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OTIMISMO. Volto ao meu otimismo: estamos
no melhor dos mundos. Claro, se não considerarmos a hipótese,
cada vez mais provável, de um Severino global (estou falando
do Bush) explodir com isso tudo. Ele começa, ou a Coréia,
ou o Irã, um explode aqui, outro explode ali e, em 43,10
segundos (calculei), explode tudo.
"Uma guerra com bombas de
hidrogênio acabará com a raça humana. Haverá
uma morte universal, imediata apenas para uma minoria afortunada.
Para a maioria será uma tortura lenta, com doenças,
dores e desintegração."
(Bertrand Russel, logicista)
Mas não cedo ao pessimismo.
Sempre acreditei na estupidez dos homens, mas duvido totalmente
da eficiência da tecnologia para destruir todo o mundo.
Vai sobrar gente.
E essa gente que sobrou terá
sido a solução para o problema do qual se fala
muito pouco da superpopulação. Pois já
somos seis bilhões. Não sei como isso afeta a vida
aí onde vocês moram. Aqui no Rio é assustador.
Quando saio, a qualquer hora do dia ou da noite, a Super
está toda lá, na Avenida Copacabana.
OTIMISMO (por quê).
Vocês já pararam pra comparar este mundo, início
do século XXI, com este, início do XX? A diferença,
pra melhor, mas que faz parecer pior, é sabermos tudo. Quaisquer
23 mortos em Bagdá chegam à nossa sala de jantar na
mesma hora e são repetidos, e repetidos, e repetidos viram
milhares. A Guerra do Vietnã nos deixou, como retrato mais
dramático, "apenas" a menina nua queimada de napalm. E quase
ninguém soube, nos anos 20, do genocídio (promovido
pelos turcos) que matou um milhão de armênios numa
população de três.
No início do XX, não
conhecíamos pessoalmente o micróbio, o iniciante raio
X arrancava dedos e membros dos cientistas, a paralisia infantil
aleijava milhões de crianças (acabou, no Brasil!),
as pessoas morriam de raiva (era doença, hoje é só
irritação), poucas décadas antes Marx escrevia
o Manifesto enquanto esgravatava seus furúnculos,
havia muita peste (no Brasil, só a amarela matou dezenas
de milhares de pessoas), o telefone ainda espantava ("E isto fala!"),
a eletricidade chocava e eletrocutava, não havia televisão,
hoje um bem universal, não tinham inventado o surfista, esse
ser humano maravilhoso, NÃO HAVIA CINEMA!!!, e morríamos
aos 41 anos. E a falta de higiene fazia do mundo um gigantesco bodum.
Pequeno exemplo:
No livro Wings of Madness,
de Paul Hoffman (Hyperion, NY, 360 páginas), Santos Dumont
descreve o esforço para um supergrã-fino como ele
tomar um banho na Iluminada Paris:
"'Un bain, Monsieur? Mais
parfaitement! Mandarei um banho pro senhor às cinco da
tarde, em ponto', disse a solícita concierge, quando
lhe pedi um banho, de imersão completa. 'Mas eu quero
o banho agora, antes do breakfast', insisti. 'Impossível,
Monsieur, é preciso tempo pra preparar o banho e trazer.
Mas, lhe garanto, é um banho soberbo. O último cavalheiro
que o tomou, no início do mês, ficou encantado. O senhor
verá, Monsieur, quando se ordena um banho em Paris, se recebe
um belo banho. Às quatro em ponto estará aqui.'
Às quatro, um par de pernas
subiu com esforço as minhas escadas cinco lances,
pra ser exato com uma enorme tina de zinco, invertida, cobrindo
a cabeça, os ombros e parte do corpo do miserável
proprietário delas, pernas. A tina foi plantada no meio do
quarto: um tapete de linho branco colocado no chão, várias
toalhas e um lençol de linho para me envolver depois da provação
foram exibidos com ostentação. Aí veio a complexa
operação de encher a tina. Dois baldes, três
empregados e incontáveis viagens até o hidrante no
andar térreo. Afinal, completada a operação
uma tina cheia d'água absolutamente gelada. 'Mas
eu ordenei um banho quente.' 'Paciência, Monsieur, aqui está
a água quente!' E imediatamente o servidor exibiu enorme
cilindro de zinco parecendo um extintor de incêndio e derramou
dois galões de água quente na água gelada da
tina resultando tudo num banho menos que morno. Preço
total 60 cents. Tempo decorrido duas horas. Pois a
tina teve de ser esvaziada em baldes, levados pelas escadas um a
um. Só aí o orgulhoso proprietário enfiou nos
braços os baldes vazios, colocou a tina na cabeça
como um chapéu e começou a perigosa descida dos meus
cinco andares."
O QUE
PREVEJO IMEDIATAMENTE:
COM OTIMISMO:
Daqui a seis anos, teremos, incrustado
nos ombros, um terabyte-chip (1.099,511, 627,776 bytes) anulando
a gravidade individual. Vamos voar como os pássaros! Em percursos
locais, depois o mundo. Isso eliminará a praga do nosso tempo,
o automóvel-individual, trambolhão egoísta,
custoso, poluente, assassino.
COM PESSIMISMO:
Até o fim do ano, é,
estou falando de 2005!, já terá um severino qualquer
mandando instalar no corpo um mega-chip (1 048,576 bytes)
do Google com todas as informações existentes
no mundo. Toda a VEJA, todo o New York Times, toda a Folha,
tudo. Qualquer coisa que você disser, ele responderá
na bucha. Ele sabe!
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