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Livros Crítica
da razão pop Nick Hornby filosofa sobre o valor da
música jovem em ensaios sobre suas canções favoritas
 Jerônimo
Teixeira
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Um
provérbio conhecido (e obtuso) recomenda que nunca se discutam religião,
futebol nem política. A música pop também poderia constar
desse índex popular. Tal como a fé, a paixão por um time
ou a ideologia, ela é um desses temas em que as mais tolas preferências
pessoais com freqüência esmagam qualquer argumentação
civilizada. O escritor inglês Nick Hornby sabe bem disso. Seu mais recente
livro, 31 Canções (tradução de Lúcia
Helena Schaefer de Brito; Rocco; 160 páginas; 45 reais), já no título
aponta para o caráter arbitrário de qualquer discussão sobre
os méritos do pop. Por que 31, e não 30, ou 32 canções?
Hornby não diz de onde tirou esse número. Nem precisa. Nessa coletânea
de ensaios ligeiros, ele quer apenas falar das músicas de que mais gosta.
Mais importante que discutir essas escolhas (Samba Pa Ti, de Santana? E
Rod Stewart? Tenha dó!) é atentar para a atitude desencucada que
o autor assume diante de seu tema. Hornby atribui ao pop o peso ou melhor,
a leveza que lhe é devido. Não faz dele o pináculo
da música ocidental, mas também não o despreza como algum
tipo de ópio para as massas. O argumento do livro poderia ser resumido
com uma paráfrase daquele velho slogan de refrigerante: o pop é
isso aí. E não precisa ser nada mais.
Autor do romance Alta Fidelidade, Hornby, aos 47 anos, dedica-se a explorar
as angústias de uma geração que cresceu em um mundo no qual
o pop se tornou uma realidade inescapável. É virtualmente impossível
que alguém chegue aos 30 ou 40 anos sem saber quem foram os Beatles. Nessas
circunstâncias, a maturidade vem acompanhada de algumas questões
prementes: a música que ouvi na adolescência tem alguma importância?
Faz parte do que sou hoje? Será que ainda tenho idade para ouvi-la? Mesmo
reconhecendo a (deliciosa) banalidade do pop, Hornby responde a todas essas perguntas
com um entusiasmado "sim". Afinal, ele mesmo admite que só escreve livros
porque não tem talento musical. (Como o leitor pode conferir na foto da
página ao lado, o escritor tem mais pinta de primo esquecido da família
Addams do que de rockstar.) O ensaísta de
31 Canções circula pelo vasto universo do pop com uma postura
ecumênica. Hornby relembra com uma pitada de nostalgia a sua adolescência
metaleira, quando se recusaria a ouvir cantores que não "aceitavam alegremente
comer roedores e/ou répteis". Mas já superou esse purismo quase
religioso que caracteriza o fã adolescente. Amadurecer, para ele, foi cultivar
uma tolerância que enriqueceu sua coleção de discos. Esse
ecletismo se reflete nas 31 canções do livro. A lista inclui desde
as harmonias do grupo vocal americano The Velvelettes (anos 60, lembra?) até
as doidas colagens eletrônicas do grupo australiano The Avalanches (século
XXI, conhece?). A seleção é ampla o suficiente para contemplar
alguns itens obscuros. O extinto grupo inglês The Bible, por exemplo, parece
ter entrado só porque Hornby era amigo de um de seus membros.
Não é só o jovem fã que encara o pop com seriedade
excessiva. Os críticos de música, lembra Hornby, também são
assim. Exigem que toda nova banda seja de algum modo provocativa ou perturbadora,
e desmerecem canções que sejam simplesmente alegres ou divertidas.
Essa crítica à crítica tem sua razão de ser, mas também
descortina uma tendência perigosa em Hornby: ele nutre um certo desprezo
por tudo que cheire a "intelectual". Deixa até a impressão de que
ninguém é capaz de gostar genuinamente de jazz ou música
erudita. As pessoas só ouviriam esses gêneros por pedantismo.
Esse lado de guerrilheiro do pop não casa bem com o jeito leve-e-solto
que Hornby recomenda para quem deseja apreciar Nelly Furtado. Mas 31 Canções
tem mesmo, ao lado de várias boas sacadas, suas contradições
e inconsistências. Hornby por vezes assume até um tom professoral,
quase autoritário. Diz, por exemplo, que "qualquer um que gosta de música"
tem o disco Blood on the Tracks, de Bob Dylan, em sua coleção.
31 Canções deve ser lido com o espírito de quem ouve
uma boa canção pop: o leitor pode se divertir, mas é bom
não levar nada muito a sério. Nick Hornby é isso aí.
CINCO QUESTÕES SOBRE O POP E AS
RESPOSTAS DE NICK HORNBY 1. HOJE AINDA SE
FAZ BOA MÚSICA POP? O que diz o autor: Sim. O pop é ligado
ao momento. Não adianta adotar aquela postura saudosista de achar que só
os Beatles prestam Ele tem razão? Sim. A graça do pop
está em sua ligação com o presente quem fica preso
às velharias acaba fossilizado 2. LETRA
DE MÚSICA POP É POESIA? O que diz o autor: Hornby desconfia
da aura de artista "sério" de compositores como Bob Dylan. "A melhor música
conecta-se à alma, não ao cérebro", diz. Ele tem razão?
De fato, poesia e letra de música são coisas diferentes
o que não significa que não exista vida inteligente no pop.
3. O MELHOR POP É AGRESSIVO E ANTI-SOCIAL? O que diz o autor:
São os críticos de música que exigem canções
sobre drogas, desespero, raiva. Hornby prefere o pop light de grupos como o Teenage
Fanclub Ele tem razão? Até certo ponto. Quem tomar muito
a sério esse desejo de música alegre (e essa implicância com
a crítica musical) só vai ouvir Britney Spears
4. MÚSICA POP É DESCARTÁVEL? O
que diz o autor: Sim, e aceitar isso pode ser um sinal de maturidade, um reconhecimento
das limitações do gênero. A canadense Nelly Furtado seria
um exemplo do bom pop descartável Ele tem razão? Na
mosca. Mesmo os grandes clássicos do pop têm algo de descompromissado
5. POP É SÓ PARA ADOLESCENTES? O
que diz o autor: Não. O rock ficou mais pueril depois do movimento
punk, mas ainda há artistas que falam ao pessoal maduro, como Elvis Costello
Ele tem razão? Sim. O grande alvo da indústria musical são
mesmo os adolescentes. Mas alguns artistas têm conseguido envelhecer junto
com seu público | | |