O senador diz que o
Parlamento está agonizante e que
muitos políticos usam o mandato apenas em proveito próprio
Otávio Cabral
Ana Araujo
"O Legislativo não é mais
uma voz da sociedade nem
uma caixa de ressonância.
Está meio sem função"
O Congresso Nacional
tem enfrentado uma seqüência de tormentas que, nos
últimos anos, debilitaram a credibilidade de muitos de
seus membros e feriram gravemente a imagem da instituição.
Deputados ganharam alcunhas de mensaleiros e sanguessugas
isso só para falar dos casos mais conhecidos. O último
dos escândalos envolveu o senador Renan Calheiros, então
presidente do Senado, que renunciou ao cargo depois da revelação
de um lado repugnante de sua biografia, que misturava amante,
lobistas, dinheiro e bois fantasmas num mesmo enredo. O novo
presidente do Congresso, o senador Garibaldi Alves, do PMDB
do Rio Grande do Norte, foi eleito há quatro meses e
prometeu recuperar os laços que o Parlamento sempre manteve
com a opinião pública. "Mas está difícil",
reconhece ele. Em entrevista a VEJA, Garibaldi diz que a política
hoje é coisa para endinheirados e que muitos parlamentares
só pensam em tirar proveito pessoal de seu mandato. Ele
não poupa nem os colegas peemedebistas. Com seu jeito
simplório e sua voz mansa, o presidente do Congresso
critica o governo, o presidente Lula e também defende
o aumento do salário dos parlamentares.
Veja O senhor
assumiu a presidência de um Congresso desgastado pelo
escândalo que culminou com a renúncia de Renan
Calheiros e paralisado pelo excesso de medidas provisórias
do governo. Qual é o seu diagnóstico? Garibaldi O Congresso
deixou de votar, de legislar, de cumprir sua função.
É uma agonia lenta que está chegando a um ponto
culminante. Essa questão das medidas provisórias
é emblemática da crise do Legislativo, que não
é mais uma voz da sociedade, não é mais
uma caixa de ressonância da opinião pública.
Está meio sem função. O Congresso está
na UTI, e ninguém do mundo político percebe que
esse desapreço pelo Poder Legislativo é uma coisa
que está minando as suas bases de sustentação
e que a qualquer hora poderá haver um momento de maior
tensão, de crise entre os poderes. À medida que
o Legislativo abre mão de suas prerrogativas, o Executivo
invade espaços. Precisamos inverter essa tendência.
Veja Mas
o desgaste do Congresso não decorre só da questão
política. Nos últimos anos, os escândalos
se sucederam e o Legislativo pouco fez para punir os envolvidos.
Essa aparente leniência com a corrupção
não ajuda a construir uma boa imagem do Congresso... Garibaldi Essa
leniência tira a autoridade do Legislativo. Hoje, o Congresso
só quer atuar na fiscalização de outros
poderes, através das CPIs, mas esquece que precisa antes
fazer uma faxina dentro de casa. Por exemplo: precisamos ter
coragem de encarar a opinião pública na questão
dos subsídios, dos vencimentos dos parlamentares.
Veja O que
o aumento do salário dos congressistas tem a ver com
isso? Garibaldi Se eu
fosse chamado agora para uma reunião, diria: vamos definir
um salário justo para os parlamentares. Na hora, poderia
me desgastar pela falta de credibilidade do Legislativo. Mas
o parlamentar precisa de um salário maior, com menos
penduricalhos, compatível com outros poderes. Não
digo nem com o Executivo, que não é modelo para
isso, já que um ministro ganha 8 000 reais líquidos.
Hoje, o Legislativo está emparedado, intimidado, e ninguém
quer enfrentar essa questão. Mas é uma questão
justa.
Veja Em
sua avaliação, a absolvição do senador
Renan Calheiros foi uma decisão correta dos senadores? Garibaldi A absolvição
de Renan penalizou o Legislativo. Mas é uma questão
difícil. Quero ter todo o cuidado de falar de uma pessoa
que era colega. Quer dizer, é colega. Ele anda aparecendo
menos, mas ainda está lá. Pelo coleguismo, todos
têm cuidado, pensam muito antes de decidir. Eu até
hoje não sei qual punição ele merecia.
É difícil julgar um par, é um julgamento
muito político. Eu tive duas posições.
No primeiro julgamento, fui a favor da cassação.
No segundo, fui contra. Esse tipo de julgamento é um
dilema para o Legislativo. Mas, sem dúvida, prevaleceu
mesmo a imagem da impunidade.
Veja Analistas
dizem que a imagem péssima do Legislativo, principalmente
em razão dos casos de corrupção, tem atraído
cada vez mais pessoas desqualificadas para a política.
