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O
futuro
do Islã
Guru do vice dos EUA é
otimista
com a perspectiva de democracia
no Oriente Médio, mas diz que
antes é preciso remover os tiranos
Eduardo Salgado
Depois
de 11 de setembro de 2001, o vice-presidente dos Estados Unidos, Dick
Cheney, um dos mais influentes da história do país, começou
a fazer uma espécie de curso privado em Islã e Oriente Médio.
Cheney ouviu especialistas para discutir o Iraque pós-Saddam Hussein
e as perspectivas da democracia na região. Bernard Lewis, de 86
anos, professor emérito da Universidade Princeton e uma das maiores
autoridades em Oriente Médio, foi uma das vozes que mais influenciaram
Cheney. Com mais de vinte livros publicados, Lewis é um ferrenho
defensor da democracia na região. O autor de O que Deu Errado
no Oriente Médio? explora sua extensa erudição
sobre o mundo islâmico para justificar o fim do apoio do Ocidente
aos mandatários da região. Nascido na Inglaterra, Lewis
começou a dar aulas sobre o Oriente Médio em 1938, na Universidade
de Londres. Receptivo e bem-humorado, falou a VEJA por telefone de sua
casa em Princeton, na costa leste dos Estados Unidos.
Veja
O governo americano estava certo de que seus soldados seriam
recebidos como libertadores no Iraque. Por que não se viu nada
disso?
Lewis
A relutância dos iraquianos em mostrar apoio aos soldados americanos
tem boas razões de ser. Os iraquianos ainda temem Saddam Hussein
e seu aparato de repressão. Em 1991, o presidente George Bush pai
pediu que os iraquianos se revoltassem contra o tirano. Os curdos, no
norte, e os xiitas, no sul, obedeceram. O que aconteceu? Saddam massacrou
seus opositores enquanto os Estados Unidos assistiam a tudo passivamente.
A lembrança do incitamento e da traição ainda está
muito viva. Sejamos justos. Eles têm toda a razão em manter
a cautela. O regime de Saddam foi enfraquecido, talvez fatalmente, mas
ainda não foi destruído. Em Basra, a cidade xiita ao sul
do Iraque, estou seguro de que a população daria as boas-vindas
aos americanos se tivesse certeza de que não seria traída,
como há uma década, e se o aparato de repressão de
Saddam não fosse ainda eficaz.
Veja Outra decepção do governo americano foi
com a resistência militar oferecida por algumas unidades de Saddam.
A guerra será longa?
Lewis Uma
guerra longa seria um desastre para todo mundo. Acho que isso não
irá acontecer. O Iraque não é um novo Vietnã.
Existe uma demanda da população para que Saddam desapareça
de vez. E outra coisa: não existe nenhum Vietnã do Norte
para ajudá-lo. Saddam não tem apoio externo.
Veja
Na opinião do senhor, o que seria uma guerra longa?
Lewis
Seis meses. A opinião pública americana ficaria desiludida
e exigiria a saída das tropas. Para os governantes da região,
a mensagem seria: os americanos não são perigosos e podemos
fazer o que quisermos.
Veja Com a invasão do Iraque estamos vendo o início
de uma nova fase de dominação direta estrangeira no Oriente
Médio?
Lewis É
possível. Mas se acontecer não será uma dominação
americana. Os Estados Unidos não têm interesses de longo
prazo na região. O petróleo pode ser vital hoje, mas existem
outros fornecedores do produto e novas fontes de energia estão
se tornando economicamente viáveis. É mais provável
que a dominação venha da Ásia. O Oriente Médio
é de importância vital para as potências asiáticas.
Elas estão mais perto e possuem grandes populações
muçulmanas. Consigo ver a região se tornando um motivo de
rivalidade entre a Índia e a China, como era entre as potências
européias no passado. O real perigo no Oriente Médio, no
entanto, é de outra natureza. Perigo mesmo é deixar as coisas
como estão. Refiro-me aos conflitos armados e ao sentimento cultivado
pelos árabes de que são uns coitadinhos e injustiçados.
Um cenário em que os homens-bomba se tornem uma metáfora
da região como um todo é inaceitável. Caso isso de
fato aconteça, as potências externas vão intervir
mais severamente na região. Acho que a Europa não faria
isso. Talvez a Rússia. Cedo ou tarde, a Rússia vai sair
da posição periférica que ocupa hoje.
Veja
Quais as chances de a democracia criar raízes no Oriente
Médio?
Lewis
São boas. É importante lembrar que a ditadura brutal de
Saddam Hussein é um produto europeu e não árabe ou
de influência muçulmana. O Partido Baath, de Saddam, é
o único baseado em um modelo europeu que funcionou no Oriente Médio.
