|
Internacional Cristina ouve, pela
primeira vez, o panelaço
O som que um presidente da Argentina mais teme é o das panelas. Quando a economia do país foi à bancarrota, no início desta década, o barulho do panelaço promovido pelos argentinos nas ruas de Buenos Aires serviu de trilha sonora para a fuga de um presidente de helicóptero e para a queda de mais dois no intervalo de doze dias. Na semana passada, pela primeira vez desde que herdou a faixa do marido, há três meses, Cristina Kirchner viu-se atormentada pela batucada metálica. Néstor Kirchner, seu antecessor, passou quatro anos na Casa Rosada, a sede do governo, sem ter seu sono perturbado pelo barulho de panelas. As manifestações da semana passada foram as maiores desde o conturbado período de 2001 e 2002. Bloqueios paralisaram estradas, prateleiras ficaram vazias nos supermercados e manifestantes trocaram socos na Praça de Maio. Cristina ganhou as eleições com 20 pontos de vantagem sobre o segundo colocado em outubro do ano passado, e ninguém supõe que seu mandato esteja amea-çado pela volta do bater de panelas. Ainda assim, alguma coisa mudou na Argentina. O ineditismo do panelaço da última semana está na quebra do consenso que havia em torno de Cristina. Durante a campanha, era voz corrente que ela faria um governo menos demagógico que o do ríspido Néstor. O otimismo começou a se dissipar já na posse. Cristina assumiu sob o escândalo de uma mala recheada com dólares venezuelanos que tinham como destino sua campanha presidencial. Agora, após 100 dias de governo, já deu mostras suficientes de que sua única diferença de estilo em relação ao marido está no uso de vestido. Seus discursos contra desafetos domésticos e externos são violentos, sua maneira de tomar decisões é centralizadora e autoritária como a do marido.
A maneira Kirchner de governar impede que o país ministre o remédio correto para o seu maior problema: a inflação. Os preços sobem na Argentina porque a produção não acompanha a demanda. Desde 2003, o país começou a crescer em ritmo acelerado próximo de 9% anuais. Dois anos depois, as fábricas já operavam perto da capacidade máxima. O problema é que a má vontade do casal presidencial expulsou o investimento estrangeiro, e sem dinheiro externo não há como ampliar a produção. Ao mesmo tempo que estimulava o consumo, o governo congelava as tarifas de serviços públicos e preços nos supermercados. Criou-se, assim, uma bomba-relógio. As medidas econômicas utilizadas pelo casal presidencial para desarmar o gatilho são tão heterodoxas como perigosas, ao prejudicar ainda mais a produção. Há três semanas, o governo elevou o imposto de exportação sobre a soja, uma espécie de confisco sobre o principal motor do crescimento econômico argentino. Os fazendeiros alegam que os aumentos no custo dos insumos com a inflação tornam a produção pouco atrativa. Em resposta, bloquearam dezenas de pontos das estradas do país com tratores e caminhões. Cristina reagiu com fúria. Disse que não negocia com "a pistola apontada para a cabeça" e chamou os produtores rurais de "piqueteiros da abundância". A velha retórica populista de culpar uma elite econômica pelos problemas do país provou-se desgastada. Na capital, Buenos Aires, e nas principais cidades, milhares de argentinos pintaram faixas e camisetas em apoio aos fazendeiros, demonstrando saber perfeitamente a quem culpar pela inflação crescente e escassez de alimentos nas gôndolas o governo. "A Argentina está vivendo um filme a que o Brasil assistiu na década de 80, com controle de preços, manipulação dos índices de inflação e hostilidade ao capital financeiro", diz o economista Mailson da Nóbrega, da Tendências Consultoria Integrada, em São Paulo.
|
|
VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter | ![]() |
|