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Ponto
de vista: Stephen Kanitz Os
impostos vão aumentar
"No Brasil,
além de termos impostos muito elevados, eles são cobrados
de forma sufocante" Fico triste quando
vejo líderes empresariais lutar por redução de impostos.
Eles sabem que essa é uma batalha perdida, um esforço desperdiçado.
O governo simplesmente não tem como reduzir suas despesas. Por exemplo,
nos próximos trinta anos o número de aposentados irá dobrar,
aumentando em 100% o que já é nossa maior despesa pública
(vide texto Ipea nº 690). Tem mais: com o aumento da longevidade humana,
o gasto com saúde pública poderá triplicar, como nos Estados
Unidos, e assim por diante. Quem acha que os atuais 38% do PIB são o limite
máximo de impostos está redondamente enganado. Minha estimativa
é a de que nos próximos vinte anos os impostos subirão inexoravelmente
para 48% do PIB, e há estimativas muito piores do que a minha por aí.
E não é apenas no Brasil. A luta fiscal deveria ser outra. Não
somente temos impostos elevados, mas no Brasil eles são cobrados de forma
sufocante. Durante a época de inflação alta, o governo começou
a reduzir o prazo de pagamento dos impostos. De 120 dias para pagar o IPI, reduziu-se
para dez dias. Pagamos imposto de renda sobre lucro presumido onze meses antes
de saber qual foi de fato o lucro da empresa. Hoje, o INSS é pago no segundo
dia do mês, antes mesmo de os funcionários receberem seus salários.
O imposto sobre vendas, o IVC, se transformou no ICMS basta a mercadoria
"circular" para ter imposto devido. Em vez de antecipar impostos para que não
fossem corroídos pela inflação, o correto teria sido manter
os prazos e corrigir os impostos por um índice de inflação
apropriado.
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Infelizmente,
muitos impostos no Brasil são idealizados por acadêmicos que nunca
trabalharam numa empresa e não têm nenhum senso prático. Antecipar
impostos de cinco a quinze dias, numa economia em que o ciclo de produção
do minério até o carro pronto chega a superar seis meses, em que
as empresas vendem em média com prazo de sessenta a noventa dias, é
antiprodutivo e antieconômico. É um tiro no pé do próprio
governo. Hoje, as empresas e a população pagam imposto antecipadamente.
Empresas pagam imposto muito antes de ter um produto final, pagam imposto muito
antes de receber a grana do cliente. Varejo que financia em seis meses sem juros
paga imposto no mês seguinte, mesmo antes de receber. Pagamos até
mais do que o devido e aí torcemos para ser restituídos um ano e
meio depois. Pagar imposto adiantado significa que as empresas têm de se
endividar para poder pagá-lo, ou perder precioso capital de giro, o que
é um desastre. Além de ser inconstitucional, porque fere o princípio
da capacidade contributiva, abrigado no artigo 145, parágrafo 1º,
da Constituição Federal. Em vez de as empresas estarem financiando
a produção ou a cadeia produtiva, elas estão financiando
o governo. O capital de giro das empresas antecipado é inúmeras
vezes superior ao que o BNDES devolve em termos de empréstimos, um contra-senso.
No Brasil acontece o contrário do que ocorre em outros países, que
têm impostos somente sobre o consumo final e dão 360 dias ou mais
de prazo, gerando caixa para as empresas e reduzindo sua necessidade de financiamento,
o que aumenta sua saúde financeira. Sem
capital de giro suficiente, as empresas no Brasil são vulneráveis
a qualquer crise internacional, não conseguem financiar a clientela, e
assim por diante. Por sinal, esse foi mais um erro dos autores do Plano Real:
acabaram com a inflação, mas se esqueceram de devolver o capital
de giro tomado pelo governo durante o período inflacionário, estendendo
os prazos dos impostos para seus valores originais. Essa, sim, seria uma luta
possível de ser ganha. Teríamos menos falências de empresas,
mais crescimento, mais arrecadação, mais pagamentos em dia, mais
estabilidade, enfim, tudo o que queremos. Nossos líderes empresariais estariam
simplesmente pedindo o óbvio, que as empresas paguem seus impostos depois
de o produto final ser produzido e de o dinheiro ser recebido. Com o superávit
do ministro Palocci, temos uma janela de oportunidade. O governo tem agora reservas
para financiar esse aumento de prazo sem atrasar pagamentos de funcionários
públicos, começando primeiro pelos estados mais pobres e paulatinamente
estendendo os prazos para os estados mais ricos. Precisamos lutar para compatibilizar
imposto com o "fluxo de caixa", e não com o "fato gerador". Isso seria
um enorme avanço jurídico-administrativo.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard
(www.kanitz.com.br) |