Apesar dos índices
recordes de aprovação, Lula
esbraveja no palanque e afaga políticos punidos
Paulo
Whitaker/Reuters
Com uma economia a todo o vapor e índices de popularidade
pessoal e do governo que beiram a consagração,
o presidente Lula tinha tudo para estar, na linguagem de que
ele gosta, "feliz como pinto no lixo". Mas não.
O presidente passou a semana ralhando com a estridência
dos contrariados. Como se fosse um presidente acuado e sem nenhum
apoio, deu-se a fazer carinhos públicos em figuras políticas
que foram tiradas de cena ao cabo de escândalos de corrupção.
Na quarta-feira, elogiou o ex-presidente da Câmara Severino
Cavalcanti e criou uma edulcorada versão para a sua queda,
em 2005: "Elegeram o Severino. Não levou muito tempo
e perceberam que ele não era oposição,
e trataram de derrubar o Severino com a mesma facilidade com
que o elegeram". Como é público e notório,
Severino não foi "derrubado" pelas oposições
nem pelas elites, como sugeriu o presidente, mas antes se derrubou
sozinho, no momento em que passou a cobrar propina de um empresário
em troca da manutenção da concessão de
um restaurante que funcionava na Câmara. Dois dias depois,
Lula repetiu o gesto dos submissos em Alagoas, ao criticar os
detratores do igualmente pouco recomendável Renan Calheiros,
a quem chamou de "amigo". O ex-presidente do Senado
renunciou ao cargo em dezembro, depois de ser acusado de corrupção,
tráfico de influência, lavagem de dinheiro, formação
de quadrilha, exploração de prestígio e
sonegação fiscal.
Luis
Acosta/AFP
Ricardo Lagos: o ex-presidente
chileno deixou o governo com popularidade recorde e elogios
à oposição
Os gestos de Lula têm sempre um componente de cálculo.
Por que está se rebaixando em público diante de
figuras infinitamente menores do que ele? A explicação
mais plausível é que ele já está
querendo compor o arco de apoios para 2010 de modo a eleger
seu sucessor e, em se tratando de votos, Lula aceita-os
de onde vierem. Mas os gestos do presidente que atropelam o
bom senso e a ética carregam também o componente
da arrogância e da soberba, a do político que venceu
tudo aos olhos do seu povo. Os romanos, quando voltavam de suas
expedições triunfais de conquista e expansão
do império, entravam em Roma em uma biga. Durante o desfile,
em meio aos gritos ensurdecedores da multidão, um escravo
repetia aos ouvidos do vencedor: "Você é apenas
um homem!". Os sábios da Antiguidade greco-romana
tinham a moderação como a maior das virtudes de
um governante. E o maior dos pecados? Os gregos o chamavam de
húbris, a arrogância produzida pela autoconfiança
em excesso, com o conseqüente desprezo pelas instituições.
O filósofo Aristóteles (384-322 a.C.) dizia que
as manifestações de húbris eram invariavelmente
seguidas por um castigo.
Se, do ponto de vista
da estratégia política, o afago em Renan Calheiros
visa a agradar a caciques do PMDB e a transubstanciação
de Severino de corrupto em mártir se destina a atacar
DEM e PSDB, como acredita o cientista político David
Fleischer, do ponto de vista da ética não há
justificativa para as falas de Lula. Para o deputado Fernando
Gabeira (PV-RJ), a atitude do presidente "afronta não
só o Congresso, mas todas as pessoas que querem uma melhoria
na ética da política brasileira". O deputado
diz que o comportamento do petista não o surpreende:
"Lula tem essa tendência: quando se sente ameaçado,
fica hábil, cuidadoso. Mas, quando se sente forte, fica
imprudente".
Fotos
José Cruz/Ag. Brasil e Ed Ferreira/AE
Renan Calheiros e Severino Cavalcanti,
segundo Lula: um é "amigo", o outro, perseguido
Popularidade pode
andar lado a lado com moderação. Quando deixou
a Presidência do Chile, o socialista Ricardo Lagos desfrutava
o fenomenal índice de mais de 70% de popularidade. À
sua sucessora, a também socialista Michelle Bachelet,
entregou um país integrado à economia global,
com inflação controlada e um ritmo de crescimento
de 5,9% ao ano. Os resultados obtidos por seu governo, seu alto
índice de popularidade e seu tirocínio político
contribuíram para que Lagos se apresentasse com a distinção
e a serenidade de um estadista inclusive durante os seus
últimos momentos na Presidência. Na mensagem que
divulgou depois da vitória de Bachelet nas eleições,
ele fez questão de reconhecer o mérito da oposição
nas conquistas do seu governo. Lula não é Lagos.
O Brasil não é o Chile. Mas evitar o vale-tudo
eleitoral e evitar embriagar-se com a própria popularidade
é uma virtude que atravessa as eras.