os especialistas, é um esforço conjunto. As autoridades precisam colocar toda a atenção na criação de planos de assistência básica, como o programa de agentes comunitários de saúde, que vão às casas e verificam a existência de possíveis focos do mosquito. Sem campanhas intensivas, a cena tende a se repetir: hospitais lotados, famílias desesperadas e crianças morrendo.

Marco Antonio Cavalcanti/Ag. Globo
 

 



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