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Os sexos e o cigarro
Ser homem
ou mulher faz
muita diferença na hora de
abandonar o cigarro. Para
elas, a luta é mais dura
Paula Neiva

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Durante os
últimos três anos, a cardiologista Jaqueline Scholz Issa,
chefe do ambulatório de tabagismo do Instituto do Coração
(Incor), de São Paulo, acompanhou uma centena de homens e mulheres
fumantes que tentavam abandonar o cigarro. O objetivo do trabalho era
avaliar a eficácia do antidepressivo Zyban no tratamento contra
o vício de pacientes cardíacos. Os resultados dos estudos
foram muito além do esperado. Não só dimensionaram
o alcance do remédio no combate ao fumo como revelaram que a diferença
entre os sexos define as características da dependência e
tem um peso importantíssimo no sucesso do esforço para deixar
de fumar. "Uma das conclusões mais evidentes é o fato de
que as mulheres usam o cigarro como muleta emocional", diz a médica
Jaqueline. "Entre os homens, o vício é muito mais químico
que psicológico." Isso faz com que, para elas, a batalha seja mais
dura do que para eles.
Um dos fatores
psicológicos que mais atrapalham as mulheres que tentam se livrar
do tabagismo é o medo de engordar. Largar o cigarro engorda, não
há dúvida. O estudo do Incor mostra que uma ex-fumante acaba
incorporando, em média, 7 quilos à sua silhueta. O aumento
de peso é o principal motivo que leva as mulheres de volta ao vício.
Elas retomam o hábito e, em pouco tempo, começam a emagrecer.
É verdade que a nicotina aumenta a queima de gordura. Mas a perda
calórica provocada pela substância não justifica inteiramente
o fato de a maioria das mulheres engordar tanto ao parar de fumar. Se
fosse assim, os homens que abandonam o tabagismo também ganhariam
muitos quilos. Não é o que acontece. A pesquisa do Incor
revela que os homens, ao deixar o cigarro, não sofrem alterações
de peso significativas. As ex-fumantes engordam porque, na verdade, tendem
mais a substituir a falta do cigarro por comida. Essa substituição
é mais freqüente entre as mulheres porque suas crises de abstinência
costumam ser mais intensas que as dos homens. A suspeita dos especialistas
é de que isso ocorre por causa das violentas alterações
hormonais que regem o organismo feminino. Tais oscilações
também prejudicam as respostas às terapias antifumo.
Há
de se levar em conta a importância dos estímulos ambientais
na dependência feminina. Ao ver alguém fumando ou ao sentir
o cheiro de fumaça de cigarro, uma fumante tem mais vontade de
fumar que um fumante. Não há explicação científica
para esse fenômeno. Existe ainda um outro dado: para as mulheres,
acender um cigarro é uma espécie de ritual a ser seguido
em grupo. Basta reparar no fumódromo das empresas. Elas sempre
vão fumar em companhia de colegas. Os homens costumam aparecer
por lá sozinhos. O caráter ritualístico é
um impedimento extra ao sucesso dos tratamentos. Várias mulheres
que participaram da pesquisa do Incor relataram também que o cigarro
lhes proporcionava segurança e aumentava a confiança em
si próprias. Por isso, argumentavam, largar o vício era
tão difícil.
Os aspectos
sociopsicológicos definitivamente contribuem para que seja mais
penoso para as mulheres abandonar o tabagismo. Como para a maioria dos
homens o vício tende a ser mais de ordem química, eles respondem
melhor aos tratamentos de reposição de nicotina. As maiores
dificuldades masculinas se concentram no primeiro mês de abstinência,
quando o corpo sente mais falta da substância. Passado esse tempo,
os homens conseguem manter-se sob controle.
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