Seus modelos são os partidos fascista, nazista e comunista. As
características são semelhantes: partido único cujo
poder deriva da doutrinação e da repressão. Ou seja,
é possível voltar ao sistema que vigorava antes de a região
ser influenciada pelo que houve de pior no século XX. Obviamente,
nunca existiu ali uma democracia nos moldes ocidentais. Mas havia as noções
de um governo responsável, com poder limitado e obediente às
leis. Tudo isso faz parte da tradição islâmica. Historicamente,
a democracia começou a chegar à maior parte das regiões
do mundo há bem pouco tempo. E os resultados não são
tão ruins assim.
Veja Os Estados Unidos têm como impor a democracia?
Lewis
Não.
O que é possível é remover os obstáculos que
impedem o florescimento da democracia. Os americanos e ingleses não
impuseram a democracia aos alemães e japoneses no fim da II Guerra
Mundial, mas criaram as condições para que ela se desenvolvesse.
As chances de sucesso no Iraque são boas por várias razões.
Primeiro, porque os iraquianos sentiram na pele a experiência de
viver sob uma das ditaduras mais cruéis e repressivas. Segundo,
porque, entre todos os países ricos em petróleo, o Iraque
foi um dos que melhor aproveitaram seus recursos. Criou uma boa infra-estrutura,
investiu em educação primária e secundária
e em universidades. Tem uma classe média culta, que não
foi totalmente destruída por Saddam. As mulheres têm acesso
à educação e o nível de alfabetização
é alto. Não deixa de ser curioso que, para os tiranos do
Oriente Médio, um Iraque democrático é visto como
uma grande ameaça, um problema.
Veja Por que temer se os exemplos de democracia no mundo
islâmico são tão raros?
Lewis
Raros,
mas não impossíveis. A Turquia tem uma democracia pluripartidária
que funciona há cerca de cinqüenta anos. Em Bangladesh, há
ótimas perspectivas. O mesmo pode ser dito sobre nações
de maioria islâmica na África. É um processo lento
e difícil. Não podemos esquecer que generalizações
são sempre imprecisas. Quando discutimos o Islã, estamos
falando de mais de catorze séculos de história, mais de
cinqüenta países, uma tradição cultural de uma
diversidade enorme. O Islã pode ser interpretado de várias
formas. A pergunta talvez não seja o que o Islã fez com
os muçulmanos, mas o que os muçulmanos fizeram com o Islã.
Veja
A religião islâmica como é praticada hoje
é compatível com os ritos democráticos?
Lewis
Eu respondo com outra pergunta: qualquer religião é compatível
com a democracia? Do ponto de vista histórico, há respostas
diferentes para cada uma das religiões. O cristianismo ortodoxo
é compatível? Os livros de história não nos
encorajam a dar uma resposta afirmativa. E o cristianismo católico?
As evidências são contraditórias. E o cristianismo
protestante? Esse, sim. O vital é que exista clara separação
entre o Estado e a religião. No passado, os muçulmanos faziam
troça dizendo que essa separação era um remédio
cristão para uma doença cristã. Eles estão
começando a achar que pegaram a doença e precisam tentar
o remédio.
Veja
Existe demanda popular por mudanças modernizantes nas
ruas das cidades árabes?
Lewis
Existe, sim. Não digo que queiram uma democracia no estilo ocidental.
Mas um governo mais responsável. Infelizmente, existe uma grande
desilusão com as idéias ocidentais. Nos últimos cinqüenta
anos ou mais, as duas idéias dominantes no Oriente Médio
foram nacionalismo e socialismo, ambas importadas da Europa. Com a independência,
se livraram de governantes estrangeiros e ganharam tiranos locais. Com
o socialismo, viram as promessas de desenvolvimento se transformar em
economias falidas dominadas por elites corruptas. Eles não estão
totalmente errados em culpar o Ocidente. Esses fatos dão força
aos argumentos de líderes religiosos como Osama bin Laden, que
defendem a luta contra as idéias do Ocidente. Há dois grupos.
Os que acham que o mal é a modernização no estilo
ocidental e os que dizem que houve modernização de menos.
Se os iraquianos, com a ajuda dos americanos, conseguirem construir um
país livre depois da guerra, poderão incentivar os reformistas
em outras partes do mundo muçulmano a se expressar com mais ênfase.
A meu ver, o Irã e o Afeganistão vão ser os primeiros
países a se reformar, seguidos de Malásia, Indonésia
e Tunísia.
Veja
Qual é o perigo de a democracia levar os fundamentalistas
ao poder?
Lewis
A democracia tem seus perigos. Não esqueçamos que Adolf
Hitler chegou ao poder na Alemanha por meio de uma eleição.
Se a democracia for introduzida de forma prematura, é possível
que tenha vida curta. Uma eleição livre é o fim de
um processo de democratização, não o começo.
