|
Tales
Alvarenga Severino não é Geni
"Tentar
transformar Severino na Geni do Congresso é uma tolice. Sacrifica-se
o bode preto do agreste pernambucano no
altar da incorreção política, permitindo-se que todos
os outros pareçam moralmente impecáveis"
O novo presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti, não
é a Geni do Parlamento. Isso é o que estão tentando fazer
dele. Severino é um político fisiológico. É também
um defensor de posturas religiosas retrógradas. É inculto. Tudo
isso é Severino. A eleição desse homem, no entanto, está
sendo apresentada como um dos momentos mais rasteiros do Parlamento brasileiro,
como um chocante espetáculo de degeneração política
e moral. Aí, convenhamos, chegou-se ao terreno
da mais galopante hipocrisia. Sacrifica-se o bode preto do agreste pernambucano
no altar da incorreção política, permitindo-se, com seu apedrejamento,
que todos os outros (políticos ou não) pareçam moralmente
impecáveis. É como diz a música de Chico Buarque: "Joga
pedra na Geni / Ela é feita pra apanhar / Ela é boa de cuspir /
Ela dá pra qualquer um / Maldita Geni".
Jader Barbalho já foi presidente do Senado e hoje é deputado. Paulo
Maluf, Orestes Quércia e Newton Cardoso também foram ilustres figuras
no Congresso, além de terem governado seus estados. Fernando Collor de
Mello foi deputado, governador e presidente. Essa escalação aconselha
um pouco mais de humildade aos que apedrejam Severino porque ele é chucro.
Severino é apenas a parte do Congresso que
nunca aparece na foto. Na Câmara, fez promessas fisiológicas aos
que acabariam por elegê-lo à presidência. Prometeu-lhes um
aumento de salário, de 12.850 para 21.500. O aumento não é
bom para as contas nacionais. Severino está sendo oportunista. Mas os seus
colegas, pode-se ter certeza, estão intimamente felizes com o aumento que
condenam da boca para fora. A Câmara está cheia de Severinos. O Brasil
está cheio de Severinos. Apontar apenas uma Geni na multidão só
contribui para satanizar aquela pessoa, deixando de lado o sistema de idéias
e costumes retrógrados que os sustentam.
Eleito, Severino não fez declarações sobre rumos do Brasil,
reforma de instituições ou qualquer coisa que se espera de um político
sério. Mandou recados, sempre na mesma e milimétrica direção.
Sugeriu acabar com a reeleição para a Presidência da República.
Nunca um aliado do PT, como ele é, teve a audácia de sugerir que
Lula não dispute mais quatro anos de governo. Afirmou também que
Fernando Henrique Cardoso seria um bom nome para 2006.
Ao presidente do PT, deputado José Genoino, fez saber pelos jornais que
o considera um trapalhão. Ao ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e ao
presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, avisou que o BC precisa de "um
cabresto". Disse que vai convocar Palocci e Meirelles para explicar a política
econômica que aplicam no país. Quer pedir a Lula a demissão
dos ministros que desdenham parlamentares desconhecidos. Tais idéias, postas
em prática, darão dor de cabeça ao governo por meses seguidos.
Largadas no ar apenas como ameaças, são moedas de troca. Nada que
não se tenha presenciado antes em Brasília. E não foi Severino
que inventou essas coisas. |