Uma
das mais prestigiadas atrizes do cinema americano, Jodie Foster, de 45 anos, confundiu
a platéia com Valente, que acaba de sair aqui diretamente em DVD
e no qual interpreta uma nova-iorquina que se converte em justiceira após
quase morrer num episódio de violência. Jodie falou à editora
Isabela Boscov sobre o polêmico filme dirigido pelo irlandês Neil
Jordan e sobre como construiu sua carreira exemplar.
Você
já disparou tiros em seus filmes antes, mas sempre em resposta a uma agressão,
e não como a agressora, como é o caso em Valente. Era algo
que você evitava? Não, de maneira nenhuma apenas era
algo que nenhuma personagem havia exigido até aqui. Valente é
sobre uma mulher civilizada que sofre um ataque brutal, e sobre como ela muda
em reação a essa violência. É menos sobre armas do
que sobre moralidade um tema que está presente em muitos dos filmes
que fiz. Quanto mais velha eu fico, mais o tema me interessa, e mais complicado
parece. Quando eu era jovem, achava que gente boa era uma coisa e gente má,
outra. Hoje...
Você concorda
com o caminho que sua personagem toma, de se tornar uma justiceira? Nem
eu nem o filme concordamos com a personagem. Aliás, nem ela concorda consigo
mesma. Ela tem consciência de que tomou um rumo que nunca, nem nos seus
piores pesadelos, imaginava ser capaz de tomar. O que a divide é que, embora
ela se encha de vergonha cada vez que aperta o gatilho, essa é também
uma afirmação do desejo dela de viver após a violência
que atravessou.
Você se imagina
em situação semelhante? Levo uma vida muito comum e reservada,
e talvez goste de papéis assim porque eles me dão a oportunidade
de confrontar sentimentos que eu, pessoalmente, não sou corajosa o bastante
para enfrentar. Isso é o que há de mais instigante num filme como
esse, em que é preciso estar dentro da personagem, queira-se ou não,
e respirar, andar e pensar como ela: obrigar-se a compreender o incompreensível.
Qual sua opinião sobre o controle
de armas? Não gosto de me aproveitar do meu trabalho para falar
de política. Só o que posso dizer é que a visão de
Valente é bastante clara: uma arma de fogo é um instrumento
que confere a um indivíduo um poder além do razoável.
Você
tem a carreira que muitas atrizes gostariam de ter. Como a construiu?
Sei lá, esse é um trabalho tão estranho, em que é
difícil planejar uma direção ou se preservar da instabilidade
e da exposição. Acho que minha mãe foi uma influência
decisiva: ela queria que eu fosse levada a sério e me ensinou a me levar
a sério também. Eu nunca fui a que mais ganha, ou a que é
sempre a primeira a ser escolhida. Mirar no longo prazo pode doer um pouco mesmo.
Mas eu queria durar e não desaparecer, como infelizmente acontece
com tantos jovens atores.
Você
nunca fez o papel da mocinha ingênua ou romântica. Olhe que
até fiz muitos testes para esses papéis, mas fui reprovada em todos.
Com o tempo, você percebe a razão das rejeições: há
coisas que eu faço bem, e outras em que não convenço.
Desde
pequena, o dinheiro que você trazia para casa como atriz era fundamental
para sua mãe e seus irmãos. Foi difícil virar arrimo de família
assim tão cedo? Imagino que isso tenha condicionado de várias
formas o desenvolvimento da minha personalidade. Por exemplo, aprendi muito antes
dos outros o conceito de que ações têm conseqüências.
É bom ser criança? Sim, mas viajar pelo mundo, descobrir um talento
e ser levada a sério pelos adultos também é bom. As coisas
são como são, e eu me considero uma pessoa até bem ajustada,
sem ressentimentos.