O senhor concorda com isso? Garibaldi A política
hoje é o seguinte: quem já entrou sem dinheiro
tenta sobreviver. Mas quem é liso não tem mais
vez. Só vão entrar os endinheirados ou quem está
atrás de mais dinheiro.
Veja Como
fazer para resgatar a imagem do Congresso? Garibaldi Não
quero dourar a pílula. A situação está
muito difícil. A discussão das medidas provisórias
pode ser uma retomada de caminho. Câmara e Senado estavam
funcionando como
duas entidades distintas e, agora, começam a se reunir,
a tentar falar a mesma língua. Eu gostaria de ver até
o fim do meu curto mandato, em fevereiro, sinais dessa reação.
Há muita gente boa no Congresso, mas a maioria está
desanimada. Muita gente está lá apenas para aprovar
umas emendazinhas e conseguir uns cargos para se reeleger. A
maioria dos parlamentares segue a lógica de votar com
o governo, liberar as emendas, emplacar um cargo para um aliado
e colher os dividendos nas eleições seguintes.
Os políticos se contentam com isso e, sem saber, fazem
um mal danado ao Legislativo. A Casa pode desmoronar do jeito
que vai.
Veja O Palácio
do Planalto utilizou um dossiê com gastos secretos do
presidente Fernando Henrique para tentar intimidar a oposição
e inviabilizar a CPI dos Cartões. O senhor acha que a
revelação do dossiê vai fazer com que a
CPI ande? Garibaldi O episódio
do dossiê foi bom para dar um alento a essa comissão,
para a investigação pegar. Tem de investigar,
tem de abrir tudo. Fernando Henrique fez uma carta para Arthur
Virgílio pedindo para abrir todas as suas contas. Lula
devia seguir o exemplo e fazer uma carta para o Romero Jucá
(líder do governo no Senado) para abrir tudo isso
aí. Não há nenhum problema de segurança
nacional. Não vejo como essas despesas possam ameaçar
um governo. Usar argumento de segurança nacional é
coisa de ditadura, de regime autoritário. Essa tese não
combina com a democracia. O lixo do presidente da República
não é diferente do lixo de nenhum contribuinte.
A mordomia faz parte do poder. Lula como presidente da República
e eu aqui como presidente do Senado temos direito a uma certa
mordomia. Mas isso deve ser totalmente transparente.
Veja A maneira
mais comum de o governo do PT tentar evitar uma investigação
no Congresso é apelar para a tese de que o governo anterior
fez o mesmo. Essa disputa para ver quem errou primeiro não
provoca uma descrença na classe política? Garibaldi Ajuda
muito a desmoralizar os políticos. Não quero dizer
que não se deva comparar uma administração
com a outra. Mas comparar seus feitos, não comparar para
ver quem é pior, quem fez o errado antes. Há um
nivelamento por baixo. O que a população espera
é que se corrija o erro, não que se faça
a exaltação do errado. Lá no Nordeste,
há um dito popular assim: todo mundo calça 40.
Significa que são todos iguais. Quando vejo essa troca
de acusações entre PT e PSDB, lembro logo da frase.
Todos eles calçam 40.
Veja Mas
o senhor é do PMDB, partido que esteve ao lado dos tucanos,
hoje apóia os petistas e, assim, vai se perpetuando no
poder, independentemente dos governos, há vinte anos.
O seu partido também não calça 40? Garibaldi Dentro do PMDB
há uma corrente que quer nadar contra essa maré.
Mas essa prática do fisiologismo termina nivelando todo
mundo por baixo. A imagem hoje é a de que quem é
do PMDB não presta. É uma injustiça generalizar,
todo partido tem gente fisiológica e gente séria,
mas o meu partido deu motivos. Para enfrentar isso, o partido
precisaria oferecer a outra face, a face boa. Mas qual será
essa face boa, essa ilha de excelência?
Veja Qual? Garibaldi Pensando
em 2010, é difícil o partido tirar um candidato
dessa massa sem lideranças. O PMDB não tem candidato.
Ou vai de Aécio Neves, se ele vier para o partido, ou
não tem ninguém. Poderia ser o Sérgio Cabral,
mas ele está encontrando muitas dificuldades no governo
do Rio.
Veja Há
alguma chance real de o governador de Minas, Aécio Neves,
trocar o PSDB pelo PMDB? Garibaldi Eu não
sou um dos articuladores desse projeto. Mas, se der certo, eu
embarco nessa candidatura.
Veja O presidente
Lula aposta em Dilma Rousseff como sua candidata à sucessão
e deu a ela o comando do PAC, para tentar fazê-la decolar.
