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Edição 2054

2 de abril de 2008
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Religião
A fé que move os jovens

Quem são os que reaquecem as vocações católicas no Brasil


Adriana Dias Lopes

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Nesta reportagem
Quadro: Vocações ascendentes
Quadro: A força dos movimentos católicos

Há um mês, o paulistano Tiery Esteves deixou de ser Tiery Esteves – o jovem de 20 anos, fã de heavy metal e peladeiro de fim de semana. Ele agora é o irmão Basílio. Noviço no Mosteiro de São Bento, em São Paulo, ouve cantos religiosos e dedica-se com afinco ao estudo da liturgia. Em cinco anos, Tiery (ops, irmão Basílio) se sagrará monge e levará uma vida de clausura. De família de classe média, quando era criança ia à missa de vez em quando, sempre levado pela mãe. Num domingo, aos 16 anos, o rapaz prestou pela primeira vez atenção ao que o padre dizia. "Minha identificação com o Evangelho foi imediata", lembra. "Aquelas palavras me deram uma paz interior inexplicável. Era como se tivessem sido escritas para mim." Pouco a pouco ele foi se envolvendo com a religião. Quando se deu conta, estava em um caminho sem volta: "Vi que minha missão era servir a Deus".

O jovem noviço compõe o retrato da nova geração de candidatos à vida religiosa. Atualmente quem opta por se dedicar à Igreja o faz movido apenas pela fé e pela oportunidade de viver plenamente a espiritualidade. É uma motivação diferente da que atraiu os atuais padres e bispos brasileiros nos anos 70. Boa parte deles se interessou pela Teologia da Libertação, que adaptava conceitos marxistas à doutrina católica. Para muitos foi apenas uma forma nova de engajamento político. "A Igreja tem muito a ganhar com a nova geração de vocações", diz Afonso Soares, presidente da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (Soter) e professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. "A convicção na fé é um primeiro passo para que esses jovens, no futuro, consigam conquistar fiéis com extrema persuasão." A outra boa notícia é que, depois de um período de queda no número de candidatos, desde a década passada registra-se um reaquecimento das vocações pastorais no Brasil – um aumento de cerca de 40% no contingente de homens e mulheres que se preparam para ingressar na vida sacerdotal e religiosa (veja quadro).

"Aos 17 anos, entrei para um grupo de jovens da Igreja. Isso foi ótimo para mim, eu era muito tímido. Passei a sair, a namorar. Fui tocando minha vida até chegar à faculdade. Mas as palavras do Evangelho não saíam da minha cabeça. Um dia, um padre me telefonou. Era um convite para participar de um encontro de vocações. Aceitei no ato e nunca mais saí. Minha missão agora é me tornar padre e fazer com que as pessoas tenham intimidade com Deus."
Luis Alberto dos Santos, 25 anos

Os primeiros representantes dessa nova leva de vocações começaram a chegar à Igreja nos anos 90, levados pela Renovação Carismática. Surgidos nos Estados Unidos na década de 60, os carismáticos cultivam a espiritualidade por meio de grupos de oração, missas coreografadas, cenas de transe e sessões de exorcismo, com direito a aplausos, lágrimas e gritos de aleluia. "A última década foi marcada literalmente pelo espetáculo da fé", diz a socióloga Silvia Fernandes, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, especialista em estudos da religião. O estilo expansivo dos carismáticos continua a atrair vocações, mas com menos apelo. Agora, o fervor tende a ser bem mais discreto. "A poeira dos últimos anos está baixando e as novas vocações estão olhando mais para dentro da Igreja", diz o padre Reginaldo Lima, assessor da Comissão para os Ministérios Ordenados e Vida Consagrada, órgão da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Além de mais sóbrio, o perfil de quem hoje decide entrar na Igreja está mais alinhado aos mandamentos do Vaticano.

A nova tendência vocacional tem provocado a expansão dos movimentos católicos tradicionalistas, como a radical Fraternidade de Aliança Toca de Assis e o ultraconservador Opus Dei, única organização com status de ser prelazia pessoal do papa. Esses grupos começaram a proliferar durante o papado de João Paulo II e hoje, com as bênçãos de Bento XVI, continuam a arrebanhar vocações, sem proselitismo declarado. Para se ter uma idéia, o número de integrantes do movimento Canção Nova, de contornos carismáticos, pulou de 200 em 2000 para 1.110 em 2007 – um aumento de cinco vezes e meia (veja quadro). "Esses movimentos têm uma fórmula: oferecem a seus integrantes uma identificação espiritual imediata e extremamente prática", diz o teólogo Afonso Soares. A sensação de viver a doutrina católica no dia-a-dia fez com que a estudante de administração Verônica Sabrina Barbosa, de 20 anos, fosse morar há um ano num dos centros do Opus Dei, em São Paulo. "Eu sinto a presença de Deus no ordinário. Estou convicta de que minha felicidade é aqui e quero passar esse sentimento de plenitude e felicidade para as pessoas", diz.

Outra característica dos atuais candidatos à vida religiosa é a idade com que fazem a sua escolha. Eles nunca foram tão velhos. Têm em média 22 anos – nove a mais do que nos anos 60. A notícia é bem recebida pela Igreja. "Queremos que a escolha vocacional seja um passo a mais na vida do candidato – e não a sua única opção", diz o padre Reginaldo Lima. "Para isso, é sempre melhor que ele esteja mais amadurecido, que tenha tido experiência profissional e sentimental." Luis Alberto dos Santos tem 25 anos. Há três, ele abandonou a faculdade de informática e a namorada para entrar num seminário camiliano, em São Paulo. "Antes dos 20 anos, não teria maturidade suficiente para tomar uma decisão tão drástica. Sei bem o que estou deixando para trás", diz o seminarista.

 

"Sempre procurei por algo que me preenchesse. Com 16 anos tive a idéia de fazer trabalho voluntário. Uma amiga, então, me levou à comunidade de uma favela de São Paulo. Fiquei absolutamente encantada com a dedicação daqueles voluntários do Opus Dei. Fui me envolvendo e hoje não os deixo por nada deste mundo. Aqui, aprendi o que é praticar a fé e a ser feliz."
Verônica Sabrina Barbosa, 20 anos

O novo perfil de vocações tem tudo para agradar ao papa Bento XVI. Em três anos de papado, o pontífice deixou clara sua preocupação em atrair para a Igreja representantes bem preparados, conscientes de sua vocação. Para o 45º Dia Mundial de Orações pelas Vocações, que será comemorado no próximo dia 13, Bento XVI elaborou uma das mensagens mais pungentes já proferidas para a data: "Somente num terreno espiritualmente bem cultivado brotam as vocações para a vida consagrada", lê-se no texto. Por "terreno espiritualmente bem cultivado" entenda-se não só a devoção espiritual do candidato, mas também a sua formação intelectual. No último quesito, os brasileiros precisam melhorar – e muito. Não bastasse a degradação da qualidade do ensino no país, a formação intelectual de nossos padres foi massacrada com o desatino ideológico da Teologia da Libertação. "Nos anos 70, em vez de se dedicar ao estudo de teologia e às orações, o seminarista aprendia a cantar o hino da revolução da Nicarágua", diz o padre Élio Vigo, coordenador do Centro Vocacional da Arquidiocese de São Paulo. O resultado não poderia ser outro. "Os ateus hoje em dia têm mais interesse em estudar teologia do que o padre", diz o professor Afonso Soares. Que fique a lição para os que acabam de entrar: um bom religioso se faz com fé – e com (muita) devoção aos estudos.



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