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Em
foco: Gustavo Franco Inflação
(a nova) e política monetária (a velha)
"Parece
existir algo de novo e ainda não devidamente compreendido na inflação
posterior a 1999" De 1999 a 2004, período em
que implantamos as "metas de inflação" e a flutuação
cambial, a inflação média anual pelo IPCA foi de 8,7%, e
de 7,7% no ano passado. Pelo IGPM os números são 14,5% e 11,9% respectivamente.
Raramente, nesses anos, conseguimos uma leitura abaixo de 6%.
Em 1998, último ano de vigência da "âncora cambial", a inflação
medida pelo IPCA foi de 2,5%, e pelo IGPM de 1,8%. Deu deflação
de 1,8% no índice de custo de vida em São Paulo medido pela Fipe.
Note-se que durante o período da "âncora
cambial", de 1995 até o fim de 1998, o câmbio sofria uma desvalorização
anual de cerca de 8%. Já nos dois anos e pouco do governo Lula o câmbio
só fez cair: fomos de 3,62 reais para 2,57, 29% de valorização
nominal, com uma inflação acumulada na faixa de uns 20%. Um colosso
em matéria de usar a velha medicação "juro para cima
& câmbio para baixo" , porém, e inesperadamente, com muito
pouco sucesso: a inflação tem revelado bastante resistência
a cair para níveis internacionais. A grande pergunta é: por que
a fórmula perdeu sua eficácia? Mudou a inflação ou
mudou a política monetária? Ou ambas?
Ilustração
Ale Setti
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É
interessante observar que parece mesmo existir algo de novo e ainda não
devidamente compreendido na inflação posterior a 1999. Os economistas
brasileiros se tornaram especialistas nas altas temperaturas, e não entendem
muito bem esse tipo de inflação baixinha mas enjoada, movida por
sutilezas e fatores que desprezávamos no tempo em que 99% dos problemas
pareciam relacionados com indexação. Sem dúvida, essa nova
inflação parece ter uma dinâmica um tanto diversa da anterior.
Passamos muitos anos estudando mecânica celeste, e o problema agora é
de mecânica quântica. Mudanças de preços relativos ou
de produtividade (pequenos "choques de oferta"), volatilidade cambial (risco que
se torna custo) e mesmo a taxa de juro (real) como elemento de custo são
ingredientes novos que parecem relevantes neste novo contexto, no qual a microeconomia
da formação de preços se tornou diferente do que era antes.
Podem estar aí algumas chaves importantes para o enigma de ineficácia
da política monetária.
Mas isso é
apenas metade da história. Há também problemas com respeito
às instituições, práticas e instrumentos de política
monetária, e pelo menos três bons motivos para explicar o que parecem
ser alguns entupimentos nos chamados "canais de transmissão" da política
monetária. Primeiro, como tem sido observado
pelas autoridades, a existência de "crédito direcionado" isola certos
setores do aperto monetário e conseqüentemente reduz sua eficácia.
O cliente do BNDES, do FGTS ou do crédito rural está "protegido"
dos juros de mercado, às custas dos demais devedores condenados a pagar
spreads absurdos. Com muitas "exceções", as regras perdem importância.
Em segundo lugar há o problema de os juros
serem tão escandalosos no crédito pessoal, no cheque especial e
mesmo no crédito ao consumidor que o devedor não faz conta (exceto
talvez pelo número de prestações), de modo que 0,25% ou mesmo
1% a mais não faz a menor diferença. E, para piorar as coisas para
a política monetária, que pretende derrubar o consumo, há
o advento do crédito consignado, que permite ao endividado sair de dívidas
que custam mais de 7% ao mês para outras a 3% ao mês. É claro
que para quem faz esse movimento a sensação é de alívio,
e se traduz mesmo em mais consumo. E por fim há
uma dificuldade muito conhecida: o porcentual elevado da dívida pública
na forma de títulos indexados à taxa de juros do "overnight" permite
que uma riqueza da ordem de 460 bilhões de reais permaneça totalmente
protegida de variações nos juros. É curioso que se diga que
o Tesouro não deve emitir títulos com correção cambial
para não dar moleza a quem tem dívidas em dólar; a moleza
para quem não quer correr risco de juros é total, irrestrita e gratuita.
Os progressos no combate à inflação
vão ser muito lentos diante desses fatores todos, e ainda mais penosos
se o câmbio voltar a subir. Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.com,
www.gfranco.com.br)
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