Lula e o PAC são suficientes para fazer de Dilma a próxima
presidente? Garibaldi Se Dilma
é a mãe do PAC, a candidatura dela vai depender
dos filhos. Se esse PAC crescer mesmo, se esses filhos chegarem
aos 16 anos e se tornarem eleitores, com o título no
bolso, ela terá chance. Agora, se Dilma permanecer apenas
com esse papel de coordenadora e o PAC não for esse canteiro
lindo de obras, for só uma sigla, vai ser difícil
demais emplacar.
Veja O senhor
acha que o PT, na hipótese de não encontrar um
candidato ideal à sucessão, pode lançar
uma ofensiva para dar um terceiro mandato a Lula? Garibaldi Pode,
sim. Cada cidadão tem sua opinião, e eu vou dar
a minha: eu não acredito que Lula vá topar essa
parada. Ele está com uma imagem que não foi fácil
conquistar, muito melhor do que quando ele iniciou essa luta
para chegar à Presidência e ouvia gente dizendo
que ia sair do país se ele ganhasse. Não houve
debandada, não houve crise na economia. O presidente
não vai querer jogar tudo isso fora por uma aventura
do terceiro mandato. O que ele pode é querer voltar na
eleição seguinte.
Veja Qual
o ponto forte do governo Lula? Garibaldi É
uma coisa óbvia. Lula é um homem que foi fiel,
pelo menos no imaginário popular, às suas origens.
Chegou à Presidência, manteve a política
econômica e voltou-se para a população mais
pobre. Expandiu as bolsas e deu mais assistência aos pobres.
Não sei se no futuro esses programas vão ser considerados
bons, já que no interior do Nordeste muita gente não
quer mais trabalhar porque está recebendo essa Bolsa
Família. Prefere o dinheiro fácil a pegar no cabo
da enxada. Agora, para a fome não há outra receita
a não ser encher a barriga. Por isso o Lula é
popular. Por isso não há quem possa hoje subir
à tribuna do Senado e dizer que o Bolsa Família
não é um bom programa.
Veja E os
pontos fracos? Garibaldi O problema
é que Lula vê as coisas com um certo maniqueísmo.
Tudo o que ele faz é bom. E quem fala mal dele, até
quando é uma crítica bem-intencionada, é
ruim. Então, ele passou a ser um divisor de águas,
um dono da verdade. É lógico que existem falhas
no governo dele. A reforma agrária dele não é
boa. Ele não segura a exacerbação do MST.
A política de Lula para o homem do campo é muito
ruim. No Nordeste não tem mais ninguém vivendo
direito da agricultura. Não existe grande produtor, não
existe médio e o agricultor familiar só planta
para subsistência. Outra falha é a falta de política
de desenvolvimento regional, de investimento nas vocações
econômicas das regiões.
Veja O senhor
foi relator da CPI dos Bingos, que desvendou uma série
de escândalos no governo. Como o senhor avalia a corrupção
no Executivo? Garibaldi O governo
Lula foi muito frágil com a corrupção.
Adotou uma política, para mim errada, de dizer que ninguém
errou, que os corruptos foram vítimas de complôs,
de circunstâncias. Sempre criando atenuantes. E se você
cria atenuante cria impunidade. O próprio presidente
adotou essa política muito compassiva com os auxiliares.
Se o presidente não pune, não manda apurar, abre
a porta para mais corrupção. Lula deveria ter
cortado o mal pela raiz. Como não cortou, ficou sem condição
de debelar a corrupção.
Veja O senhor
deve ouvir falar de reformas tributária e política
desde que entrou na vida pública. Por que elas nunca
saem? Garibaldi O país
precisa muito de reforma política, previdenciária
e tributária, mas já desperdiçamos muitas
oportunidades. Lula e Fernando Henrique foram eleitos e reeleitos
com grandes votações, tinham condições
de enfrentar as resistências, mas não se empenharam.
Isso só se faz no começo do governo, quando a
popularidade é alta. Eu culpo essa falta de coragem dos
últimos governantes para enfrentar essas questões
mais a fundo. Isso é coisa para estadista. E falta estadista
em nosso país.
Veja Há
alguma chance de aprovar a reforma tributária que está
no Congresso até o fim do governo Lula? Garibaldi Este
ano parece ser péssimo no Congresso por causa da eleição.
Aparentemente, ninguém aposta um real que a reforma tributária
saia. Mas eu aposto que essa reforma tributária, que
não é a ideal, pode sair se o governo se empenhar
com ela, for tolerante e dialogar com todos os lados envolvidos.
Veja A vida
do senhor mudou muito depois que assumiu a presidência
do Senado? Garibaldi Mudou
demais, meu filho, está muito mais complicada. Hoje eu
tenho de atender a muitos compromissos em todos os estados.
Estou correndo muito, me desdobrando muito. Estou fazendo o
mesmo, mas com mais intensidade. Politicamente é muito
bom, dá muito mais visibilidade. Mas dá um trabalho...