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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Olhares
estrangeiros
História
de dois Brasis: o de um sábio
francês e o de um repórter de
suplemento de turismo
Dois dos principais jornais do mundo publicaram, em sua edição da
segunda-feira 21, textos que dizem respeito ao Brasil. O primeiro é o Le
Monde, jornal de referência da França, que publicou entrevista
com Claude Lévi-Strauss, o último sobrevivente dos grandes intelectuais
franceses do século XX e que descobriu no Brasil, para onde veio contratado
pela recém-criada Universidade de São Paulo, a vocação
que o tornaria o mestre supremo da etnografia. "O Brasil representa a experiência
mais importante da minha vida", disse Lévi-Strauss. "Sinto por esse país
uma dívida profunda." O então jovem
professor francês viveu no Brasil entre 1935 e 1939. Essa experiência
está relatada num livro capital, Tristes Trópicos. Só
voltou ao país em 1985, por uns poucos dias, integrado à comitiva
do então presidente francês François Mitterrand e então
lhe ocorreram coisas curiosas, relatadas na entrevista ao Le Monde. A São
Paulo em que Lévi-Strauss morou tinha 1 milhão de habitantes. Agora
tinha 10 milhões, e virara uma cidade "assaz assustadora". Ele resolveu
visitar a rua em que morara. Não que esperasse rever sua antiga casa
sem dúvida ela não mais existia , mas pelo menos percorreria
a vizinhança. Não conseguiu. Ficou preso num congestionamento de
trânsito, e teve de desistir. Restava tentar
outra empreitada nostálgica. A partir de Brasília, Lévi-Strauss
embarcou num pequeno avião para as solidões de Mato Grosso. O destino
era a terra dos bororos, os índios que tanta importância tiveram
em suas pesquisas. Do alto, quando se aproximaram, ele conseguiu divisar aldeias
que, como em seus tempos, mantinham a forma circular, mas o avião não
pôde descer. A pista era curta demais. Tomou-se então o rumo de volta,
e no caminho adveio uma formidável tempestade. Eis então o grande
pensador duplamente bloqueado. Na frustrada visita aos bororos, diz ele ao Le
Monde ter exposto a vida mais do que no tempo de suas expedições
científicas. A segunda vinda de Lévi-Strauss pode ser lida como
uma metáfora. Até parece que o país tanto se tinha mexido
que deu um nó em torno de si mesmo. Tornou-se intratável e impenetrável.
O segundo texto foi publicado no New York Times,
ou melhor, no suplemento de turismo do New York Times. O mundo dos suplementos
de turismo é um mundo à parte, como se sabe. Em suas páginas
as coisas vão muito bem. Em outras seções de jornais estrangeiros,
o Rio de Janeiro tem mais chance de aparecer quando o assunto é bala perdida
ou crime organizado. Nos suplementos de turismo, a cidade retoma sua graça
e seu esplendor. No caso, a reportagem de Seth Kugel, aliás um repórter
que se revela inteligente e bem-humorado, tem enfoque na juventude dourada da
cidade e no eterno clima de festa que a envolve. Claro, o texto de Kugel não
tem, nem quer ter, a ciência e a sabedoria de um Lévi-Strauss. Mas
contém lá a sua antropologiazinha.
O repórter do Times dirige um olhar arguto para a tribo que freqüenta
as areias da Barra da Tijuca. Os americanos, diz ele, costumam conceber as praias
como lugar de deitar-se ao sol, mas, no Rio, aquilo que ele chama de "social butterflies",
ou "borboletas sociais", supera os que aproveitam o tempo de ócio para
ler um livro na proporção de dez para um. Há trechos de praia
onde vigora um perfeito clima de festa. "Tantas pessoas parecem conhecer umas
às outras que lembrar de virar o corpo na areia, para bronzeá-lo
por igual, é uma tarefa dispensável, tão freqüentemente
é preciso levantar para saudar a chegada de mais um amigo, enrolado em
mais um traje de banho impossivelmente miúdo."
A festa na praia, quando a noite chegar, vai prosseguir, segundo descobriu Seth
Kugel, nos bares do Baixo Gávea. O "murmúrio sedutor" do português
falado no Brasil é nesses lugares pontuado "pelos gritos de amigos cumprimentando
uns aos outros, enquanto avançam pelo amontoado de gente para trocar duplos
beijos nas faces". O repórter vê aí a encarnação
do "típico, puro Rio: barrigas bronzeadas e sorrisos transbordantes, celebração
informal e trocas amigáveis". Há problemas, claro onde não
há? , e um deles, uma carioca conta ao repórter, é
o estrangeiro confundir nosso estilo "liberal" e nossa fartura de "calor humano"
com ofertas afetivas, quando não libidinosas. Mas o fato, nota o repórter,
é que os brasileiros, "gregários por natureza", gostam de orientar
os estrangeiros, especialmente (que maldade, Seth Kugel!) "quando têm em
mente que um dia visitarão o Hemisfério Norte e recolherão
a retribuição pelos favores prestados".
Que diferença entre um depoimento e outro... Claro, cada um segue sua própria
pauta. Seth Kugel não se programou para uma impossível visita aos
bororos, da mesma forma que Lévi-Strauss, ao que se saiba, jamais se sentiu
tentado a uma noitada no Baixo Gávea. Cada um experimentou a sua espécie
de Brasil. O do sábio francês revelou-se áspero e temível.
O do repórter americano é um jardim das delícias, sem político
malandro nem freira assassinada, onde não se toma conhecimento nem do tiroteio
nas favelas, ali ao lado. |