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Edição 1 796 - 2 de abril de 2003
Entrevista: Bernard Lewis

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O futuro
do Islã

Guru do vice dos EUA é otimista
com a perspectiva de democracia
no Oriente Médio, mas diz que
antes é preciso remover os tiranos

Eduardo Salgado

Depois de 11 de setembro de 2001, o vice-presidente dos Estados Unidos, Dick Cheney, um dos mais influentes da história do país, começou a fazer uma espécie de curso privado em Islã e Oriente Médio. Cheney ouviu especialistas para discutir o Iraque pós-Saddam Hussein e as perspectivas da democracia na região. Bernard Lewis, de 86 anos, professor emérito da Universidade Princeton e uma das maiores autoridades em Oriente Médio, foi uma das vozes que mais influenciaram Cheney. Com mais de vinte livros publicados, Lewis é um ferrenho defensor da democracia na região. O autor de O que Deu Errado no Oriente Médio? explora sua extensa erudição sobre o mundo islâmico para justificar o fim do apoio do Ocidente aos mandatários da região. Nascido na Inglaterra, Lewis começou a dar aulas sobre o Oriente Médio em 1938, na Universidade de Londres. Receptivo e bem-humorado, falou a VEJA por telefone de sua casa em Princeton, na costa leste dos Estados Unidos.

Veja – O governo americano estava certo de que seus soldados seriam recebidos como libertadores no Iraque. Por que não se viu nada disso?
Lewis – A relutância dos iraquianos em mostrar apoio aos soldados americanos tem boas razões de ser. Os iraquianos ainda temem Saddam Hussein e seu aparato de repressão. Em 1991, o presidente George Bush pai pediu que os iraquianos se revoltassem contra o tirano. Os curdos, no norte, e os xiitas, no sul, obedeceram. O que aconteceu? Saddam massacrou seus opositores enquanto os Estados Unidos assistiam a tudo passivamente. A lembrança do incitamento e da traição ainda está muito viva. Sejamos justos. Eles têm toda a razão em manter a cautela. O regime de Saddam foi enfraquecido, talvez fatalmente, mas ainda não foi destruído. Em Basra, a cidade xiita ao sul do Iraque, estou seguro de que a população daria as boas-vindas aos americanos se tivesse certeza de que não seria traída, como há uma década, e se o aparato de repressão de Saddam não fosse ainda eficaz.

Veja – Outra decepção do governo americano foi com a resistência militar oferecida por algumas unidades de Saddam. A guerra será longa?
Lewis – Uma guerra longa seria um desastre para todo mundo. Acho que isso não irá acontecer. O Iraque não é um novo Vietnã. Existe uma demanda da população para que Saddam desapareça de vez. E outra coisa: não existe nenhum Vietnã do Norte para ajudá-lo. Saddam não tem apoio externo.

Veja – Na opinião do senhor, o que seria uma guerra longa?
Lewis – Seis meses. A opinião pública americana ficaria desiludida e exigiria a saída das tropas. Para os governantes da região, a mensagem seria: os americanos não são perigosos e podemos fazer o que quisermos.

Veja – Com a invasão do Iraque estamos vendo o início de uma nova fase de dominação direta estrangeira no Oriente Médio?
Lewis – É possível. Mas se acontecer não será uma dominação americana. Os Estados Unidos não têm interesses de longo prazo na região. O petróleo pode ser vital hoje, mas existem outros fornecedores do produto e novas fontes de energia estão se tornando economicamente viáveis. É mais provável que a dominação venha da Ásia. O Oriente Médio é de importância vital para as potências asiáticas. Elas estão mais perto e possuem grandes populações muçulmanas. Consigo ver a região se tornando um motivo de rivalidade entre a Índia e a China, como era entre as potências européias no passado. O real perigo no Oriente Médio, no entanto, é de outra natureza. Perigo mesmo é deixar as coisas como estão. Refiro-me aos conflitos armados e ao sentimento cultivado pelos árabes de que são uns coitadinhos e injustiçados. Um cenário em que os homens-bomba se tornem uma metáfora da região como um todo é inaceitável. Caso isso de fato aconteça, as potências externas vão intervir mais severamente na região. Acho que a Europa não faria isso. Talvez a Rússia. Cedo ou tarde, a Rússia vai sair da posição periférica que ocupa hoje.

