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Edição 2054

2 de abril de 2008
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Auto-retrato
Jodie Foster

Robyn Beck/AFP


Uma das mais prestigiadas atrizes do cinema americano, Jodie Foster, de 45 anos, confundiu a platéia com Valente, que acaba de sair aqui diretamente em DVD e no qual interpreta uma nova-iorquina que se converte em justiceira após quase morrer num episódio de violência. Jodie falou à editora Isabela Boscov sobre o polêmico filme dirigido pelo irlandês Neil Jordan e sobre como construiu sua carreira exemplar.

Você já disparou tiros em seus filmes antes, mas sempre em resposta a uma agressão, e não como a agressora, como é o caso em Valente. Era algo que você evitava?
Não, de maneira nenhuma – apenas era algo que nenhuma personagem havia exigido até aqui. Valente é sobre uma mulher civilizada que sofre um ataque brutal, e sobre como ela muda em reação a essa violência. É menos sobre armas do que sobre moralidade – um tema que está presente em muitos dos filmes que fiz. Quanto mais velha eu fico, mais o tema me interessa, e mais complicado parece. Quando eu era jovem, achava que gente boa era uma coisa e gente má, outra. Hoje...

Você concorda com o caminho que sua personagem toma, de se tornar uma justiceira?
Nem eu nem o filme concordamos com a personagem. Aliás, nem ela concorda consigo mesma. Ela tem consciência de que tomou um rumo que nunca, nem nos seus piores pesadelos, imaginava ser capaz de tomar. O que a divide é que, embora ela se encha de vergonha cada vez que aperta o gatilho, essa é também uma afirmação do desejo dela de viver após a violência que atravessou.

Você se imagina em situação semelhante?
Levo uma vida muito comum e reservada, e talvez goste de papéis assim porque eles me dão a oportunidade de confrontar sentimentos que eu, pessoalmente, não sou corajosa o bastante para enfrentar. Isso é o que há de mais instigante num filme como esse, em que é preciso estar dentro da personagem, queira-se ou não, e respirar, andar e pensar como ela: obrigar-se a compreender o incompreensível.

Qual sua opinião sobre o controle de armas?
Não gosto de me aproveitar do meu trabalho para falar de política. Só o que posso dizer é que a visão de Valente é bastante clara: uma arma de fogo é um instrumento que confere a um indivíduo um poder além do razoável.

Você tem a carreira que muitas atrizes gostariam de ter. Como a construiu?
Sei lá, esse é um trabalho tão estranho, em que é difícil planejar uma direção ou se preservar da instabilidade e da exposição. Acho que minha mãe foi uma influência decisiva: ela queria que eu fosse levada a sério e me ensinou a me levar a sério também. Eu nunca fui a que mais ganha, ou a que é sempre a primeira a ser escolhida. Mirar no longo prazo pode doer um pouco mesmo. Mas eu queria durar – e não desaparecer, como infelizmente acontece com tantos jovens atores.

Você nunca fez o papel da mocinha ingênua ou romântica.
Olhe que até fiz muitos testes para esses papéis, mas fui reprovada em todos. Com o tempo, você percebe a razão das rejeições: há coisas que eu faço bem, e outras em que não convenço.

Desde pequena, o dinheiro que você trazia para casa como atriz era fundamental para sua mãe e seus irmãos. Foi difícil virar arrimo de família assim tão cedo?
Imagino que isso tenha condicionado de várias formas o desenvolvimento da minha personalidade. Por exemplo, aprendi muito antes dos outros o conceito de que ações têm conseqüências. É bom ser criança? Sim, mas viajar pelo mundo, descobrir um talento e ser levada a sério pelos adultos também é bom. As coisas são como são, e eu me considero uma pessoa até bem ajustada, sem ressentimentos.

 



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