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O
assassinato de dois juízes em dez
dias
mostra o grau de ousadia do
crime
organizado e chama a atenção
do país para a necessidade de tomar
uma providência agora, já, ontem
Colômbia,
Itália, Brasil. Em diversas partes do mundo, sempre que podem,
as máfias do crime organizado aplicam uma tática idêntica:
intimidar, a bala se for necessário, todos aqueles que se empenham
em combatê-las. O assassinato de dois juízes num intervalo
de dez dias, um em São Paulo e outro no Espírito Santo,
faz parte do método da intimidação. O juiz-corregedor
Antônio José Machado Dias, 47 anos, foi morto com três
tiros no dia 14 de março, dentro de seu carro, quando deixava o
fórum em Presidente Prudente, no interior de São Paulo.
Em sua função, o juiz era rigoroso no tratamento aos detentos
da região, entre os quais se incluíam líderes do
PCC, uma facção criminosa, e o traficante Fernandinho Beira-Mar,
agora transferido para uma prisão em Alagoas. Na segunda-feira
da semana passada, foi a vez do juiz Alexandre Martins de Castro Filho,
32 anos, também alvejado por três tiros quando chegava a
uma academia de ginástica em Vila Velha, nos arredores de Vitória.
O juiz auxiliava a força-tarefa federal criada para desbaratar
o crime organizado no Estado.
A morte dos dois juízes, que enfrentavam a bandidagem com galhardia,
não coloca o Brasil no mesmo patamar desesperador da Colômbia,
onde o assassinato de magistrados chegou a um nível intolerável,
ou da Itália, cujas autoridades judiciais sangraram dolorosamente
até reduzir a ousadia das máfias. Mas é mais um alerta,
um trágico alerta, de que o Brasil está perdendo sua guerra
contra a criminalidade e pode, no futuro, chegar ao quadro insuportável
vivido por outros países. Os tentáculos do crime organizado
já apareceram dentro dos poderes públicos, infiltrando-se
em nichos de governos estaduais, particularmente nas polícias.
Além disso, há fortes indícios de que a bandidagem
pode ter cooptado um parlamentar no Congresso Nacional, que acabou renunciando
ao mandato, e investiga-se a suspeita de envolvimento com o submundo do
crime de um membro de tribunal superior, em Brasília. Agora, com
o assassinato dos juízes, constata-se que a bandidagem já
consegue atentar contra o próprio Estado e suas instituições.
A guerra, lamentavelmente, pode estar apenas no começo.
"Antes,
o Brasil se assustava com a criminalidade por causa de seu volume", afirma
Cláudio Baldino Maciel, presidente da Associação
dos Magistrados Brasileiros (AMB), entidade que representa 15.700 juízes
em todo o país. "O que assusta, agora, não é mais
o volume, é a organização", acrescenta ele. Representante
de uma categoria de profissionais que, na semana passada, viviam um estado
de preocupação e perplexidade, Baldino Maciel figura entre
os que acham que o Brasil está longe de ser uma Colômbia,
mas está trilhando o mesmo caminho. "Ainda podemos evitar, mas
temos de agir. Nós seguiremos fazendo nossa parte, pois um passo
atrás dos juízes agora iria representar vinte passos à
frente do crime organizado", completa o presidente da AMB. Agir é
parte central do problema de segurança pública no país.
Enquanto os criminosos fazem de tudo para cumprir suas ameaças,
as autoridades fazem pouco para cumprir suas promessas.
Sempre que um crime choca o país, ouve-se o mesmo ritual de declarações
indignadas, que raramente resulta em ações concretas. "A
arrogância do crime passou de todos os limites. Não só
pelo vandalismo, mas pela sensação do criminoso de que ele
pode fazer o que quiser", disse, em janeiro do ano passado, o então
presidente Fernando Henrique Cardoso, por ocasião do assassinato
do prefeito Celso Daniel, de Santo André. Antes, seu governo, chocado
com o seqüestro de um ônibus no Rio de Janeiro que acabou em
sangue, lançou um plano de segurança com 124 medidas. As
idéias não saíram do papel. "Não podemos ficar
assustados 24 horas por dia. O crime organizado não é mais
a bandidagem comum que nós conhecíamos. É uma indústria
de fabricar dinheiro com as drogas", disse, na semana passada, o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, quando discursava a uma platéia
de metalúrgicos em São Paulo e, é claro, prometia
que o país vai quebrar a espinha do crime organizado.
Diante de tudo isso, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves,
resolveu tomar uma providência. Embarcou num avião para o
Espírito Santo e propôs a seu colega Paulo Hartung a montagem
de um plano conjunto, um projeto comum entre os dois Estados, para combater
o avanço da criminalidade. O diagnóstico do governador mineiro
é de uma simplicidade unicelular: as autoridades têm um "discurso
organizado", já que todos falam a mesma coisa e apresentam os mesmos
diagnósticos, mas não têm uma "ação
organizada". Ou seja: para enfrentar o crime organizado, é preciso
se organizar.
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