A democracia é um remédio forte que tem de ser tomado em
doses pequenas e com cuidado. Não se pode importar a democracia
como quem compra um brinquedo com instruções no estilo monte
você mesmo. O Iraque não vai transformar-se numa Suíça
da noite para o dia. Primeiro, terá câmaras municipais e
assembléias legislativas. Talvez parte dos membros eleitos e a
outra parte indicada.
Veja
Os reformistas da Arábia Saudita não estão
certos em denunciar os Estados Unidos pelo apoio que dão à
monarquia despótica?
Lewis
Sim. O mesmo vale para o Egito e para outros países. No Ocidente,
há duas maneiras de encarar a questão do mundo islâmico.
A primeira é orientada pela seguinte linha: aquele povo não
é como a gente. Eles não são civilizados. São
bárbaros. Qualquer ajuda que dermos de nada adiantará. Serão
sempre governados por tiranos. Portanto, o objetivo de nossa política
externa precisa ser tiranos amigos em vez de tiranos hostis. Lembre-se
de que Saddam já foi "o nosso" tirano. Essa abordagem é
cínica e não funciona. Ela mostra desrespeito pelo passado
do Islã e falta de consideração com seu presente
e seu futuro. Essa política já evidenciou suas falhas quando
apoiamos tiranos na América Central e no Sudeste Asiático.
Existe outra maneira de encarar o mundo islâmico que é o
oposto da que mencionei. Os muçulmanos são os herdeiros
de uma grande civilização que estão numa fase ruim
e é nossa missão ajudá-los. E, com um pequeno empurrão,
eles voltarão ao elevado estágio de desenvolvimento que
já desfrutaram. Essa estratégia, infelizmente, é
chamada pelos críticos de imperialismo.
Veja
O senhor quer dizer que remover os tiranos é uma manobra
justa e que deve continuar a ser implementada na região depois
da deposição de Saddam?
Lewis
Não podemos esquecer que o destino do mundo islâmico é
de responsabilidade dos muçulmanos. Não podemos resolver
os problemas deles. O que podemos fazer, sim, é parar de obstruir
o caminho. Parar de dar apoio aos tiranos.
Veja
A Palestina é bem mais complexa do que simplesmente mandar
um tirano passear, não?
Lewis
Ali,
a solução é um Estado palestino convivendo ao lado
de Israel. Obviamente, nenhum representante israelense aceitará
colocar em negociação a própria existência
de Israel. Isso é um dado. Para muitos governos da região,
a criação de um Estado palestino seria encarada como um
problema. Hoje, a questão palestina é usada como uma perfeita
válvula de escape para esses governos. A população
do Egito ou da Arábia Saudita é em grande parte revoltada
com a situação em que vive seja a pobreza, seja a
tirania, seja o atraso , mas não pode reclamar. A única
maneira de manifestar descontentamento nas ruas sem ser reprimida é
atacar Israel e defender a causa palestina. Por isso, acho que muitos
governos árabes querem que a situação na Palestina
se mantenha instável e sem solução.
Veja
A exuberante economia árabe se estagnou em algum ponto
do passado e começou a regredir. Afinal, o que deu errado no Oriente
Médio?
Lewis
Não existe uma resposta simples. Isso é parte de um processo
longo e complexo. Em parte, dá para responder perguntando: o que
deu certo com a Europa, que na Idade Média era vista pelos muçulmanos
da mesma forma que a África? Vamos pegar o exemplo de Portugal.
Mesmo sendo um pequeno país, Portugal conseguiu criar um vasto
império. Por quê? Por estarem na costa do Oceano Atlântico,
os portugueses construíram barcos grandes. Quando chegaram ao Oriente,
essas embarcações eram muito superiores aos barcos dos árabes.
Uma caravela carregava mais armas e carga que os barcos árabes.
Era adequada tanto aos tempos de guerra quanto aos tempos de paz. A esquadra
marítima européia é parte da resposta, mas não
explica tudo. Você poderia perguntar: por que os muçulmanos
não construíram uma esquadra atlântica antes dos portugueses?
Isso apenas mostra a complexidade dessa discussão.
Veja
Por que a riqueza do petróleo não foi a esperada
redenção para os países árabes?
Lewis
Para mim, o petróleo foi uma maldição. Os países
ricos em petróleo ganharam dinheiro muito fácil. Com isso,
não viram a necessidade de criar uma economia diversificada. No
Ocidente, tivemos de trabalhar muito para desenvolver uma economia moderna.
Os árabes não tiveram sequer o trabalho de descobrir o petróleo.
Ficaram sentados em cima daquela riqueza durante milhares de anos. Não
inventaram nenhuma forma de utilizá-lo nem mesmo de extraí-lo.
Dessa maneira, aumentaram a dependência de empresas estrangeiras.
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