Edição 1894 . 2 de março de 2005

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OTIMISMO. Volto ao meu otimismo: estamos no melhor dos mundos. Claro, se não considerarmos a hipótese, cada vez mais provável, de um Severino global (estou falando do Bush) explodir com isso tudo. Ele começa, ou a Coréia, ou o Irã, um explode aqui, outro explode ali e, em 43,10 segundos (calculei), explode tudo.

"Uma guerra com bombas de hidrogênio acabará com a raça humana. Haverá uma morte universal, imediata apenas para uma minoria afortunada. Para a maioria será uma tortura lenta, com doenças, dores e desintegração."
(Bertrand Russel, logicista)

Mas não cedo ao pessimismo. Sempre acreditei na estupidez dos homens, mas duvido totalmente da eficiência da tecnologia para destruir todo o mundo. Vai sobrar gente.

E essa gente que sobrou terá sido a solução para o problema – do qual se fala muito pouco – da superpopulação. Pois já somos seis bilhões. Não sei como isso afeta a vida aí onde vocês moram. Aqui no Rio é assustador. Quando saio, a qualquer hora do dia ou da noite, a Super está toda lá, na Avenida Copacabana.

OTIMISMO (por quê). Vocês já pararam pra comparar este mundo, início do século XXI, com este, início do XX? A diferença, pra melhor, mas que faz parecer pior, é sabermos tudo. Quaisquer 23 mortos em Bagdá chegam à nossa sala de jantar na mesma hora e são repetidos, e repetidos, e repetidos viram milhares. A Guerra do Vietnã nos deixou, como retrato mais dramático, "apenas" a menina nua queimada de napalm. E quase ninguém soube, nos anos 20, do genocídio (promovido pelos turcos) que matou um milhão de armênios numa população de três.

No início do XX, não conhecíamos pessoalmente o micróbio, o iniciante raio X arrancava dedos e membros dos cientistas, a paralisia infantil aleijava milhões de crianças (acabou, no Brasil!), as pessoas morriam de raiva (era doença, hoje é só irritação), poucas décadas antes Marx escrevia o Manifesto enquanto esgravatava seus furúnculos, havia muita peste (no Brasil, só a amarela matou dezenas de milhares de pessoas), o telefone ainda espantava ("E isto fala!"), a eletricidade chocava e eletrocutava, não havia televisão, hoje um bem universal, não tinham inventado o surfista, esse ser humano maravilhoso, NÃO HAVIA CINEMA!!!, e morríamos aos 41 anos. E a falta de higiene fazia do mundo um gigantesco bodum. Pequeno exemplo:

No livro Wings of Madness, de Paul Hoffman (Hyperion, NY, 360 páginas), Santos Dumont descreve o esforço para um supergrã-fino como ele tomar um banho na Iluminada Paris:

"'Un bain, Monsieur? Mais parfaitement! Mandarei um banho pro senhor às cinco da tarde, em ponto', disse a solícita concierge, quando lhe pedi um banho, de imersão completa. 'Mas eu quero o banho agora, antes do breakfast', insisti. 'Impossível, Monsieur, é preciso tempo pra preparar o banho e trazer. Mas, lhe garanto, é um banho soberbo. O último cavalheiro que o tomou, no início do mês, ficou encantado. O senhor verá, Monsieur, quando se ordena um banho em Paris, se recebe um belo banho. Às quatro em ponto estará aqui.'

Às quatro, um par de pernas subiu com esforço as minhas escadas – cinco lances, pra ser exato – com uma enorme tina de zinco, invertida, cobrindo a cabeça, os ombros e parte do corpo do miserável proprietário delas, pernas. A tina foi plantada no meio do quarto: um tapete de linho branco colocado no chão, várias toalhas e um lençol de linho para me envolver depois da provação foram exibidos com ostentação. Aí veio a complexa operação de encher a tina. Dois baldes, três empregados e incontáveis viagens até o hidrante no andar térreo. Afinal, completada a operação – uma tina cheia d'água absolutamente gelada. 'Mas eu ordenei um banho quente.' 'Paciência, Monsieur, aqui está a água quente!' E imediatamente o servidor exibiu enorme cilindro de zinco parecendo um extintor de incêndio e derramou dois galões de água quente na água gelada da tina – resultando tudo num banho menos que morno. Preço total – 60 cents. Tempo decorrido – duas horas. Pois a tina teve de ser esvaziada em baldes, levados pelas escadas um a um. Só aí o orgulhoso proprietário enfiou nos braços os baldes vazios, colocou a tina na cabeça como um chapéu e começou a perigosa descida dos meus cinco andares."

O QUE PREVEJO IMEDIATAMENTE:

COM OTIMISMO:

Daqui a seis anos, teremos, incrustado nos ombros, um terabyte-chip (1.099,511, 627,776 bytes) anulando a gravidade individual. Vamos voar como os pássaros! Em percursos locais, depois o mundo. Isso eliminará a praga do nosso tempo, o automóvel-individual, trambolhão egoísta, custoso, poluente, assassino.

COM PESSIMISMO:

Até o fim do ano, é, estou falando de 2005!, já terá um severino qualquer mandando instalar no corpo um mega-chip (1 048,576 bytes) do Google com todas as informações existentes no mundo. Toda a VEJA, todo o New York Times, toda a Folha, tudo. Qualquer coisa que você disser, ele responderá na bucha. Ele sabe!

 
 
 
 
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