Veja – Quais as chances de a democracia criar raízes no Oriente Médio?
Lewis – São boas. É importante lembrar que a ditadura brutal de Saddam Hussein é um produto europeu e não árabe ou de influência muçulmana. O Partido Baath, de Saddam, é o único baseado em um modelo europeu que funcionou no Oriente Médio. Seus modelos são os partidos fascista, nazista e comunista. As características são semelhantes: partido único cujo poder deriva da doutrinação e da repressão. Ou seja, é possível voltar ao sistema que vigorava antes de a região ser influenciada pelo que houve de pior no século XX. Obviamente, nunca existiu ali uma democracia nos moldes ocidentais. Mas havia as noções de um governo responsável, com poder limitado e obediente às leis. Tudo isso faz parte da tradição islâmica. Historicamente, a democracia começou a chegar à maior parte das regiões do mundo há bem pouco tempo. E os resultados não são tão ruins assim.

Veja – Os Estados Unidos têm como impor a democracia?
Lewis – Não. O que é possível é remover os obstáculos que impedem o florescimento da democracia. Os americanos e ingleses não impuseram a democracia aos alemães e japoneses no fim da II Guerra Mundial, mas criaram as condições para que ela se desenvolvesse. As chances de sucesso no Iraque são boas por várias razões. Primeiro, porque os iraquianos sentiram na pele a experiência de viver sob uma das ditaduras mais cruéis e repressivas. Segundo, porque, entre todos os países ricos em petróleo, o Iraque foi um dos que melhor aproveitaram seus recursos. Criou uma boa infra-estrutura, investiu em educação primária e secundária e em universidades. Tem uma classe média culta, que não foi totalmente destruída por Saddam. As mulheres têm acesso à educação e o nível de alfabetização é alto. Não deixa de ser curioso que, para os tiranos do Oriente Médio, um Iraque democrático é visto como uma grande ameaça, um problema.

Veja – Por que temer se os exemplos de democracia no mundo islâmico são tão raros?
Lewis – Raros, mas não impossíveis. A Turquia tem uma democracia pluripartidária que funciona há cerca de cinqüenta anos. Em Bangladesh, há ótimas perspectivas. O mesmo pode ser dito sobre nações de maioria islâmica na África. É um processo lento e difícil. Não podemos esquecer que generalizações são sempre imprecisas. Quando discutimos o Islã, estamos falando de mais de catorze séculos de história, mais de cinqüenta países, uma tradição cultural de uma diversidade enorme. O Islã pode ser interpretado de várias formas. A pergunta talvez não seja o que o Islã fez com os muçulmanos, mas o que os muçulmanos fizeram com o Islã.

Veja – A religião islâmica como é praticada hoje é compatível com os ritos democráticos?
Lewis – Eu respondo com outra pergunta: qualquer religião é compatível com a democracia? Do ponto de vista histórico, há respostas diferentes para cada uma das religiões. O cristianismo ortodoxo é compatível? Os livros de história não nos encorajam a dar uma resposta afirmativa. E o cristianismo católico? As evidências são contraditórias. E o cristianismo protestante? Esse, sim. O vital é que exista clara separação entre o Estado e a religião. No passado, os muçulmanos faziam troça dizendo que essa separação era um remédio cristão para uma doença cristã. Eles estão começando a achar que pegaram a doença e precisam tentar o remédio.

Veja – Existe demanda popular por mudanças modernizantes nas ruas das cidades árabes?
Lewis – Existe, sim. Não digo que queiram uma democracia no estilo ocidental. Mas um governo mais responsável. Infelizmente, existe uma grande desilusão com as idéias ocidentais. Nos últimos cinqüenta anos ou mais, as duas idéias dominantes no Oriente Médio foram nacionalismo e socialismo, ambas importadas da Europa. Com a independência, se livraram de governantes estrangeiros e ganharam tiranos locais. Com o socialismo, viram as promessas de desenvolvimento se transformar em economias falidas dominadas por elites corruptas. Eles não estão totalmente errados em culpar o Ocidente. Esses fatos dão força aos argumentos de líderes religiosos como Osama bin Laden, que defendem a luta contra as idéias do Ocidente. Há dois grupos. Os que acham que o mal é a modernização no estilo ocidental e os que dizem que houve modernização de menos. Se os iraquianos, com a ajuda dos americanos, conseguirem construir um país livre depois da guerra, poderão incentivar os reformistas em outras partes do mundo muçulmano a se expressar com mais ênfase. A meu ver, o Irã e o Afeganistão vão ser os primeiros países a se reformar, seguidos de Malásia, Indonésia e Tunísia.

