Edição 1894 . 2 de março de 2005

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Crítica da razão pop

Nick Hornby filosofa sobre o valor
da música jovem em ensaios sobre
suas canções favoritas  


Jerônimo Teixeira

Um provérbio conhecido (e obtuso) recomenda que nunca se discutam religião, futebol nem política. A música pop também poderia constar desse índex popular. Tal como a fé, a paixão por um time ou a ideologia, ela é um desses temas em que as mais tolas preferências pessoais com freqüência esmagam qualquer argumentação civilizada. O escritor inglês Nick Hornby sabe bem disso. Seu mais recente livro, 31 Canções (tradução de Lúcia Helena Schaefer de Brito; Rocco; 160 páginas; 45 reais), já no título aponta para o caráter arbitrário de qualquer discussão sobre os méritos do pop. Por que 31, e não 30, ou 32 canções? Hornby não diz de onde tirou esse número. Nem precisa. Nessa coletânea de ensaios ligeiros, ele quer apenas falar das músicas de que mais gosta. Mais importante que discutir essas escolhas (Samba Pa Ti, de Santana? E Rod Stewart? Tenha dó!) é atentar para a atitude desencucada que o autor assume diante de seu tema. Hornby atribui ao pop o peso – ou melhor, a leveza – que lhe é devido. Não faz dele o pináculo da música ocidental, mas também não o despreza como algum tipo de ópio para as massas. O argumento do livro poderia ser resumido com uma paráfrase daquele velho slogan de refrigerante: o pop é isso aí. E não precisa ser nada mais.

Autor do romance Alta Fidelidade, Hornby, aos 47 anos, dedica-se a explorar as angústias de uma geração que cresceu em um mundo no qual o pop se tornou uma realidade inescapável. É virtualmente impossível que alguém chegue aos 30 ou 40 anos sem saber quem foram os Beatles. Nessas circunstâncias, a maturidade vem acompanhada de algumas questões prementes: a música que ouvi na adolescência tem alguma importância? Faz parte do que sou hoje? Será que ainda tenho idade para ouvi-la? Mesmo reconhecendo a (deliciosa) banalidade do pop, Hornby responde a todas essas perguntas com um entusiasmado "sim". Afinal, ele mesmo admite que só escreve livros porque não tem talento musical. (Como o leitor pode conferir na foto da página ao lado, o escritor tem mais pinta de primo esquecido da família Addams do que de rockstar.)

O ensaísta de 31 Canções circula pelo vasto universo do pop com uma postura ecumênica. Hornby relembra com uma pitada de nostalgia a sua adolescência metaleira, quando se recusaria a ouvir cantores que não "aceitavam alegremente comer roedores e/ou répteis". Mas já superou esse purismo quase religioso que caracteriza o fã adolescente. Amadurecer, para ele, foi cultivar uma tolerância que enriqueceu sua coleção de discos. Esse ecletismo se reflete nas 31 canções do livro. A lista inclui desde as harmonias do grupo vocal americano The Velvelettes (anos 60, lembra?) até as doidas colagens eletrônicas do grupo australiano The Avalanches (século XXI, conhece?). A seleção é ampla o suficiente para contemplar alguns itens obscuros. O extinto grupo inglês The Bible, por exemplo, parece ter entrado só porque Hornby era amigo de um de seus membros.

Não é só o jovem fã que encara o pop com seriedade excessiva. Os críticos de música, lembra Hornby, também são assim. Exigem que toda nova banda seja de algum modo provocativa ou perturbadora, e desmerecem canções que sejam simplesmente alegres ou divertidas. Essa crítica à crítica tem sua razão de ser, mas também descortina uma tendência perigosa em Hornby: ele nutre um certo desprezo por tudo que cheire a "intelectual". Deixa até a impressão de que ninguém é capaz de gostar genuinamente de jazz ou música erudita. As pessoas só ouviriam esses gêneros por pedantismo.

Esse lado de guerrilheiro do pop não casa bem com o jeito leve-e-solto que Hornby recomenda para quem deseja apreciar Nelly Furtado. Mas 31 Canções tem mesmo, ao lado de várias boas sacadas, suas contradições e inconsistências. Hornby por vezes assume até um tom professoral, quase autoritário. Diz, por exemplo, que "qualquer um que gosta de música" tem o disco Blood on the Tracks, de Bob Dylan, em sua coleção. 31 Canções deve ser lido com o espírito de quem ouve uma boa canção pop: o leitor pode se divertir, mas é bom não levar nada muito a sério. Nick Hornby é isso aí.

 

CINCO QUESTÕES SOBRE O POP – E AS RESPOSTAS DE NICK HORNBY  

1. HOJE AINDA SE FAZ BOA MÚSICA POP?
O que diz o autor:
Sim. O pop é ligado ao momento. Não adianta adotar aquela postura saudosista de achar que só os Beatles prestam
Ele tem razão? Sim. A graça do pop está em sua ligação com o presente – quem fica preso às velharias acaba fossilizado

2. LETRA DE MÚSICA POP É POESIA?
O que diz o autor:
Hornby desconfia da aura de artista "sério" de compositores como Bob Dylan. "A melhor música conecta-se à alma, não ao cérebro", diz.
Ele tem razão? De fato, poesia e letra de música são coisas diferentes – o que não significa que não exista vida inteligente no pop.

3. O MELHOR POP É AGRESSIVO E ANTI-SOCIAL?
O que diz o autor:
São os críticos de música que exigem canções sobre drogas, desespero, raiva. Hornby prefere o pop light de grupos como o Teenage Fanclub
Ele tem razão? Até certo ponto. Quem tomar muito a sério esse desejo de música alegre (e essa implicância com a crítica musical)
só vai ouvir Britney Spears  

4. MÚSICA POP É DESCARTÁVEL?
O que diz o autor:
Sim, e aceitar isso pode ser um sinal de maturidade, um reconhecimento das limitações do gênero. A canadense Nelly Furtado seria um exemplo do bom pop descartável
Ele tem razão? Na mosca. Mesmo os grandes clássicos do pop têm algo de descompromissado

5. POP É SÓ PARA ADOLESCENTES?
O que diz o autor:
Não. O rock ficou mais pueril depois do movimento punk, mas ainda há artistas que falam ao pessoal maduro, como Elvis Costello
Ele tem razão? Sim. O grande alvo da indústria musical são mesmo os adolescentes. Mas alguns artistas têm conseguido envelhecer junto com seu público

 

 
 
 
 
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