Veja – Qual é o perigo de a democracia levar os fundamentalistas ao poder?
Lewis – A democracia tem seus perigos. Não esqueçamos que Adolf Hitler chegou ao poder na Alemanha por meio de uma eleição. Se a democracia for introduzida de forma prematura, é possível que tenha vida curta. Uma eleição livre é o fim de um processo de democratização, não o começo. A democracia é um remédio forte que tem de ser tomado em doses pequenas e com cuidado. Não se pode importar a democracia como quem compra um brinquedo com instruções no estilo monte você mesmo. O Iraque não vai transformar-se numa Suíça da noite para o dia. Primeiro, terá câmaras municipais e assembléias legislativas. Talvez parte dos membros eleitos e a outra parte indicada.

Veja – Os reformistas da Arábia Saudita não estão certos em denunciar os Estados Unidos pelo apoio que dão à monarquia despótica?
Lewis – Sim. O mesmo vale para o Egito e para outros países. No Ocidente, há duas maneiras de encarar a questão do mundo islâmico. A primeira é orientada pela seguinte linha: aquele povo não é como a gente. Eles não são civilizados. São bárbaros. Qualquer ajuda que dermos de nada adiantará. Serão sempre governados por tiranos. Portanto, o objetivo de nossa política externa precisa ser tiranos amigos em vez de tiranos hostis. Lembre-se de que Saddam já foi "o nosso" tirano. Essa abordagem é cínica e não funciona. Ela mostra desrespeito pelo passado do Islã e falta de consideração com seu presente e seu futuro. Essa política já evidenciou suas falhas quando apoiamos tiranos na América Central e no Sudeste Asiático. Existe outra maneira de encarar o mundo islâmico que é o oposto da que mencionei. Os muçulmanos são os herdeiros de uma grande civilização que estão numa fase ruim e é nossa missão ajudá-los. E, com um pequeno empurrão, eles voltarão ao elevado estágio de desenvolvimento que já desfrutaram. Essa estratégia, infelizmente, é chamada pelos críticos de imperialismo.

Veja – O senhor quer dizer que remover os tiranos é uma manobra justa e que deve continuar a ser implementada na região depois da deposição de Saddam?
Lewis – Não podemos esquecer que o destino do mundo islâmico é de responsabilidade dos muçulmanos. Não podemos resolver os problemas deles. O que podemos fazer, sim, é parar de obstruir o caminho. Parar de dar apoio aos tiranos.

Veja – A Palestina é bem mais complexa do que simplesmente mandar um tirano passear, não?
Lewis – Ali, a solução é um Estado palestino convivendo ao lado de Israel. Obviamente, nenhum representante israelense aceitará colocar em negociação a própria existência de Israel. Isso é um dado. Para muitos governos da região, a criação de um Estado palestino seria encarada como um problema. Hoje, a questão palestina é usada como uma perfeita válvula de escape para esses governos. A população do Egito ou da Arábia Saudita é em grande parte revoltada com a situação em que vive – seja a pobreza, seja a tirania, seja o atraso –, mas não pode reclamar. A única maneira de manifestar descontentamento nas ruas sem ser reprimida é atacar Israel e defender a causa palestina. Por isso, acho que muitos governos árabes querem que a situação na Palestina se mantenha instável e sem solução.

Veja – A exuberante economia árabe se estagnou em algum ponto do passado e começou a regredir. Afinal, o que deu errado no Oriente Médio?
Lewis – Não existe uma resposta simples. Isso é parte de um processo longo e complexo. Em parte, dá para responder perguntando: o que deu certo com a Europa, que na Idade Média era vista pelos muçulmanos da mesma forma que a África? Vamos pegar o exemplo de Portugal. Mesmo sendo um pequeno país, Portugal conseguiu criar um vasto império. Por quê? Por estarem na costa do Oceano Atlântico, os portugueses construíram barcos grandes. Quando chegaram ao Oriente, essas embarcações eram muito superiores aos barcos dos árabes. Uma caravela carregava mais armas e carga que os barcos árabes. Era adequada tanto aos tempos de guerra quanto aos tempos de paz. A esquadra marítima européia é parte da resposta, mas não explica tudo. Você poderia perguntar: por que os muçulmanos não construíram uma esquadra atlântica antes dos portugueses? Isso apenas mostra a complexidade dessa discussão.

Veja – Por que a riqueza do petróleo não foi a esperada redenção para os países árabes?
Lewis – Para mim, o petróleo foi uma maldição. Os países ricos em petróleo ganharam dinheiro muito fácil. Com isso, não viram a necessidade de criar uma economia diversificada. No Ocidente, tivemos de trabalhar muito para desenvolver uma economia moderna. Os árabes não tiveram sequer o trabalho de descobrir o petróleo. Ficaram sentados em cima daquela riqueza durante milhares de anos. Não inventaram nenhuma forma de utilizá-lo nem mesmo de extraí-lo. Dessa maneira, aumentaram a dependência de empresas estrangeiras.

 
 
   
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